FLÁVIO MOLINA, O HERÓI ESTÁ VIVO

 

Em 1984 dois homens reescreveram a história das arte marciais: Flávio Molina e Marcelo Behring.

Em 1984 dois homens reescreveram a história das arte marciais: Flávio Molina e Marcelo Behring.

 

Flávio Molina também é considerado um dos introdutores do vale-tudo moderno, actual MMA, tendo sido chamado a participar do vale-tudo de 1984, no Maracanãzinho, após duas décadas de hibernação de lutas de vale-tudo. Para montar sua equipe de Muay Thai, que enfrentaria três atletas de Jiu-Jitsu, Molina chamou os seus dois faixas-pretas, Eugênio Tadeu e Marco Ruas e o resultado foi um empate histórico em quantidade de lutas. Molina lutou o vale-tudo com uma lesão grave no ligamento de seu joelho direito, não tendo sido, inclusive, autorizado pelo médico a lutar, além de não ter conhecimento de lutas de chão. Mas naquela situação específica, não havia como recuar. Valente como sempre, gravou o seu nome na história do vale-tudo.

 

Faixa-preta de Taekwondo, Muay Thai e Luta Livre, Molina foi fundador e líder da famosa Academia Naja, na Zona Sul do Rio, onde formou grandes campeões.
Molina foi guarda-vidas (em 1978), actuando em vários postos do GMAR, principalmente no posto 5, em Copacabana, sendo reconhecido por toda a Corporação como um dos grandes nomes do Corpo Marítimo de Salvamento, além de ter sido um dos grandes instrutores que ali passaram.

 

Apesar de já ser conhecido como herói, Molina, posteriormente, entrou para a tropa de elite da Polícia Civil, no sector aero-policial, sendo colocado na Coordenadoria Geral de Operações Aéreas – CGOA e intensificou o seu trabalho de resgate. Como tudo o que fez na vida, começou logo a destacar-se, tornando-se operacional e ficou preparado para qualquer tipo de missão, seja em operações aéreas, terrestres ou marítimas.
Molina ficou conhecido como um grande herói brasileiro e orgulho nacional, chegando à incrível marca de mais de 1500 resgates e milhares de operações policiais. Foi instrutor de centenas de polícias, ajudando a colocar o CGOA entre as unidades aéreas policiais com maior experiência em combates e resgates do país. Foi considerado o maior especialista em resgates do Brasil e um dos precursores brasileiros na técnica vertical em corda, mais conhecida como “rapel”.

 

Por todos os feitos no TKD brasileiro e internacional, Flávio Molina entrou para o Hall da Fama do Taekwondo Mundial.

 

O famoso vale-tudo de 1984.

O famoso vale-tudo de 1984.

 

Flávio morreu durante uma operação de resgate, no Rio de Janeiro.

 

Precisamente 30 anos depois do famoso vale-tudo de 1984 (30 de Novembro), conversamos em exclusivo com Marcelo Molina, filho de uma das mais importantes, queridas e respeitadas personagens de sempre das artes marciais.

 

JIUJITSUPORTUGAL – Descreve o perfil do lutador Flávio Molina para os nossos leitores.
MARCELO MOLINA - Flávio Molina nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1956. Antes de completar dois anos de idade, a sua mãe, que o criava sozinha, teve que leva-lo para morar com seus tios em Secretário, interior de Petrópolis, Rio de Janeiro. Lá em Petrópolis teve o seu primeiro contacto com as artes marciais, praticando Judo. Retornando ao Rio de Janeiro, continuou com a prática do Judo, depois um pouco de Karate, um pouco de Boxe, migrou para a Capoeira (foi Contramestre nesta arte), Taekwondo (foi Mestre nesta arte), Muay Thai (foi Grão-Mestre nesta arte), Luta-Livre Esportiva (foi Mestre nesta arte) e Luta-Livre Greco Romana. Paralelemente à prática das artes marciais, Molina foi guarda-vida na década de 70 e a partir da década de 80 entrou para os quadros da Polícia Civil do Rio de Janeiro, tornando-se o maior especialista em resgate do Brasil, com mais de 1500 resgates na carreira, consagrando-se, oficialmente, um herói nacional, além de centenas de operações policiais.

