ENTREVISTA: PROFESSOR PEDRO COELHO DA ‘GRACIE BARRA CASCAIS’ E A SUA ANÁLISE AO JIU-JITSU PORTUGUÊS

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Confesso que sou um admirador  do trabalho que o Professor Pedro Coelho vem a desenvolver na sua equipa, a Gracie Barra Cascais. Gosto do seu sentido de missão, da sua visão, da independência das suas análises, mas também do seu lado crítico de quem tem ambos os pés bem assentes no chão.

 

Quando entrevistei o Professor Pedro Coelho pela primeira vez em 2012, estava longe de imaginar que seria a pessoa em Portugal, com quem mais vezes iria conversar (e ter acaloradas discussões) sobre Jiu-Jitsu.

 

Líder daquela que é seguramente a equipa de Jiu-Jitsu em Portugal que tem as melhores instalações e que apresenta um crescimento perfeitamente sustentado, assente num rigoroso plano estratégico, a Gracie Barra Cascais é hoje um exemplo de como gerir uma academia de Jiu-Jitsu que poderia ser facilmente ser exportado para a Califórnia, Nova Iorque ou Abu Dhabi. Não foi por um acaso qualquer, que foi feita uma reportagem sobre esta equipa/ Academia num dos programas de referência do canal de televisão SIC Notícias, o ‘Imagens de Marca’.

 

E no entanto, apesar desta gestão rigorosa, empresarial, cuidada e exemplar, o Professor Pedro Coelho tem bem assente na filosofia do ‘seu’ Jiu-Jitsu, o respeito à sua linhagem (basta visitar as instalações da GB Cascais para o perceberem) honrando os Grandes Mestres e o seu Professor Alexandre Machado, sabendo que só estamos todos cá hoje, devido ao caminho que estes abriram no passado. Rigor empresarial, vanguarda e tradição a caminharem de mãos dadas.

 

Muito mais poderia escrever sobre este importante player do Jiu-Jitsu português, mas na entrevista que se segue irá o caro leitor perceber a importância das suas palavras e conhecer melhor quem gosta muito pouco de aparecer, orgulhoso do seu percurso, dos seus alunos, deixando que a enorme alegria e o extraordinário ambiente que se vive naquela ‘família’, falem por si.

 

JiuJitsuJPortugal – Pedro, como te sentes ao teres mais de 200 pessoas no tatame no dia do 6º aniversário da Gracie Barra Cascais? E como foram estes 6 anos?

 

Pedro Coelho – Bom no tatame estavam 150 (risos) mas dentro da Academia mais de 200. Estou feliz. Realizado e sobretudo grato pela confiança que as pessoas depositam em nós. Este ano fizemos questão de convidar a Jiu-Jitsu Portugal para estar presente como observadores e poderem testemunhar o ambiente da nossa academia desde a chegada das pessoas até à nossa cerimónia de graduações para perceberem a penetração que já temos na nossa Comunidade. Jiu-Jitsu para mim é isto. Um instrumento para ajudar a comunidade onde estamos inseridos. Ao mesmo tempo que difundimos o legado deixado pelo Grande Mestre Carlos Gracie, temos a fortuna de poder ensinar aquilo que amamos. Eu aqui utilizarei a palavra Nós, porque hoje em dia Gracie Barra Cascais tem um staff interno de 7 pessoas essenciais ao nosso funcionamento.

 

JJP – Não é comum ver a visita dos outros professores ao vosso tatame. A relação da GB Cascais com as outras equipas é normal ou optam mais por um certo distanciamento?

 

PC - Só por desconhecimento se pode afirmar isso. Temos visitas todos os anos de faixas pretas. O que talvez se possa dizer é que a maioria dos faixas pretas que nos visitam pertencem à Gracie Barra e isso prende-se com o facto de privilegiarmos naturalmente essa relação. Temos até um caso de um faixa preta da GF Team/ Fabrizio Jiu-Jitsu que passa uma a duas semanas por ano em Portugal, treina connosco tendo adquirido para o efeito um uniforme GB de propósito para treinar aqui no tempo que cá passa sabendo que a nossa Academia segue a política da Gracie Barra de ter uniformização obrigatória. Hoje em dia é um amigo próximo, mesmo sendo de outra equipa. Sente-se bem a treinar connosco.

