PEDRO “PAQUITO” RAMALHO: “FICO COM POUCO TEMPO PARA OS MEUS AMIGOS”

Europeu, Abu Dhabi e agora vamos todos torcer pelo ouro no mundial da Califórnia. Será o primeiro triplete para o Jiu-Jitsu Português. Foto: Diogo Valença/ FPJJB

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Continuando a divulgar os jovens atletas portugueses, o nome Pedro Ramalho não podia faltar. Se calhar pelo nome de baptismo os leitores não sabem bem que é, mas se ouvirmos falar em “Paquito” o caso muda de figura. Pedro é presença regular na larga maioria dos campeonatos e eventos realizados em Portugal e conta já com uma participação no Mundial da IBJJF. Ah, é verdade – É campeão Europeu na faixa roxa, numa das categorias mais difíceis!

 

A primeira vez que ouvi falar dele foi numa bancada do Pavilhão 3 da Cidade Universitária – ainda a competir na categoria juvenil. Alguém se referiu a ele de forma não muito elogiosa como o ‘miúdo louro que parece o Bieber…’ – com uma descrição destas veio-me rapidamente à mente uma imagem de bebé chorão que ia aos campeonatos passear o kimono. Nada mais longe da verdade.

 

Qual Bieber qual quê, o rapaz é bom, é duro, vai para ganhar e não se cansa de atropelar adversários bem maiores que ele. Dentro do tatame quem dá musica é ele e quem o enfrentar é melhor que venha preparado para lutar com um dos melhores do mundo.
Desde que começou a praticar Jiu-Jitsu que Pedro “Paquito” é um competidor. Participou no primeiro campeonato com duas semanas de treino! Mas deixemos o atleta contar a sua história.

 

JJP – Como conheceste o Jiu-Jitsu e o que te fez voltar?

 

Paquito - Conheci através de um amigo. Desde que ele começou a treinar que insistiu para que fosse também, mas não me agradava muito a ideia de andar agarrado a outros homens (risos). Depois de alguns meses acabei por ceder e fui experimentar. Logo no primeiro treino fiquei fascinado! Lembro-me de ter aprendido o Mata-Leão e do Mestre Manoel Neto me ter deixado encaixar o estrangulamento. Já passaram 5 anos e não consegui repetir o feito (risos). Não sei muito bem o que me fez ficar, não sei explicar e nunca tinha pensado muito nisso. Simplesmente tinha vontade de treinar no dia seguinte.

 

JJP – Como começaste a competir e de quem partiu o incentivo ou a iniciativa de competir? O que esperavas encontrar?

 

Paquito - A iniciativa foi minha. Comecei a treinar com três amigos que já praticavam há mais tempo e todos eles iam competir num campeonato pequeno aqui no Porto. Na aula de terça o professor pediu a quem fosse competir que lhe trouxesse o valor da inscrição. Na aula seguinte trouxemos todos o dinheiro, incluindo eu. Ele não estava à espera por causa do pouco tempo de treino que tinha e foi preciso convencê-lo a deixar-me ir. Competi no Juvenil e o resultado foi o esperado: duas lutas e duas derrotas por finalização.

 

Esperava encontrar um ambiente com muita rivalidade entre equipas e adversários mas encontrei precisamente o contrário. É dos poucos desportos de combate em que se vê pessoas a lutar umas com as outras e a seguir à luta, a falarem e a tratarem-se como amigos. Dos primeiros tempos lembro-me ser amassado sempre, tanto no treino como nas competições. A primeira vez que finalizei alguém no treino foi quando já tinha uns cinco meses de treino! Quanto aos campeonatos, antes de ganhar o meu primeiro, já tinha perdido cinco. E todos na primeira luta.

 

As dificuldades são para ser superadas e os obstáculos iniciais ficaram para trás, sendo hoje Pedro uma das figuras com maior destaque do panorama nacional. Quisemos saber o que pensa disso, como encara este reconhecimento.

 

 

JJP – Tens a noção que já és um lutador reconhecido pelo público e adversários, que és uma das ‘figuras’ do Jiu-Jitsu português? Como é que encaras isso?
Tens a consciência que há atletas que mudam de categoria para não correr o risco de te apanhar na chave?

 

Paquito - Sim, tenho noção que quando luto, pelo menos em Portugal, já não sou uma pessoa qualquer a lutar. Sinto que há muita gente que me quer ver lutar e não só porque já ganhei campeonatos, mas porque gostam do meu Jiu-Jitsu. É uma coisa que me enche de orgulho. Encaro-o como uma consequência do meu esforço e trabalho diário. Treino todos os dias para ser o melhor e isso é o reconhecimento desse meu trabalho.
Já aconteceu inscrever-me numa categoria em que já havia alguns atletas e depois muitos mudaram de categoria. Acabei por mudar também para fazer mais lutas. Se é por minha causa ou não, é uma coisa em que não penso muito. Quando vou lutar prefiro concentrar-me em mim em vez de estar atento aos outros.