 

JJP – Como é que o teu pai descobriu o TKD? E o Muay Thai?
MM - Após se tornar Contramestre de Capoeira, Flávio Molina foi levado por um amigo, Reinaldo Evangelista, para a nova arte marcial que tinha chegado ao Brasil, o Taekwondo. Começou a destacar-se de forma avassaladora, vencendo todos os adversários e torneios em que participou. É o único atleta invicto do Taekwondo brasileiro, com mais de 50 vitórias em mais de 20 torneios disputados. Molina foi tetracampeão brasileiro, hexa campeão carioca, além de vários títulos de interclubes e interestaduais. Venceu atletas mais pesados e mais graduados, adquirindo grande nome nesta arte marcial. Em 1979, ele ganhou o troféu melhor técnica, sendo considerado o melhor lutador de TKD do Brasil. Chegou a fazer intercâmbio na Coreia, terra do Taekwondo, durante 3 meses, adquirindo extraordinária experiência. Foi chamado para integrar a seleção brasileira de TKD para disputar o mundial de TKD no Equador e foi o primeiro brasileiro a sair vitorioso num mundial, em 1982. Molina lutou para que o TKD se tornasse desporto olímpico, o que veio a concretizar-se em 1988. Por todos os seus feitos no TKD, Molina passou a integrar o Hall da Fama do Taekwondo Mundial, ao lado de grandes nomes do passado, como Rodney Américo e Carlos Loddo e de grandes nomes do presente, como Diogo Silva e Natália Falavigna.

 

Em 1978, Flávio Molina fundou a famosa Academia Naja, na Zona Sul do Rio de Janeiro. A Naja era um dos maiores centros de treino do Rio de Janeiro. Começou com Taekwondo e depois passou a ter o Muay Thai. Molina foi formador de grandes nomes das artes marciais, tendo sido Mestre de Muay Thai de Luiz Alves, Paulo Nikolai, Eugênio Tadeu, Marco Ruas, Wandro Ribeiro, Paulo Borracha, Jutu, Guere, Hugo Duarte e centenas de outros nomes.
O seu início no Muay Thai deu-se em Curitiba, com Nélio Naja. Depois de formado faixa-preta, Molina trouxe o Muay Thai para o Rio de Janeiro e, por isso, é reconhecido oficialmente o introdutor do Muay Thai no Rio de Janeiro e um dos principais precursores do Brasil, já que saiu divulgando o Muay Thai em várias cidades do país. Ele ficava na organização e administração do Muay Thai no Brasil, mas sempre demonstrando talento nos treinos e desafios. E foi considerado também o maior atleta e representante da modalidade na década de 80. Organizou os primeiros campeonatos da história do Muay Thai no Brasil, como o desafio entre as cidades do Rio de Janeiro (liderada por Flávio Molina) e São Paulo (liderada por Álvaro de Aguiar), no Clube Mourisco, em Botafogo, Rio de Janeiro. A escola de Molina (RJ) foi a campeã. Molina lutou nesse evento e nocauteou o atleta de São Paulo ainda no 1º round.

 

Homenagem da Confederação Brasileira de Muay Thai a Flávio Molina

Homenagem da Confederação Brasileira de Muay Thai a Flávio Molina.

 

JJP – Podes dizer-nos como foi casada a luta dele com Marcelo Behring?
MM - Era o terceiro ano do Muay Thai no Rio de Janeiro e o quinto ano no Brasil. Com três anos no Rio de Janeiro, essa arte marcial vira febre com mais de 20 academias só no Rio e vai espalhando-se por todo o Brasil, com mais de 5000 adeptos. As academias viviam lotadas de lutadores de Muay Thai e com o sucesso crescente, os seus lutadores foram desafiados pelos lutadores de Jiu-Jitsu. Robson Gracie faz então um desafio a Flávio Molina para que este formasse um time de Muay Thai e enfrentasse outros atletas de Jiu-Jitsu. Molina aceita e entra no desafio, chamando Marco Ruas e Eugênio Tadeu, os seus dois faixas-pretas de Muay Thai.
Como Flávio Molina era o maior nome na época, o Jiu-Jitsu escolheu Marcelo Behring para enfrentá-lo. Behring enfrentaria a maior pedreira de sua vida. Molina era considerado o maior nome do TKD na década de 70 e o maior nome do Muay Thai na década de 80. Portanto, Behring estaria enfrentando o maior striker do Brasil e Molina enfrentaria um dos maiores lutadores de solo na época. Não foi à toa que essa luta foi a principal da noite, o “MAIN EVENT” do Vale-Tudo de 1984, no Maracanãzinho, no desafio Muay Thai x Jiu-Jitsu.

