O CRESCIMENTO BRITÂNICO NO JIU-JITSU, POR DIOGO TRIGO

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Aula de fundamentos na “10th Planet jiu jitsu london”. Foto: Diogo Trigo

 

Em conversa com companheiros de treino, perguntámo-nos recentemente como é que o Reino Unido, quando a sua tradição de desportos de combate é baseada no boxing, se estabeleceu na última década como uma potência no Jiu Jitsu mundial.

 

Na minha opinião, a origem deste fenómeno tem carácter financeiro. A economia britânica é (para já) das mais sólidas do mundo, o que, aliado a um estado social atrativo e a uma cultura interessante, o tornam um ponto migratório convergente. Tal como aconteceu com a Califórnia, o facto de ser um destino atrativo recruta, até apenas por uma questão de números, lutadores e treinadores de categoria mundial.

 

O contingente brasileiro, incluindo nomes como Maurício Gomes, Roger Gracie, os irmãos Estima ou Lúcio “Lagarto”, estabeleceu ao longo dos últimos 10 anos uma escola de alta qualidade  que já deu faixas preta de segunda e terceira geração. A este componente, junta-se à sopa cultural a população Polaca, Russa, ou Cazaque, com a sua tradição de luta olímpica e greco-romana. Entretanto, o crescimento mediático do MMA levou ao aparecimento de ginásios especializados, especialmente em bairros operários. Este resultou num circuito de MMA amador, semi-profissional e profissional que torna viável aos atletas dedicarem-se em exclusividade ao desporto. Por fim, o facto de, ao contrário de outros países como a França, o Reino Unido não ter uma tradição de Judo, que tem vindo nos últimos anos a ostracizar e a fechar-se a outros desportos de combate, permite que esta sopa cultural de desportos de submissão cresça.

 

Para o desenvolvimento dos competidores, parece-nos também ser favorável a oferta enorme de competições, quer a nível regional e nacional, quer em termos de grandes competições internacionais, que permitem um primeiro contacto dos atletas com a competição, que estes atletas se testem com competição semelhante, ou mesmo de calibre mundial. Também variado é o tipo de regras das competições disponíveis. Recordo-me que em Outubro passado tive a oportunidade de competir segundo as regras da IBJJF, regras EBI, regras ADCC, mais submissões para a vitória e vitória só por submissão. Tudo isto no espaço de um mês, com uma viagem máxima de  3h30 para a competição.

 

Esta possibilidade de competir com regras diferentes leva apenas a que os atletas fiquem melhores, e até mais motivados, pois podem escolher as competições às quais o seu estilo mais se adapta. E de facto, é o que se observa, com atletas britânicos a começarem a competir com sucesso em algumas das maiores promoções, como o UFC, EBI, ADCC ou Mundiais IBJJF. Estes atletas ganham o estatuto de estrela (dentro da dimensão óbvia), passeiam o país em seminários, lançam DVDs de técnica. Um fórum online de discussão de jiu jitsu britânico tem 11 mil membros, onde professores, donos de escolas, faixas brancas, competidores e promotores se juntam para divulgar, conversar e discutir os assuntos do dia. Isto faz com que qualquer evento alcance automaticamente uma quantidade enorme de pessoas. É esta capacidade organizativa que aproveita bem as sementes que estão já disponíveis.

 

Assim sendo, apesar de suportado no poder de compra da população em geral, que permite que promoções como o Polaris, marcas de nicho como Meerkatsu, Scramble ou Hedera ou mesmo competições de maior nome (e preço de inscrição mais elevado) tenham mercado, também relevante é o carinho da população britânica pelas modalidades ditas “amadoras”. Apesar do futebol ser também o maior desporto no país, o desporto escolar inclui uma oferta de desportos diferentes, os atletas olímpicos são aclamados como heróis nacionais, e os medalhados são verdadeiros deuses na terra.

 

Parece-nos que um caminho semelhante vem vindo a ser trilhado por Portugal. O circuito de competição tem vindo a aumentar, os seminários de calibre mundial (incluindo valores nacionais) vão sendo mais frequentes, e o aparecimento de super-estrelas como Nelton Pontes ou Paquito nos maiores palcos ajudam a cristalizar este crescimento. Por fim, no JiujitsuPortugal tentamos também fazer a nossa parte, funcionando como ponto de encontro e troca de ideias entre todos os envolvidos na arte suave.

 

Por Diogo Trigo