RODRIGO PEREIRA: “NÃO COMPACTUO COM PROFESSORES E ATLETAS FAKES”

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Rodrigo Pereira é uma conhecida voz critica daquilo que se desvia da sua visão do que deve ser a linha da Arte Suave. Foto: JJP

 

“Sem papas na língua”. Esta poderia ser uma expressão para definir a imagem de Rodrigo Pereira, mas a verdade é que há muito mais para dizer do professor e líder da Academia Integração. Aluno do Mestre Élcio Figueiredo e com ligações de treino e amizade a algumas figuras do Jiu-Jitsu mundial como Gabriel Rollo “Palito” e Michelle Nicolini, Rodrigo não se faz rogado quando encontra alguma situação que não respeite o Jiu-Jitsu da forma séria e verdadeira como ele a concebe.

 

Fazer um trabalho sério é aliás uma das coisas que refere como mais importantes na prática da arte suave. Há mais de uma década em Portugal e a dar aulas em Vila Nova de Gaia, o professor Rodrigo Pereira abriu o jogo ao nosso site em uma entrevista exclusiva!

 

 

JJP – Quem é o Rodrigo Pereira?

Rodrigo Pereira –  Sou um professor de Jiu-Jitsu, tenho 38 anos,  moro em Vila Nova de Gaia, cidade onde também dou aulas de Jiu-Jitsu e que vive em Portugal há 11 anos. Como pessoa e professor de Jiu-Jitsu levo os princípios da arte muito a sério.

 

JJP – Como apareceu o Jiu-Jitsu na tua vida?

RP -  Em 1994 o meu pai levou para casa as antigas cassetes de vídeo (VHS) com filmagens do UFC. Este foi o meu primeiro contacto e fiquei logo impressionado. No entanto,  onde eu morava não havia nada daquilo.

Passados uns anos descobri que um amigo meu estava a praticar Jiu-Jitsu, ele na altura já era faixa azul, e levou-me a um treino. Desde então, não passou um dia na minha vida em que não respire Jiu-Jitsu.

 

JJP – Porque decidiste vir viver para Portugal? Foi fácil a integração?

RP – Lembro-me que na altura estava para pegar a faixa preta e queria mudar, tentar a vida noutro lugar. Escolhi Portugal porque tinha uma pessoa conhecida cá. No inicio a adaptação foi difícil, principalmente por causa do clima, mas depois acostumamos-nos.

O facto de ter vindo para Portugal como faixa preta criou-me algumas oportunidades e abriu-me algumas portas. Lembro-me que na altura no Porto só tínhamos dois lugares para treinar, um era a antiga academia do Manoel Neto, a quem sou muito grato por ter me aberto a porta para eu poder treinar e ter me apresentado  pessoas com quem mantenho amizade.

 

JJP – Consideras que actualmente São Paulo é a capital do Jiu-Jitsu no Brasil destronando o Rio de Janeiro?

RP – Não,  eu acho que um bom lutador pode aparecer em qualquer Estado ou cidade. Só precisa de oportunidades. Às vezes aparece uma “jóia” numa cidadezinha minúscula mas o cara não tem onde treinar. Então, ele vai para uma grande metrópole e ai sim aparece para o mundo. Na minha cabeça essa guerra territorial não existe.

 

JJP – O Brasil perdeu a importância no panorama internacional para os Estados Unidos ou Abu Dhabi? Porquê?

RP –  Se perdeu foi por causa de dinheiro e oportunidades. O negocio do Jiu-Jitsu neste momento é nos EUA, até porque as grandes e reais competições são lá. Se  Abu Dhabi  é uma referencia no panorama internacional do Jiu-Jitsu? É, mas por questões financeiras. Só isso. Isto porque,  treinar é no Brasil e nos EUA.

 

JJP – Qual o caminho que o Jiu-Jitsu está a tomar? Como vês o Jiu-Jitsu dentro de 5, 10 ou 20 anos?

RP –  Crescimento, mas isso  todos vemos. No entanto, tem que se ter algum cuidado porque a quantidade pode vir a dar um abanão na credibilidade e na qualidade. Como Jiu-Jitsu não é uma moda não vai cair em “desuso” até porque a eficiência está mais que comprovada. Eu entendo que o Jiu-Jitsu é a única luta que uma pessoa pode praticar até ao fim da sua vida.

 

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JJP – Como vês o estado do Jiu-Jitsu em Portugal?

RP -  Eu cheguei a Portugal há 11 anos e desde então vejo que cresceu e que já temos treinos duríssimos. Por outro lado, temos o crescimento desenfreado e como consequência também vemos muita coisa errada.

 

JJP – Que coisas erradas?