 

JJP – A luta entre eles teve grande repercussão no meio do mundo da luta; é verdade que uma segunda luta chegou a ser agendada?
MM - Flávio Molina foi um guerreiro de ter entrado naquele dia no ringue. Ele machucou seriamente o ligamento do joelho, com comprometimento do menisco, e chegou a tomar injeção, dois dias antes da luta, à base de corticoide, para tentar aliviar a gravidade do problema. Mas o primeiro pontapé que ele dá no Behring, sente o joelho e precisa mudar de base. Era a única arma dele, a parte de striking, já que não tinha ainda conhecimento de lutas de solo, mas essa arma estava defeituosa. Ele tinha anteriormente pedido o adiamento da luta, mas os líderes do Jiu-Jitsu negaram o pedido. Molina também considerava que seus alunos entrariam naquela “panela de pressão” sozinhos, e ele não se sentiria bem com isso. Infelizmente, o resultado da luta foi desfavorável, mas o contexto em que se encontra fez dele um vitorioso, um cara valente. Qualquer lutador hoje cancela uma luta facilmente no caso de lesão, mas naquela época as coisas não eram bem assim. Eles lutavam pela honra. Acontece que ele cuidou do joelho posteriormente e foi aprender lutas de solo. Quando estava preparado, pediu a revanche diversas vezes, inclusive foi na academia do Behring e, por fim, foi à televisão pedi-la publicamente, já que era questão de honra. Eles sabiam que o maior striker do Brasil agora estava sem lesão e tinha se tornado um tractor no chão. Nunca mais dariam a revanche… Quando quiseram Molina no ringue, lá estava ele, mesmo sem condições físicas para lutar. Mas quando Molina os desafiou, eles não apareceram… Isso era um sinal claro que estavam conscientes de que esta segunda luta seria uma outra história. Após pedir a revanche publicamente, lavou a honra e foi-se dedicar mais às actividades de resgate, tornando-se um herói nacional.

 

JJP – Essa disputa entre eles chegou a ser levada para fora dos ringues?
MM - Eu não tenho conhecimento disso. Nunca ouvi falar deles terem brigado fora do ringue. O que sei é que havia um grande respeito entre eles dois, Molina e Behring. O próprio Behring fala num vídeo documentado no youtube, sobre a grande admiração que ele tinha pelo Molina e que o considerava um cara valente. Flávio Molina tinha um traço de competição muito grande, não levava nada para o lado pessoal e sim para a competitividade, para o lado desportivo, tudo dentro do ringue. Eu sei através de pessoas que eram amigos dos dois, que Molina e Behring se encontravam e conversavam tranquilamente, com bastante respeito. A única mágoa que Molina tinha era porque tinham invadido sua academia Naja… Mas com Marcelo Behring, o que ele queria era apenas a revanche no ringue.

 

JJP – Até hoje essa luta é emblemática representando os combates entre o Jiu-Jitsu e a Luta-Livre. Como te sentes ao rever a luta e ao falar sobre o teu pai?
MM - Eu vejo o meu pai como um herói! Um grande homem e de caráter que ao ter sua academia invadida, quis resolver a situação dentro do ringue. O grande problema é que ele lesionou o ligamento do joelho gravemente na preparação para o vale-tudo e não teve como recuar… era um samurai, podia morrer em combate, mas não perde a honra… tenho muito orgulho dele, porque enfrentou uma situação duríssima, que muitos, com certeza, se estivessem nessa situação, nem chegariam perto do ringue. Por outro lado, como é que um homem que é guerreiro, que enfrenta os piores mares do Rio de Janeiro, as montanhas mais altas para salvar vidas e ainda, as operações policiais mais perigosas em comunidades dominadas pelo tráfico, não vai entrar no ringue?

 

Por Luiz Dias e Paulo Santos

 

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