HOMENS DE NEGRO, POR HUGO MIRANDA

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É um clássico. Depois de cada campeonato, é só procurar pelas redes sociais e encontramos dezenas de lutadores que atribuem as suas derrotas a erros de arbitragem. É um fenómeno recorrente e que não acontece só no Jiu-Jitsu. Num país onde há cerca de uma dezena de programas televisivos que se dedicam a comentar este tipo de acontecimentos no futebol,  o que acontece na arte suave é apenas uma extensão da nossa cultura desportiva e até do nosso sangue latino.

 

Este artigo não pretende glorificar os árbitros nem desculpar os seus eventuais erros, não pretende também juntar mais críticas e descontentamento, mas apenas dar a conhecer ao público em geral o que de facto se passa nos bastidores da arbitragem e o que envolve ser árbitro. Para isso recorremos a duas figuras conhecidas desse mundo, o nosso gigante Ronaldo Carlos e um craque da arbitragem brasileira, Alan Moraes.

 

Tiveram motivações diferentes para entrar no difícil caminho da arbitragem, mas que acabam por ser comuns entre os juízes:

 

 

Alan Moraes: Fiz o curso para aprimorar o meu conhecimento como professor e obter o meu diploma na CBJJ. Fiz o estágio e acabei por ficar. Já tinha alguns amigos que arbitravam e quando me apercebi já estava envolvido.

 

Ronaldo Carlos: Estava nos EUA a dar aulas e a competir. Um dia, no Pan-Americano No-Gi faltavam árbitros e a convite do professor Álvaro Mansor aceitei o desafio. Logo num evento grande! Desde então nunca encontrei outra paixão, uma vocação para estar no local mais exposto às críticas.

 

Com a conhecida escassez de árbitros, põe-se muitas vezes a questão da parcialidade, da problemática que é ajuizar lutas de conhecidos, colegas de equipa ou até alunos. Existem algumas diferenças entre os dois lados do Atlântico, mas ambos frisam o profissionalismo:

 

Alan Moraes: Hoje a arbitragem é bem profissional, e o mundo das competições é bem pequeno o que nos leva a conhecer todos os atletas, mas o árbitro consegue dividir bem e caso haja realmente um envolvimento maior com esta pessoa, trocamos. Hoje nenhum árbitro arbitra luta de amigos. Aqui arbitrar alunos é impossível, não seria profissional. A arbitragem hoje é totalmente profissional e imparcial, quem diz o contrário não vive o nosso dia-a-dia, cursos, reuniões e treinos de aperfeiçoamento.

 

Ronaldo Carlos: Desde o princípio, sempre fui e aconselho todos a serem profissionais. Em eventos menores ficamos mais próximos de professores e atletas. Não tenho qualquer problema em arbitrar colegas, amigos, alunos ou da mesma equipa. Já tive alguns problemas por isso em eventos menores mas acredito hoje ter adquirido a confiança das pessoas que assistem ao meu trabalho, visto que estamos sempre a encontrarmo-nos nos eventos.

 

Muitos dos árbitros existentes são também atletas, o que causa algumas dificuldades quando se tem que assumir ambos os papéis no mesmo dia:

 

Alan Moraes: Muito difícil, já tive que fazer 5 lutas num dia, após 4 dias cansativos de arbitragem, lutar e voltar a arbitrar, acabamos mortos. Mas estamos a fazer o que gostamos, por vezes os árbitros também gostam de competir.

 

 

Ronaldo Carlos: Sim, posso dizer que não consigo fazer as duas coisas bem, ou uma ou outra e isso porque estou muito envolvido na arbitragem. Respeito quem precisa fazer isso para estar participando em alguns eventos, como eu já fiz, mas no momento, sendo profissional estou a 100% focado em arbitrar.

 

Passando para a parte mais controversa e até ingrata, que são as críticas e os erros:

 

Alan Moraes: Erros sempre vão acontecer, todos estamos sujeitos ao erro. Às vezes perdemos uma luta por um erro nosso, na arbitragem não é diferente. Respeito todos os meus companheiros da equipa de arbitragem, e faço com que os meus alunos também tenham o mesmo entendimento.

 

 

Ronaldo Carlos: Hoje em dia, por estar do outro lado e saber como trabalhamos e como estamos esgotados ao final do dia, entendo que o erro pode acontecer. Existem erros que passam desapercebidos, e outros que interferem no resultado de uma luta. O árbitro tem que estar preparado para responder pelos seus erros sob pena de sua consciência.

 

Porém, ambos encaram esta parte mais negativa com naturalidade, como parte da missão. Vêm as críticas como algo positivo e não perdem a cabeça quando quem reclama não sabe o que está a dizer:

 

Alan Moraes: As criticas são importantes, devemos sempre estar prontos para ouvir e tentar melhorar,faz parte do nosso desenvolvimento profissional. Não me incomodo e não me deixo abalar, procuro sempre evoluir. Todos os professores têm o direito de torcer pelos seus alunos, mas devem manter a calma e o respeito para com o árbitro, ser educado e caso hajam realmente dúvidas, procurar o coordenador de arbitragem.

