CONEXÃO JIU-JITSU, KARATE E MMA, POR MAURO FROTA

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Mauro Frota e o momento do ‘rola’ com Vinicio Antony. Foto: Beira Alta Tv

 

Conexão Jiu Jitsu, Karate e MMA

 

Uma grande lição de humildade nos aguardava logo no primeiro contacto com o Sensei Vinicio Antony, 5º Dan de Karate, faixa preta 4º grau de BJJ e coach de atletas de alta performance de MMA, incluindo Vitor Belfort do UFC. Ao chegarmos ao primeiro de 3 seminários com temas diferentes, durante 2 dias, em São Romão, Seia, somos recebidos pelo Sensei Vinicio Antony de faixa branca amarrada na cintura.

 

Conta-nos uma pequena estória, em que recebeu um telefonema de um outro mestre de karate com interesse em frequentar um dos seus seminários. Este mestre, 6º dan, ao se aperceber que o Sensei Vinicio seria “apenas” 5º dan, disse logo que não poderia frequentar o seminário, pois não teria nada a aprender de um 5º dan. A partir desse dia, ministra a parte de gi dos seus seminários com faixa branca. Um simbolismo importante numa altura em que o ego se sobrepõe, muitas vezes, à genuína vontade de aprender e evoluir.

 

O primeiro dos três seminários de 3 horas cada foi dedicado a uma reinterpretação mais funcional dos kata (formas) do karate, por forma a se conseguir utilizar os princípios que neles estão expressos tanto na luta em pé como na luta no chão. De repente, padrões de movimento que pouco se parecem com uma luta “de verdade” começam a assumir a forma de uma projeção ou de um ataque mais real – algo que facilmente poderemos ver em qualquer luta de MMA – que, como nos lembrou o Sensei Vinicio, é o que temos de mais próximo de uma luta de rua e do que é possível aplicar em combate real, ainda que dentro das regras de um desporto e com a presença de um árbitro; ainda assim, o MMA é um verdadeiro laboratório de testes e pesquisa para todos os que estão verdadeiramente interessados na funcionalidade e aplicabilidade das artes marciais em contexto mais “real”.

 

“Um mestre como há poucos e que tenta resgatar o carácter funcional da arte milenar do karate, tão banalizado em todo o mundo, mas infelizmente tão associado a algo que não funciona; uma missão a que, pessoalmente, me associo e que me fez mergulhar também no fantástico mundo do Jiu Jitsu brasileiro.”

 

O segundo seminário, já num contexto nogi, serviu essencialmente para treinar a conexão entre o trabalho de striking, o trabalho de projeção (nage waza) e o trabalho no solo (ne waza – BJJ), em que se enfatizou o Jiu Jitsu da perspectiva de um striker, que quer permanecer em pé e que, para isso, deverá desenvolver um excelente jogo de anti-grappling e formas de se levantar do solo, caso o adversário consiga a projeção. Um trabalho muito técnico, cheio de pormenores brilhantes, úteis a qualquer atleta de MMA ou atleta de Jiu Jitsu “passador” e que pretende sair da posição de guarda ou outra menos favorável, por forma a fazer impor a sua táctica.

 

Para o terceiro e último seminário aguardavam-nos 3 horas de puro Jiu Jitsu, embora de nível básico, em virtude da maioria dos atletas presentes serem karatecas com pouca ou nenhuma experiência na luta no chão. Foram apresentadas várias submissões e respectivas defesas: mata-leão, armlock da montada, kimura e triangulo. As defesas foram apresentadas por ordem de concretização da submissão: o que fazer para evitar a submissão, que defesa fazer na fase inicial da submissão, e finalmente o que fazer para defender um golpe momentos antes de estar completamente encaixado.

 

Seminário terminado e ficou no ar a sensação de que o Sensei Vinicio Antony tem mesmo muito a oferecer em termos técnicos, e ficou-nos na memória as lições de moral marcial com que fomos agraciados. Um mestre como há poucos e que tenta resgatar o carácter funcional da arte milenar do karate, tão banalizado em todo o mundo, mas infelizmente tão associado a algo que não funciona; uma missão a que, pessoalmente, me associo e que me fez mergulhar também no fantástico mundo do Jiu Jitsu brasileiro.

 

No final ficou também o prazer pessoal de ajudar o Sensei Vinicio e auxiliar os participantes no seminário dedicado exclusivamente ao Jiu Jitsu brasileiro.

 

Resta-me agradecer ao organizador, Pedro Veloso, da União de Karate Shotokan das Beiras, pela organização deste fantástico evento e pelo convite endereçado ao JiuJitsuPortugal.

 

Por Mauri Frota