 

Temos também uma política firme de fazer 2 seminários por ano na GB Cascais. Seminários estes que são sempre oferecidos aos nossos alunos. Ou seja numa linha totalmente diferente da prática corrente no mundo do Jiu-Jitsu que cobra aos alunos um valor por cada seminário. No ano passado tivemos na nossa Academia a treinar faixas pretas como o Professor Nelton Pontes, Professor Alex Machado, para além de todos os grandes nomes do Jiu-Jitsu que durante o Europeu nos visitam e sobre os quais vocês até fizeram uma reportagem.

 

Quanto ao distanciamento ou não de outras equipas penso que será o mesmo que existe no Jiu-Jitsu em geral. As equipas competem umas com as outras e por isso pode existir algum distanciamento embora eu pessoalmente tenha bons amigos e pessoas que respeito muito noutras equipas. Na Gracie Bara temos determinadas regras, entre elas a utilização de uniforme standard, e já tivemos no passado casos de pessoas de outras equipas que preferiram não nos visitar por terem de usar o nosso uniforme na nossa casa. Considero isso natural. No entanto e nestes 6 anos tenho muito orgulho de dizer que já passaram pelo tapete da GB Cascais autênticas lendas do Jiu-Jitsu como – Roger Gracie, Braulio Estima, Victor Estima, Rómulo Barral, Márcio Feitosa, Jefferson Moura, André Galvão, Claudio Calasans Jr,e também da nova geração do Jiu-jitsu – Edwin Najmi, Gabriel Argues, AJ Agazarm, Guilherme Iunes. São muitos nomes para uma Academia júnior como a nossa que tem apenas 6 anos. Conheço poucas Academias em Portugal que num curto espaço de tempo tenham possibilitado aos seus alunos o contacto com atletas deste gabarito.

 

JJP – A GB Cascais é uma referência, pela forma cuidada da estrutura e pelo modelo de gestão. A atenção dada a cada um dos alunos está ao nível das grandes empresas, que se focam no cliente. Pode-se falar de um Jiu-Jitsu MacDonalds by GB Cascais? Vês este rótulo como um elogio ou um desvio da realidade por aqueles que o usam?

 

PC - A forma como colocas a pergunto é um paradoxo ( risos ). Devolvo-te a pergunta. Como é que a forma cuidada da nossa estrutura, a atenção dada aos alunos e o foco no aluno pode ser considerado um Jiu-Jitsu MacDonalds? Penso que é exatamente o contrário! Jiu-Jitsu MacDonalds seria um modelo onde o aluno faixa branca entra na academia e não existe qualquer cuidado e atenção na sua integração tal como num restaurante de fast food. Conheço histórias de alunos faixas brancas que durante meses numa Academia são praticamente ignorados ou sequer o professor faixa preta lhe dá atenção, preferindo delegar essa atenção num aluno seu graduado. É absurdo e julgo que isto pertence ao passado.

 

Se nós na Gracie Barra Cascais somos algum tipo de referência pela forma cuidada que temos nos nossos processos e pelo nosso modelo de gestão então julgo que o que estamos a fazer é positivo e só pode elevar o Jiu-Jitsu. Aliás penso que o termo MacDonalds no Jiu-Jitsu é mais referido a equipas/academias onde as graduações de faixa são rápidas/expresso e sem mérito. E aí penso que nós somos até bastante conservadores. A nossa Academia tem mais de 6 anos e graduámos apenas agora os primeiros 2 faixas castanhas que estão connosco desde o primeiro dia. Por aí se vê a nossa linha. Vai demorar ainda a formar o nosso primeiro faixa preta.

 

JJP – Muitos acusam a Gracie Barra Equipa de ter criado um negócio, que vai contra a natureza do Jiu-Jitsu, isto é, criou um produto para consumidores de uma moda em vez de lutadores. O que pensas disto?

