HUGO MIRANDA ENTREVISTA: THIAGO ‘INDIO’ ANDRADE E A GFTEAM EM PORTUGAL

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É uma das mais reconhecidas equipas e com maior expansão do panorama mundial do Jiu-Jitsu, e Portugal não foge à regra, contando já com duas filiais em território nacional. Liderando a equipa em solo lusitano está Thiago Andrade, mais conhecido como ‘Índio’, discípulo do famoso Mestre Júlio César, que falou com o JJP um pouco sobre si e sobre a GF Team.

 

JJP: Conta-nos um pouco da tua história e como vieste para Portugal.
Thiago: Chamo-me Thiago Andrade e sou mais conhecido como ‘Índio’, tanto no Jiu-Jitsu como fora, alcunha que me foi colocada pelo Mestre Júlio César. Comecei a praticar Jiu-Jitsu em 1998, com 14 anos, com o professor Marcos Bastos, no Méier, zona norte do Rio de Janeiro, de onde sou. Em 2000, com 15 anos, fui graduado para a faixa azul e migrei para a UGF (nome da GF Team na época), ficando sob os cuidados do mestre Júlio César. Foi algo que marcou a diferença no meu Jiu-Jitsu, já que treinava lado a lado com Theodoro Canal, Denilson Pimenta, Marcio Maia e muitos outros. Até que sofri uma lesão grave no joelho em 2001 e não tendo meios de a tratar, fui treinando até 2005 com muitas dificuldades e de forma pouco regular. Com as responsabilidades como faculdade e trabalho, acabei por me afastar dos tatames.

 

JJP: E o regresso à acção?
Thiago: Só em 2014 conseguir tratar a lesão. Foi como ser cego e voltar a ver! Já era casado e formado em arquitectura com empresa própria, mas foi como se nada mais importasse, eu estava de volta! Comecei a treinar mais a sério e em 2016 um patrocinador pagou-me a passagem para lutar o Europeu. Já tinha conversado com a minha esposa sobre a possibilidadede nos mudarmos para Portugal e achámos que era um sinal. Resolvemos arriscar e largar tudo para viver do Jiu-Jitsu. A ideia de abrir uma academia sempre esteve presente, mas confesso que não esperava que tudo se passasse tão rápido. Graças a Deus encontrei pessoas especiais no meu caminho, que foram muito importantes para esta conquista.

 

JJP: A GFTeam é mais reconhecida pelos seus atletas de categorias mais pesadas (Rodolfo Vieira, Honório, Gaudio, etc), apesar de também ter nas suas fileiras atletas mais leves de alto gabarito. Quem são as tuas referencias enquanto atleta, dentro da equipe?
Thiago: A GFTeam sempre possuiu grandes nomes nas categorias leves, como Marcio Maia (primeiro campeão mundial da equipe), Denilson Pimenta, João Alfredo Marinho, entre outros. É verdade que, hoje em dia, os mais pesados têm tido mais destaque. Mas ainda temos grandes nomes leves…José Carlos Kokó, Júlio dos Anjos, Theodoro Canal, Jake Mackenzie, Jaime Canuto, Vinicius Marinho, entre outros.

 

Mas como minhas referências internas, posso destacar Marcio Maia (apesar de já não competir), Jake Mackenzie, Theodoro Canal e Vinícius Marinho. Sou amigo e fã deles!

 

JJP: Os treinos no Meier são famosos pela sua dureza. É mesmo verdade que tens de rolar 10 vezes por treino? Como transportas isso para a realidade de Portugal?
Thiago: Dureza? Digamos que é a selva, e que há dias que parece o inferno!(risos) E sim, isso é verdade. Para ir embora, é necessário dar 10 rolas, no mínimo. A realidade é muito diferente, por enquanto. Além do facto da maioria dos alunos ainda serem iniciantes, nem todos têm por objectivo competir. Mas claro que trago muita influência do meu mestre e de sua maneira de comandar os treinos, para as minhas aulas.

