214 – UM NÚMERO A RECORDAR, POR LUIS BARNETO

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214 – Um número a recordar

 

Um enorme evento do UFC, em teoria e na prática, mais para uns do que para outros, claro, e mesmo no card preliminar! Mas nem vou por aí…

 

Como fã, gostei mais de umas coisas do que outras, como toda a gente. Como analista, adorei tudo!

 

Existe aqui muita matéria para falar, analisar.
Vou fazer esse exercício, de forma um bocadinho extensa. Obrigado a quem tenha a paciência de ler tudo.

 

Manuwa vs Volkan

 

O homem que estava na calha para saltar para o main event, caso algo acontecesse que impedisse esta segunda edição de Jones Vs Cormier, era para a maioria favorito neste combate. Foi parado em segundos. É por isto que sempre digo, e não me canso: É um desporto mas também é uma luta…
Juntando o percurso dos dois, em 34 combates apenas 4 foram a decisão, uma vez o Manuwa e três o Volkan, e ambos tinham a maior parte das vitórias por KO. Manuwa é um daqueles… Com 9 combates no UFC, apenas um deles foi a decisão, os outros foram todos KO, 5 vezes para o seu lado, e 3 para o lado dos adversários! Volkan chegou, teve uma vitória algo polémica sobre o OSP, mas mostrou que as suas mãos trazem fogo.

 

Não foi portanto estranho ver os dois a procurarem, logo desde o primeiro segundo, nocautear o adversário. Volkan segurou um neck clinch com uma mão e lançou vários uppercuts e ganchos com a outra mão, alternando um movimento e o outro, num estilo muito usado pelo Randy Couture nos seus tempos (eu sei porque treinei este movimento muito, já que o Randy e o meu instrutor, Burton Richardson, treinaram muito tempo juntos) mas que Volkan depois afirmou ter visto no primeiro combate Jones Vs Cormier e ter pensado que era algo interessante de experimentar. Desligou o Manuwa.

 

*Lê maais artigos de Luis Barneto na sua coluna ‘Conexão MMA': http://jiujitsuportugal.com/category/conexao-mma-a-coluna-de-luis-barneto/

 

Interessante observar que um atleta, chegado a um certo nível de entendimento, pode observar um movimento uns dias antes, se calhar ensaia-lo uma dúzia de vezes, e finalizar uma luta com ele…

 

Lawler vs Cerrone

 

Um daqueles combates… Em que eu queria que vencessem os dois!
Foi o que se esperava. Num atleta, ou melhor, num lutador como Lawler, era óbvio que estar parado um ano não mudaria nada na sua determinação, confiança, capacidade. Cerrone é um espectáculo! Lawler, na minha opinião, definiu todo o combate. A distância em que o combate se realizou foi definida por ele em todos os rounds, já que no segundo round, aquele em que Cerrone conseguiu encadear as suas famosas sequências, foi Lawler quem optou por não pressionar e dar espaço, distância, permitir. Foi uma opção estratégica, para depois voltar no 3º round. Ambos foram muito semelhantes no numero e qualidade do strike desenvolvido (foi maioritariamente um combate de strike), mas Lawler, com as pancadas ao corpo, pareceu mais próximo de terminar a luta antes do tempo. Uma decisão, mas um combate super disputado, com muito material técnico para estudar, ao dispor de quem queira.

 

Analisando algo mais, curioso como Lawler, um atleta que habitualmente conhece só uma velocidade, fez uma opção estratégica de oferecer um round… Algo que não só não é muito o seu estilo, como é amplamente criticado por Dana White em Woodley, mas aqui passa despercebido… Curioso também pensar que, vindo de uma derrota precisamente com Woodley, Lawler parece agora um atleta muito mais perigoso, porque mais calculista… Win or learn?

 

Cyborg vs Evinger

 

Missão complicada para Evinger. Muita coragem e determinação, um plano de jogo que passava por aguentar a pressão inicial, e esperar um erro que permitisse lutar no chão com Cyborg, onde Evinger poderia ter alguma vantagem. Mas a Cyborg que surgiu é também uma atleta mais evoluída, que sabe gerir a intensidade, esperar oportunidades, e penso que foi fundamental essa nova característica para obter a vitória. Esta Cyborg vai ser muito complicada de parar. Talvez impossível…?
Evinger apresentou algumas incríveis esquivas, usou toda a sua experiência para “adivinhar” ângulos e trajectórias, foi nesse aspecto muito interessante de ver, e Cyborg ainda tem que melhorar aquela ideia de lançar a mão direita com enorme potencial de ko, mas isolada e muito “telegrafada”, porque são mais ou menos fáceis de ler e esquivar, aumentar o volume ou preparar com algo mais.