 

PC - São pontos de vista. Julgo que as pessoas confundem conceitos no Jiu-Jitsu e na vida. Uma coisa é a arte marcial em si e o que se ensina todos os dias, a componente meramente Marcial, outra coisa é a parte da gestão de uma Academia que tem obrigatoriamente de ser feita como uma empresa para que seja rentável. Estes 2 aspetos, o Marcial e a componente de gestão são separados e existem muitas pessoas que os confundem.

 

Desde 2011 numa viagem à Califórnia (para treinar Jiu-Jitsu) que fiz que tive o cuidado de observar a forma como determinadas Academias estavam a arrancar, na Gracie Barra e não só. Percebi claramente que estavam 10-15 anos à nossa frente. Havia já uma ideia clara de projetos com ensino de excelência aliados a uma forte componente empresarial ou seja Academias com espaços fantásticos mas rentáveis.

 

A Gracie Barra hoje em dia tem 600 escolas a nível mundial, mais de 40 mil atletas espalhados por 4 continentes e dezenas de países. Estamos todos ligados em rede, ensinamos os mesmos currículos ( personalizados pelo professor de cada Academia) nos mesmos dias, em simultâneo em todo o mundo. Temos também uma plataforma online de ligação entre escolas e um programa de certificação de instrutores ao nível das melhores práticas mundiais. Isto é a todos os títulos notável.

 

As pessoas hoje em dia sabem que uma Escola Oficial Gracie Barra é sinónimo de qualidade tanto no ensino da Arte Marcial como nas instalações, condições de higiene, segurança, ambiente etc. Paralelamente a isto a Gracie Barra continua a produzir Campeões Mundiais de Jiu-Jitsu em todas as faixas e estar sempre nas melhores 5 equipas do Mundo a nível competitivo. Isto diz tudo. O lema Jiu-Jitsu para todos é real, não é um cliché.

 

Mesmo em Portugal a Gracie Barra está entre as maiores escolas ( em volume de alunos) e ao mesmo tempo a formar alunos que têm sucesso em competições. Basta dizer que o melhor competidor de sempre em Portugal – O Professor Nelton Pontes é um aluno 100% formado na GB (faixa preta do Professor Alexandre Machado). Isto por si diz tudo.

 

JJP – A padronização da Gracie Barra (uniformes iguais, plano de aulas, etc) é benéfica para o ensino e evolução do aluno?

 

PC - Julgo que quanto a isso não existem dúvidas. Depois da Gracie Barra ter seguido esse caminho, outras grandes equipas seguiram esse padrão, casos da Alliance, casos da AOJ dos irmãos Mendes e outras. A uniformização traz um sentido de unidade e de compromisso dentro da equipa. Quando um aluno novo chega à Academia ele imediatamente se identifica com o resto da equipa e quer ter esse sentido de pertença. Para além disso o facto dos uniformes serem standard faz com que se esbatam as diferenças sociais dentro do tapete. Todos somos iguais e a única coisa que nos distingue são as nossas graduações dentro do tatame. Não existem quimonos melhores nem quimonos piores e isso cria uma harmonia dentro do tapete.

 

Quanto aos planos de aulas eles são essenciais. Quanto tu tens 150 ou 200 alunos a treinar contigo é essencial ter um plano. As aulas e técnicas do dia não podem ser de improviso, ou seja aquilo que o professor se lembrar ou lhe apetece nesse dia. O plano de aulas na GB está dividido em 3 graus – Iniciado, Avançado e Black Belt e os 3 planos têm 16 semanas que depois vão rodando. Em cada semana tens 2 aulas alternativas A e B. É um plano complexo e que vai sendo atualizado com a evolução do Jiu-Jitsu. Para este plano contribuem dezenas de professores e o mesmo é encabeçado pelo Mestre Carlos Gracie Jr e o Diretor Técnico da GB , Professor Márcio Feitosa que é uma enciclopédia de Jiu-Jitsu. O programa Black Belt hoje em dia é semanalmente produzido por professores convidados. Este ano tivemos o privilégio em Abril de fornecer os vídeos de técnicas para este programa a ser dado em todo o Mundo. Foi mais um momento marcante para nós.