RP – A titulo de exemplo, determinada pessoa vir do Brasil para dar um seminário, ou até mesmo em férias e graduar alguém com quem nunca treinou. Dar a faixa preta a essa pessoa  e com isso ter cá  uma filial sua. Outro exemplo, um professor graduar um aluno a faixa preta e uma semana ou um mês depois esse aluno criar a sua própria equipa. Por outro lado, saber que em certas academias as crianças treinam no mesmo horário dos adultos o que considero ser uma irresponsabilidade e a até colocar em risco a própria integridade física dessas crianças. Outro exemplo, é a quantidade de “pseudo atletas” que se inscrevem nos milhares de Opens, sabendo que antemão que não vão ter luta na categoria em que se inscrevem, e não optam por mudar de categoria  (peso ou idade) com o único intuito de irem ao campeonato para “pegar uma medalha “ e depois  publicarem nas redes sociais agradecimentos e intitularem-se de campeões! Acho inadmissível, para não dizer “palhaçada”!

 

 

JJP – És um dos mais críticos professores do Jiu-Jitsu português. Sentido crítico apurado?

RP – Sou? Obrigado, mas sempre que faço uma critica é para somar e acrescentar alguma coisa. Simplesmente não compactuo com professores e atletas “fakes. Como já tive oportunidade de referir, eu levo muito a sério o Jiu-Jitsu.

 

JJP – Sendo tu Professor no Grande Porto, és da opinião que existem dois ‘mercados’ do Jiu-Jitsu em Portugal? Um a norte e outro a sul, com claras vantagens para este último? Quais as diferenças entre o Jiu-Jitsu de Lisboa e do Porto?

RP –  Não considero que existam dois mercados.  Na minha opinião quer a Norte quer  a Sul o JJ está forte. A única vantagem vejo a Sul é o facto de existirem mais possibilidades em termos de competição. A dureza está nos dois lados e sei que existem professores sérios e capacitados tanto a Norte como a Sul.

 

 

JJP – Quanto á Federação Portuguesa de Jiu-Jitsu Brasileiro, como avalias o seu trabalho?

RP - A federação é gerida por pessoas acessíveis e espectaculares. Só acho que falta um pouco mais de pulso firme em alguns aspectos. Como por exemplo punições severas a atletas que não tenham atitudes desportivas adequadas com os árbitros durante os campeonatos. Também acho que deveriam realizar, pelo menos, mais duas competições por ano. Sendo que uma seria o Nacional de No Gi. Também deveriam criar um circuito Nacional Open, com somatório de pontos, e aí sim teríamos como falar que um determinado atleta era o Campeão Nacional!

 

JJP – A FPJJB aumentou substancialmente o valor da inscrição para o Nacional Open. O que pensas desta medida?

RP – Ainda bem que fazes esse pergunta. Pelo facto de me preocupar com os meus alunos, procurei saber o porquê e a justificação que me foi dada assenta na IBJJF agora estar interligada com FPJJB. Ou seja, já não é novidade que a Federação Internacional visa o lucro, o factor monetário, e isso acabou por refletir-se no valor da inscrição para o  Nacional Open. Aproveito e também quero referir que não concordo com prémios só para o Absoluto. Porque isso, salvo raras exceções,  só dá chance para os pesos pesados. Sou da opinião de “pagar” menos, redistribuir esse valor,  mas premiar todas as categorias, inclusive os Masters (o valor de inscrição dos Masters é o mesmo dos Adultos). Acho que também poderiam variar e fazer um Nacional no Norte, porque neste momento só temos uma competição oficial a Norte.  A minha sugestão é fazer-se o Nacional um ano a Norte e no ano seguinte a Sul  e assim sucessivamente.

 

 

JJP – O curso de professores promovido pela FPJJB foi importante para o nosso desporto ou serviu para deixar para segundo plano problemas mais importantes a serem resolvidos, ficando tudo na mesma?

RP - Nós, os “sérios”, achávamos que seria uma óptima alternativa para travar os “fakes”. Mas  eu acho  que me enganei, porque não há nenhum órgão que fiscalize e o que se constata é a existência de mais espaços de Jiu-Jitsu em que não está pendurada na parede a tal cédula.

 

JJP – Como é a tua relação com os outros professores das outras equipas?

RP –  A minha relação é boa com quem é de verdade. Um professor que não respeita o seu próprio mestre, que troca de equipa como quem troca de camisa (pelo ego), que gradua alguém a faixa preta só porque essa pessoa é “um gajo porreiro” – já ouvi um professor a dizer que graduou um aluno por esse motivo – outro exemplo o professor foi graduado por alguém com quem ele nunca treinou,  treinar não é fazer um “rola”. Eu levo muito a sério a minha arte e por isso não compactuo com quem não a leva!

 

JJP – Projectos para o futuro da tua equipa, a Integração Jiu-Jtsu?

RP -  O meu projeto é continuar a fazer um trabalho sério.  Não só ensinar a luta propriamente dita mas também ajudar na formação do carácter dos meus alunos como no passado fizeram comigo!

 

JJP – Queres deixar uma mensagem para a nossa comunidade?

RP –  A minha mensagem é que pensem e levem o Jiu-Jitsu não só como uma luta mas como parte das vossas vidas! Procurem, informem-se, pesquisem e vejam quem será o vosso professor e vejam o que ele fez e faz para o bem da nossa arte!

 

*Se queres saber mais sobre a Academia Integração, clica no link: http://jiujitsuportugal.com/2015/02/09/integracao-jiu-jitsu-portugal-2/

 

Por Paulo Santos e Hugo Miranda