 

JJP: O Mestre Julio César é uma figura ímpar do Jiu-Jitsu mundial. Como é conviver e aprender com ele?
Thiago: Para mim, é sempre um prazer e emoção falar dele. Eu cheguei “às mãos dele” ainda muito cedo, com 15 anos. Um miúdo que cresceu sem pai e ainda tinha muito de carácter e personalidade para moldar. Ainda me lembro como se fosse hoje… Por vezes, não era preciso dizer nada. Ele olhava para mim no treino e, dependendo do meu comportamento, chegava ao meu lado e já sabia o que se passava na minha cabeça. Como se deve imaginar, não demorou e não foi nada difícil começar a vê-lo como um “pai”. Ele é e sempre foi muito brincalhão, sempre brincou e aceitou as brincadeiras de todos nós à sua volta. E isso jamais impediu ou influenciou, de forma negativa, no respeito que tínhamos e temos por ele. Tecnicamente falando, ele sempre teve um olhar muito apurado para encontrar as falhas e os detalhes necessários. Da mesma forma que sempre teve a mente muito aberta para receber um “detalhe”  percebido por quem quer que fosse. Até hoje, conversamos constantemente e ele está sempre a dar-me conselhos e orientação, e eu confesso que não tomo nenhuma decisão importante sem o “aval” dele. Conviver e aprender com ele foi e é uma dádiva!

 

“A GFTeam, em Portugal, está a trabalhar de maneira semelhante e em conformidade com o trabalho orientado pela Matriz, no Brasil. Estamos a estruturarmo-nos para crescer de forma organizada e interligada. Actualmente, além da filial no Porto, temos um representante também em Lisboa. E, num futuro breve, é provável que tenhamos mais um representante no Porto.”

 

JJP: O facto de virem de uma linhagem diferente (Fadda) do que a maioria das escolas (linhagem Gracie) faz diferença na vossa forma de treinar/lutar e na própria filosofia do Jiu-Jitsu?
Thiago: Acredito que não. O Jiu Jitsu evoluiu muito com o passar dos anos. Já não vejo diferenças técnicas percebidas por questões de linhagem. Acho que, talvez, existam ainda em termos psicológicos e de filosofia, em relação à maneira de encarar determinadas situações.

 

JJP: Recentemente temos visto atletas da GFTeam a competir em Portugal. É uma ambição para o futuro, ter uma equipa de competição?
Thiago: A GF Team tem a fama de ser a equipe que mais cresce no mundo. E isso não é à toa. O crescimento é natural, mas tentamos fazê-lo de forma organizada. Eu sempre fui competidor, o que, querendo ou não, acaba por influenciar um pouco os alunos. Mas não temos pressa. Temos consciência que um bom trabalho requer tempo e paciência. E que primeiro, deve vir o cidadão, para depois, vir o campeão. Mas claro, no tempo certo, queremos sim, não só ter uma equipa de competição, mas também ter mais filiais e um núcleo forte também em Portugal.

 

JJP: Desenvolvendo um pouco a última questão, como está a GFTeam em Portugal?
Thiago: A GFTeam, em Portugal, está a trabalhar de maneira semelhante e em conformidade com o trabalho orientado pela Matriz, no Brasil. Estamos a estruturarmo-nos para crescer de forma organizada e interligada. Actualmente, além da filial no Porto, temos um representante também em Lisboa. E, num futuro breve, é provável que tenhamos mais um representante no Porto.

 

JJP: Regressando a ti, sabemos que vais lutar o Mundial Master em Las Vegas. Como está a preparação e quais os teus objectivos e expectativas?
Thiago: Pois é, este será meu terceiro ano consecutivo “brigando” em Vegas. Na minha preparação, tenho tentado limar todas as arestas e, melhorar em todas disciplinas e quesitos possíveis. Consegui fechar grandes parcerias que acredito que me vão ajudar muito. Como o US Elite Sport Agengy, onde faço preparação física e tenho acompanhamento nutricional, psicológico e de fisioterapia. Como todos os anos, vou para buscar o título. No ano passado, eu estava muito bem preparado, mas acabei por ser superado. Neste ano, tenho procurado preparar-me ainda melhor, para que isso não volte a ocorrer. Se tudo der certo, ainda farei um camp de treinamento na filial de Houston, 2 semanas antes.

 

Por Hugo Miranda