 

Ronaldo Carlos: As críticas são positivas, vistas pelo lado técnico. Nem sempre quem critica está tão bem informado e treinado quanto os árbitros. No momento evitamos o confronto e por isso temos um responsável pela arbitragem na maioria dos eventos. Depois do evento temos que ser humildes e assumir eventuais erros, uma vez que hoje em dia já há filmagens de quase todas as lutas.

 

A já mencionada escassez de pessoas disponíveis para arbitrar torna os dias de campeonato longos e cansativos. Geralmente os árbitros trabalham uma hora por uma hora de descanso, mas devido à falta de efectivo também podem ser duas horas por uma de descanso, o que no final do dia pode facilmente significar 6 ou mais horas de trabalho que exige total concentração, isto se o árbitro não for competir também.

 

Havendo mais árbitros formados e disponíveis, diminuiria com certeza o volume de trabalho e por conseguinte a probabilidade de erro. O processo de formação de árbitros difere do Brasil para Portugal, em virtude do maior histórico da modalidade no seu país de origem:

 

Alan Moraes: Todos devem ser marrom ou preta, devem estar devidamente registados na IBJJF e fazer o curso de árbitros. Aqui no Brasil existe uma prova para isso, de 50 questões, mais um prova de vídeo, onde o candidato deve tirar acima de 8 para estar apto a fazer o estágio que demora em média 3 eventos. Somente após os estágios será considerado como árbitro.

 

Ronaldo Carlos: Acredito muito em anos de treino, muita competição, o que representa a parte prática. Depois estudo das regras, frequentar cursos de regras e por fim vontade de arbitrar. Estamos afazer um excelente trabalho junto da FPJJB com as clínicas de regras e estamos a abrir um canal para interessados, uma vez que precisamos de pessoas com vontade de arbitrar. Mas não basta a vontade, temos que ter atenção aos requisitos que mencionei para formar árbitros.

 

Mas não basta concluir o curso e o estágio. Tal como os atletas treinam, fazendo posição e rolando, também os árbitros têm de se manter actualizados, estudar e discutir:

 

Alan Moraes: Treinamos todos os dias, em grupos de rede social, sempre que temos a oportunidade reunimo-nos na academia para trocar conhecimento. Estudamos lutas e posições, assistimos a cursos e sempre antes de um grande evento temos o curso de aprimoramento chamado RTP (Referee Training Program).

 

Ronaldo Carlos: Treinamos ao arbitrar, rodando pelos eventos, tendo experiência em diversas situações. O Jiu-Jitsu evolui a cada dia, e nas competições ocorre de tudo e arbitrando preparamo-nos para julgar as mais diversas situações de luta.

 

Olhando para o presente e para o futuro, ambos fazem um raios-x ao estado da arbitragem e ao que gostariam de ver para o futuro:

 

Alan Moraes: No Brasil há eventos em todos os fins-de-semana. Temos bons árbitros com mais de 10 anos de experiência, o que facilita o trabalho para as novas gerações. Hoje o jiu-jitsu vive a sua melhor época na arbitragem. Apesar das criticas, temos excelentes árbitros em todo o mundo, Portugal também tem os seus, como o professor Sergio Vita, um dos melhores do mundo. Acho que estamos a caminhar para um futuro de valorização e respeito da profissão, isso muito se deve ao professor Alvaro Mansur que organizou e profissionalizou o grupo.

 

Ronaldo Carlos: Estamos no caminho, não gosto de fazer comparações, ainda mais neste sentido, uma coisa posso dizer, temos poucas competições e isso faz com que atletas e árbitros evoluam mais lentamente e isso é uma realidade em Portugal. No futuro gostava de ver muitos campeonatos e eventos de Jiu-Jitsu, dois por fim-de-semana, um no sábado e outro no domingo, em todo o país. Assim teríamos mais árbitros, mais profissionais, possibilidades de mais pessoas viverem do Jiu-Jitsu.

 

São sem dúvida funções complicadas, de desgaste e muitas vezes não completamente compreendidas por quem vê de fora. A realidade brasileira está alguns passos à nossa frente, como é natural, mas em Portugal já são dados alguns passos para encurtar a distância. A FPJJB está a trabalhar no sentido de ver os cursos de arbitragem reconhecidos como créditos na cédula de treinador e tem aumentado o volume de formações nesta área, um passo importante tanto na arbitragem como na formação do público afecto ao Jiu-Jitsu.

 

Os erros irão com toda a certeza continuar a existir. Todos os que competem já foram certamente beneficiados – embora não façam publicações no facebook a mencionar esse facto – como também já foram prejudicados e como também já lutaram muitas vezes sem qualquer influência do árbitro no resultado. Os árbitros erram. Erram por cansaço. Erram porque não conseguiram ver bem determinada situação (e por vezes nem as filmagens tiram dúvidas) e erram essencialmente porque são humanos. Cabe a todos nós praticantes da arte suave sermos mais evoluídos que os adeptos de certos e determinados desportos e contribuir para termos melhores árbitros assim como queremos ter melhores atletas.

 

Por Hugo Miranda