 

JJP – Sentes-te uma referencia ou exemplo para os mais novos dentro da tua academia ou até para fora? Além do teu mestre, quem são as tuas referências e ídolos? Sendo tu um guardeiro, procuras espelhar o teu jogo em alguém especial, ou vais buscando o que mais se encaixa no que costumas fazer?

 

Paquito - Não, dentro da minha academia sinto-me apenas mais um no meio de muitos que treinam para ser melhor a cada dia. Fora da academia não sei, mas ajudar pessoas através do Jiu-Jitsu ao ser visto como uma referência era uma coisa que gostaria muito.

 

A minha maior referência é mesmo o meu mestre, pelo que faz e pela pessoa que é. Além dele, e dentro de Portugal, tenho como referências o Luis Mota e o Rui Fonseca, ambos da minha equipa. Não pelo estilo de Jiu-Jitsu que nada tem a ver com o meu mas pela mentalidade e determinação que mostram em cada treino e quando competem. Graças a Deus são da minha equipa e não tenho de lutar com eles em campeonatos! (risos)

 

Fora de Portugal, tenho como referências: Michael Langhi, Leandro Lo, Keenan Cornelius e os irmãos Miyao. Tento buscar o melhor de cada um para encaixar no meu jogo.

 

JJP – Continuando a falar de futuro e de te tornares possivelmente uma referencia, onde queres chegar no Jiu-Jitsu? Ser faixa preta, ser campeão do mundo, ser um exemplo e mudar a vida das pessoas? Tens algum objectivo firmemente definido ou vais aproveitando a viagem e logo se vê onde acabas?

 

Paquito - Na verdade quero chegar às três. O meu objectivo é ser campeão mundial na faixa preta e claro, ao mesmo tempo, ser um exemplo para as outras pessoas.

 

Com a participação em tantos campeonatos, quisemos saber quais as vitórias mais saborosas e quias as derrotas mais amargas, passando ainda por um tema doloroso que é o aceitar uma derrota. Ora, como “Paquito” é um guerreiro em qualquer campo, não se esquivou a nenhuma pergunta e respondeu frontalmente e sem rodeios.

 

JJP – Qual a tua vitória mais saborosa e a derrota mais amarga?

 

Paquito - Até agora a vitória mais saborosa foi na final do absoluto do Nacional Open em 2012. Foi a primeira vez que lutei de adulto. Nem me passava pela cabeça lutar o absoluto, quanto mais ganhar. Eu nem queria lutar mas o meu mestre insistiu que eu fosse e eu acabei por ir. Ganhei as três lutas e finalizei a final com um triângulo. A derrota mais amarga foi no Mundial da IBJJF de 2014. Perdi, finalizado numa chave de pé, logo no início da luta. Fiquei muito triste de ter perdido essa luta

 

JJP – Pegando aqui neste tema de vitórias e derrotas, das poucas vezes que te vi perder, reparei que não é uma coisa que aceites de bom grado, queres falar um pouco sobre isso?

 

Paquito - Falo, claro! Perder foi uma coisa que nunca gostei mas que também nunca me incomodou muito, até começar a levar o Jiu-Jitsu a sério. Foi desde aí que o significado de perder mudou para mim. Neste momento, de todas as coisas, perder é a que menos gosto.

 

No entanto, para chegar a algum lado, acho que perder é fundamental. Um erro que a maioria das pessoas faz é perder, ficar chateado e esquecer esse momento. Eu acho que deve ser ao contrário. Acho que perder é uma aprendizagem. É importante lembrarmo-nos que perdemos para nos motivar todos os dias e para nunca mais cometermos aquele erro outra vez. Penso que é assim tanto no Jiu-Jitsu como na vida.

 

Sem dúvida uma resposta de Campeão, mostrando que a parte mental será sem dúvida uma dos seus pontos fortes. E depois vem o trabalho físico.

 

JJP – E a tua rotina de treino, como é? Estudas, trabalhas? Como concilias tudo, é dificil, fácil? Tens que sacrificar muita coisa?

 

Paquito - Ainda não trabalho, apenas estudo e treino. Treino três vezes por dia. Duas vezes Jiu-Jitsu e uma preparação física. Vou para a faculdade de manhã, saio das aulas a correr para apanhar a parte do rola do treino da manhã. Almoço e volto á faculdade se tiver aulas à tarde. Se não tiver fico a estudar até à hora da preparação física. Depois descanso um bocado ou treino umas posições até ao treino das 20h. Chego a casa depois do treino, janto e estudo mais um bocado se precisar.

 

É preciso sacrificar algumas coisas. Por exemplo, o tempo que estou com amigos fora do Jiu-Jitsu. É muito difícil estar com eles durante os dias de treino. Só consigo estar com eles ao fim de semana e mesmo assim depende se tenho exames naquela semana, porque senão tenho que estudar nesses dias.

 

JJP – Alguma mensagem que queiras deixar para os leitores ou para alguém?

Paquito - Quero agradecer ao meu mestre Manoel Neto por tudo o que ele faz por mim e à minha equipa por me ajudarem a melhorar todos os dias. Quero agradecer também aos meus patrocinadores por acreditarem em mim.

 

Por Hugo Miranda

 

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