EBI 7 – A ANÁLISE DEFINITIVA, POR DIOGO TRIGO

13509066_288895214791630_6726336511188537678_n

 

EBI 7 – A análise definitiva

 

Dia 16 de Julho em Los Angeles (na Europa o evento será na madrugada de sábado 16 para domingo 17) vamos testemunhar o regresso do Eddie Bravo Invitational (EBI). À sétima edição do torneio de Jiu Jitsu sem pano submission only, a competição vai ver 16 dos mais excitantes peso pena do mundo (-65kg) a lutar por potenciais 20.000 dólares, atribuídos ao vencedor do torneio sob a forma de 5000 dólares por cada submissão no tempo regulamentar. Para alcançar o sonante metal (e o não menos sonante cinturão), terá de vencer um torneio com 15 outros competidores de topo, cada um praticamente de uma escola diferente e com uma estratégia muito particular. Se “estilos fazem lutas”, poderemos assistir não apenas a um choque de táticas de jogo, mas a um confronto de filosofias de vida.

 

Novamente transmitido na plataforma da UFC – Fight Pass (que nos sentimos na obrigação de recordar que inclui uma semana gratuíta sem compromisso a todos os novos registos), após o evento de peso absoluto, deixamos para trás a força e a intensidade dos enormes colossos para regressarmos a agilidade, estamina e velocidade explosiva dos colibris.

 

O JiuJitsuPortugal conversou com dois dos competidores do torneio: o favorito Geo Martinez e a nova promessa Ashley Williams.

 

Geo “Freakazoid” Martinez é um anterior vencedor  que faz o seu regresso à competição que o apresentou ao público. Este b-boy prodígio começou a praticar Jiu Jitsu em 2011 e foi promovido a faixa preta por Eddie Bravo em apenas 3 anos. Favorecendo um estilo de jogo muito pouco ortodoxo mas bastante entusiasmante, costuma usar posições fluidas como a truck para apanhar uma chave de panturrilha ou um twister. Venceu os dois primeiros EBI (pesos galo e pena). Venceu também os trials do ADCC nos EUA (divisão oeste), e marcou presença no ADCC de 2015, onde submeteu Alexandre Vieira e derrotou Jeff Glover, caindo por pontos nas semi-finais para Bruno Frazatto. Foi parado por Joe Soto nos quartos de final do EBI 4 no tempo extra (tempo de fuga mais rápido) e recentemente controlou mas não conseguiu finalizar Luiz Tosta no Polaris 3. Um competidor muito imprevisível e entusiasmante que se foca apenas na finalização, tem por vezes problemas em achar vias de entrada perante adversários mais defensivos.

 

Em conversa com o nosso site, apesar de realçar que o seu objectivo é a vitória seja frente a quem for, Geo não se escusa a admitir que gostaria de enfrentar o campeão em título Eddie Cummings. Uma luta-casada entre os dois tem vindo a ser combinada há muito tempo, mas ainda não foi concretizada e aparentemente só irá acontecer após o torneio. Não esconde também a vontade de ter uma revanche com Joe Soto, estando desta vez bem focado nas regras do torneio, especificamente as situações de tempo extra. Explicando que não pode determinar a luta os seus adversários, mas apenas o seu próprio comportamento, confirmou que se mantém fiel à sua filosofia de busca incessável pela finalização, de preferência com uma transição vistosa e entusiasmante para os espectadores mas, realça, sem se comprometer com erros ou “asneiras estúpidas”. Está preparado para controlar o relógio mas, se necessário, ganhar os combates por tempo extra, tendo vindo a trabalhar nas suas fugas de armlock e de costas. Não tem a luta de pé mais sólida do mundo, por isso prevemos que optará por sentar a guarda se não conseguir uma gravata voadora, ou uma esporádica tentativa de queda-tesoura, já que chaves de perna são algo que tem vindo estudar.

 

Do outro lado do espetro encontra-se o jovem galês Ashley Williams, com quem tambem chegámos à fala. Treinando há oito anos e meio, o nativo de Swansea com apenas 23 anos é o faixa preto britânico mais novo e poderá ser uma das grandes surpresas do torneio. Não obstante a tenra idade, apresenta um currículo invejável, tendo ganho o título de campeão europeu sem kimono quer em faixa castanha (2015) quer preta (2016), aos quais junta 6 títulos britânicos. Baseado num pequeno ginásio no País de Gales, o único atleta europeu presente no torneio admitiu-nos que ficou surpreendido pelo convite, mas que irá fazer o seu melhor, naquele que será provavelmente o maior desafio da sua carreira, até agora. Favorecendo um o jogo de topo e pressão para passar a guarda, apesar de apreciador confessa que o muito tempo de treino sob as regras da IBJJF lhe traz alguma desvantagem nas chaves de pernas perante alguns dos nomes presentes. Posta esta precaução, não se coíbe de almejar o título, estando mentalmente preparado para enfrentar seja quem forem os adversários que lhe apresentem.