 

Woodley vs Maia

 

Queria muito que Maia vencesse, mas sempre achei muito difícil… Woodley é estrategicamente evoluído, e como tive oportunidade de dizer em directo, para mim, talvez o atleta com maior aglomerado de qualidades do UFC. Não fossem os seus 35 anos, diria que poderia definir uma nova geração de atletas. Maia, a meu ver, teve vários momentos durante a sua luta com o Masvidal, de total exposição ao strike deste, enquanto procurava assegurar takedowns, ou clinch. E algumas entradas muito directas. Com os seus 60 takedowns no UFC, Maia apresenta-se como mais eficaz, mas a verdade é que esses 60 takedowns representam cerca de 30% dos que tentou.

 

Woodley chegou aqui com 95% de eficácia a evitar takedowns, mas sem ter que lidar com os de Maia. Era opinião geral que se Maia conseguisse levar para o chão… Mas a verdade é que não conseguiu. Woodley não arriscou. Porque haveria? Porque o Dana White quer? Porque fica chato para o público? Pessoalmente, não considero uma boa ideia que um atleta faça algo que considera não ser o melhor para vencer uma luta, só porque o publico quer ver isso. É um espectáculo, mas é uma luta, e um desporto. É certo que toda a gente parece apostada em minimizar a importância do título, mas ser campeão é diferente de ser quase campeão. Perguntem a Uriah Faber. Agora a Maia. Woodley perderia este combate se estivesse mais apostado em impor o seu jogo e menos apostado em defender-se do jogo de Maia. Tal é a qualidade de Maia! Frustrante para Maia, talvez para o público, seguramente para Dana White, que fez questão de o criticar, mas ser campeão e manter-se campeão é algo que tem que ver com fazer opções tácticas adequadas, não só com qualidade. Não só com ataque e imposição de jogo, mas muito com saber recuar, saber defender, saber jogar. Perguntem a Lawler, já que ele aprendeu isso mesmo a lutar com o Woodley. Quem quer o título tem que arriscar mais, sim.

 

Woodley pediu um adversário contra quem possa mostrar as suas capacidades, ou seja, alguém cujo grau de especialização numa certa área do combate não seja inibidora de disputar a luta pela luta. Eu percebo-o perfeitamente.

 

Jones vs Cormier

 

Como eu disse no inicio da emissão, poderíamos vir a observar o melhor Jones de sempre. Tendencialmente, falamos de “ferrugem competitiva” mais vezes do que falamos, ou damos importância, às lutas da vida. Bruce Lee escreveu muito do que hoje lemos, definiu muito do que o fez enorme, enquanto esteve acamado no hospital. McGregor veio muito melhor, física e psicologicamente, depois da lesão que o fez parar por largos meses. Jones, com tudo o que se passou, se calhar fez-se homenzinho. Nem sempre é dada importância a isto, mas a equipa onde ele treina tem um excelente ambiente, os treinadores são desligados da necessidade de vir a terreno criticar ou aplaudir os seus atletas, estão focados em ajuda-los, seguramente ajudaram muito Jones nesta travessia do deserto. Posso estar enganado, mas Jones vai lutar por ser um exemplo a todos os níveis, daqui para a frente.

 

Para já, apresentou um jogo de mãos muito melhor do que alguma vez tinha apresentado, lutou muito bem, minimizou as possibilidades de Cormier, que foi sentindo isso mesmo, e acabou a aproveitar uma excelente oportunidade, numa altura em que para mim estava a vencer o 3º round, como tinha vencido o 1º e 2º. Jones usou, como nunca tinha usado tanto, o seu maior alcance, teve paciência, e mostrou, também ele, uma disciplina táctica que deu frutos. Cormier vinha expectante que Jones se sentisse pouco à vontade. Hardy disse, aqui há tempos, que achava que Jones tinha, de propósito, gerido a luta com OSP, não mostrando tudo, procurando fazer o indispensável. Concordei logo com ele, e agora concordo ainda mais. A duvida que persiste é: Cormier alguma vez sentiu mesmo que poderia vencer Jones? Às vezes somos os nossos maiores sabotadores…

 

E pronto, por agora é tudo.
Se tiveste paciência para ler tudo, obrigado. Se gostaste, partilha à vontade. Se não concordares, fica também à vontade para contrapor. Gostei de fazer isto… Talvez faça mais vezes… Será boa ideia?

 

Por Luis Barneto