 

E o leque de potenciais adversários que aguarda que aguarda estes guerreiros é de digno das tarefas de Hércules: incluindo Martinez, três são os anteriores vencedores do torneio a marcar presença, começando pelo actual campeão Eddie Cummings. Com 32 anos, o faixa preta de John Danaher da Renzo Gracie Academy New York será o mais óbvio favorito à vitória. O maior (?) especialista actual em chaves de perna tem sido um valor cada vez mais seguro nos últimos anos e ao sucesso no EBI (vitória no EBI 4, parado apenas nas semi-finais do EBI 3 pelo parceiro Garry Tonon), juntam-se a vitória nos trials do ADCC nos EUA (divisão leste) e consequente presença no ADCC de 2015, onde caiu na segunda ronda por uma penalização para Augusto Tanquinho (com quem empatou num segundo combate já este ano no Polaris 3).

 

Nos últimos anos, Cummings derrotou os presentes Denny Prokopos (Gracie Nationals 2015), Baret Yoshida (EBI 4) e Joe Soto (EBI 4). Senhor de uma capacidade de retenção de guarda fenomenal, é acusado por alguns de ser “mono-dimensional” (todas as suas submissões de que há memória foram por chave de calcanhar), mas em anos recentes apenas Garry Tonon demonstrou ter jogo para o finalizar. Ficaremos muito surpreendidos se a sua estratégia for outra que não sentar na guarda de ganchos para entrar em ashi garami e caçar um heelhook.

 

O terceiro vencedor presente no torneio é Denny Prokopos. O primeiro faixa preta de Eddie Bravo é também aquele que joga um jogo mais semelhante ao do seu mestre. Com uma perigosíssima guarda de borracha, complementada com um completo jogo de meia-guarda (lockdown ), tem um jogo sem pano muito sólido que lhe valeu o cinturão do EBI 2 (peso leve) e o título mundial sem kimono faixa castanha (2007) e bronze em 2009. Tal como Geo Martinez, sabemos que nos últimos anos tem vindo a trabalhar nas chaves de pernas. De interesse será ver se se encontra com Rafael Domingos na competição, que no EBI 5 o eliminou por chave de braço no tempo extra, após um round quase completo a trocar luta em pé.

 

Rafael Domingos esse que viria a chegar à final do EBI 5, onde caiu para Garry Tonon. O faixa preta de Demian Maia é lutador de MMA e medalhado bronze faixa castanha no mundial de 2013. À vontade nas chaves de pernas, favorece preferencialmente um jogo de topo e de pressão, que lhe permite um registo de MMA de 7-1-0, com 5 das vitórias por submissão, e procura melhorar o registo que conseguiu no ano passado a única forma possível: a vitória final.

 

Também veterano do EBI com resultados mistos (nunca ganhou o título, mas já eliminou favoritos como Geo Martinez e João Miyao), o wrestler e lutador de MMA Joe Soto foi campeão peso pena da Bellator (16 vitórias em 21 combates, 9 das quais por submissão).  Menos de um mês após a sua vitória por mata-leão na UFC Fight Night 89, este competidor irá provavelmente aplicar o seu estilo de jogo baseado na pressão de topo, aliado a um wrestling e quedas bastante sólidas. Nem sempre o lutador que mais luta pela finalização, sabe bem usar as regras do jogo para sobreviver até ao tempo extra do torneio, conseguindo ultrapassar adversários mais técnicos e que à partida seriam favoritos. O facto de apenas poder ganhar dinheiro com finalizações no tempo regulamentar poderá pesar desta feita na sua estratégia de jogo.

 

Em termos de veteranos, porém, nenhum o é mais do que Baret Yoshida. Aos 41 anos, o havaiano é o mais velho competidor no torneio, mas possivelmente também o mais laureado. Bi-campeão mundial (2008 e 2009) e bronze (2011) sem kimono, bi-medalhado prata (2001 e 2003) e bronze (2007) no ADCC, este competidor costuma favorecer um estilo de guarda aberta, que usa para transitar para o crucifixo, onde a sua percentagem de finalização é extremamente elevada. Chegou às semi-finais dos EBI 2 e 4, última das quais caiu por chave de calcanhar para Eddie Cummings.

 

O carioca João Alfredo Tavares tem demonstrado um enorme pulmão na divisão Masters nos últimos anos, tendo ganho um campeonato Pan Americano e um Abu Dhabi World Pro. Faixa preta de Julio Cesar Pereira desde 2004, a sua escola é afiliada quer à Grappling Fight Team quer à 10th Planet Jiu Jitsu, estando por isso bem habituado a trabalhar sem pano com diferentes tipos de estratégia. Menos conhecido no meio mainstream, poderá ser uma das surpresas da competição.

 

Mike Davila é um faixa castanha de Renzo Gracie, com um registo de MMA amador, ganhou os mundiais sem kimono em 2014, enquanto faixa roxa. Aplica pressão para passar a guarda, e esta estratégia ajudou-o a vencer em 2015 o torneio Show the Art FINISHERS, finalizando todos os adversários no tempo regulamentar, que lhe valeu o convite para este evento. Apesar de não fazer parte da equipa de John Danaher, também ele apresenta um jogo muito extensivo de chaves de perna. Não sendo favorito à vitoria, poderá fazer alguns estragos perante alguns dos nomes mais conceituados.

 

Da costa leste dos EUA, de New Jersey, chega-nos também Mike Main. O faixa preta de Yanni Hronakis competiu no EBI 4, onde foi finalizado por João Miyao, tendo agora uma segunda oportunidade para melhorar o seu registo na competição.  Um competidor e instrutor inovador, treina frequentemente com Marcelo Garcia, apresentando um estilo muito fluído. Ha relatos tanto de finalizar adversários na sua guarda como de raspar e  passar para finalizar nas costas, gostando também de transitar alternativamente para a truck.

 

Sergio Hernandez é faixa preta do também competidor Baret Yoshida. Este tatuador de San Diego participou no primeiro evento do EBI, e está invicto com 4 submissões noutros tantos combates de MMA. Favorecendo estilos pouco convencinais de guarda, que denomina de “guarda fechada reversa” e “guarda de borracha lateral”,  será interessante ver como alguns competidores com um jogo mais tradicional lidam com a sua estratégia.

 

O também californiano, atleta da checkmat, Jose de Jesus Gutierrez é faixa preto de Robson Rodrigues. Treina há 10 anos, e compete desde o grau de faixa roxa, apreciador do estilo de jogo de topo e de passagem de guarda a que nos habituámos a ver num Leo Vieira ou Leandro Lo. Poderá criar alguns problemas aos guardeiros com que se defronte na competição.

 

Faixa preta de Ricardo Miller, Bill “the Grill” Cooper está à procura de redenção no EBI, tendo sido submetido no EBI 1 pelo então faixa roxa Jake Swinney. Com 2 submissões em 3 combates profissionais e 3 em 3 em combates amadores de MMA, o veterano do Stikeforce tem também um palmarés invejável em Jiu Jitsu, com duas medalhas de prata nos mundiais faixa castanha (2007 e 2008), ouro no Pan Americano faixa castanha (2007), prata nos mundiais sem kimono (2007), e bronze no mundial com (2010) e sem pano (2008). Favorece a guarda aberta, e já o vimos finalizar lutas com praticamente todo o tipo de submissões.

 

Alex Ecklin é faixa preta de Vitor Shaolin Ribeiro e mais um veterano do EBI. Tem um palmarés consistente, com bronzes em faixa castanha no mundial de 2013 e no europeu de 2014. Treinado adicionalmente em Judo, tem no seu jogo um leque variado de raspagens da meia guarda, que usa preferencialmente para estabelecer uma finalização por kimura.

 

O lutador de MMA Ara Muradyan (5 vitórias em 7 combates, 2 das quais por submissão) será um dos competidores mais desconhecidos do publico. Treina na equipa Hayastan, que tem um sólido jogo de quedas e um estilo de pressão pesada, aos quais aliam um currículo extensivo de chaves de pernas. Poucas mais informações sabemos sobre ele.

 

Finalmente, o último competidor confirmado foi Chad “Savage” George, que substitui o lesionado Kim Terra. Campeão mundial sem pano em faixas azul, roxa e castanha (2010, 2012 e 2014), este faixa preta lutador da Bellator e veterano da WEC conseguiu 9 submissões em 16 vitórias de MMA, 8 das quais por estrangulamento. Favorece tomar as costas e finalizar com mata-leão ou trancar uma gravata contra um wrestler. Não sabemos porém quão sólida será a sua defesa de chaves de pernas para o permitir sobreviver a algumas das outras feras presentes no torneio.

 

O formato do torneio não prevê pausas, tendo os competidores de conseguir o combate mais rapidamente possível para poderem poupar energias. O único período de repouso previsto será antes da final, em que vamos assistir à super luta (e a mais um choque de estilos) entre as adolescentes Grace Gundrum e Janelle Tkaczuk. Grace Gungrum, a “Assassina Silenciosa” da 10th Planet Bethlehem, veterana e invicta de 3 super lugas no EBI (lutas essas que por vezes ofuscaram alguns dos combates dos adultos do torneio principal), defende o seu reinado no EBI perante Janelle Tkaczuk, uma das jovens estrelas do AOJ dos irmãos Mendes.

 

Diogo Trigo
Twitter – @DrDTrigo
Instagram – @DrDTrigo