 

JJP – Existe algum momento especial para ti nesta caminhada de 6 anos?

 

PC - Foram muitos. Estes 6 anos foram tão ricos e uma aventura tão grande que me parecem 20 ( risos ). Se puder nomear 2 momentos, seria com certeza quando fui surpreendido pelo meu Professor Alexandre Machado em Abril de 2013 quando “invadiu” a GB Cascais com os meus companheiros de treino de Lisboa e me graduou para faixa preta. Na altura lembro-me de pensar que não queria receber a faixa. Não estava preparado. Mas percebi que a mesma foi um desafio para mim que tento todos os dias honrar. At the end of the day o teu professor às vezes conhece-te melhor do que tu próprio. Nunca irei esquecer esse momento porque foi inusitado e inesperado.

 

O outro grande momento foi em Janeiro de 2016, quando a GB decidiu fazer o Training Day para o Europeu na nossa Academia. Tínhamos a dada altura cerca de 30 títulos mundiais IBJJF e ADCC de faixa preta presentes no tapete. Só o Roger Gracie tem 14 penso (10 IBBJF e 4 ADCC). Foi algo de surreal. Mais surreal se tornou quando me pediram no final do treino para dizer algumas palavras. Senti-me minúsculo.

 

JJP – És visitante de academias de outras equipas?

 

PC - Cá em Portugal pouco, embora já o tenha feito pontualmente em seminários. Até 2011 sempre que viajava aproveitava para treinar Jiu-jitsu onde pudesse mas não existiam tantas escolas GB como hoje. A última Academia de outra equipa que visitei foi a Checkmat em Los Alamitos, Califórnia em 2011. Hoje em dia raramente, para não dizer que nunca treino sem ser na GB Cascais. Tenho muito pouco tempo disponível. Dou aulas 6 dias por semana incluindo sábados até às 20h. Não consigo sequer dar resposta às solicitações que tenho de aulas privadas em virtude da minha outra atividade profissional. O pouquíssimo tempo disponível que tenho (normalmente domingos) são dedicados à família. Espero um dia poder retomar viagens periódicas para treinar Jiu-Jitsu mas irei privilegiar sempre treinar em escolas Gracie Barra. É a minha equipa, sempre será e oferece-me tudo aquilo que procuro e necessito no Jiu-Jitsu.

 

JJP – O Jiu-Jitsu infantil é uma aposta da Gracie Barra Cascais?

 

PC -O Jiu-jitsu infantil não só é uma aposta da Gracie Barra Cascais como é um pilar da mesma. Praticamente desde que abrimos em 2010 que iniciámos logo com aulas de crianças. Sempre pensámos numa escola com uma forte componente de crianças. Julgamos que não é possível implantar uma escola de artes marciais numa determinada comunidade sem o fazer. As crianças dos 3 aos 15 representam 40% dos alunos da Academia e o nosso objetivo é que representem mesmo cerca de 50% dos atletas a breve trecho. Já temos determinadas aulas de crianças onde necessitamos de ter 3 instrutores no mínimo no tapete e temos já horários divididos por idades 3-5 anos, 6-12 anos e 13 aos 15 anos. Na faixa dos 6 aos 12 já temos aulas 5 vezes por semana o que é notável. A especialização por idades é fundamental.

 

JJP – Daqui a dez anos como vês a Gracie Barra Cascais?

 

PC - Não irei tão longe como daqui a 10 anos mas tenho uma visão para o décimo aniversário da GB Cascais (daqui a 4 anos). 250 alunos no tapete (não sei como é que os vamos caber lá dentro) (risos) e 10 faixas pretas ao meu lado ali formados. Seria um sonho tornado realidade.

 

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ESTADO DO JIU-JITSU EM PORTUGAL

 

JJP – Como vês o estado do Jiu-Jitsu em Portugal?

 

PC- Tem crescido, especialmente nos últimos 6 anos, mas não tem acompanhado o ritmo de crescimento dos outros países europeus. Quero frisar também que este crescimento tem sido feito quase exclusivamente assente no trabalho e esforço dos professores e Academias e não através das entidades Federativas. São apenas as Academias e professores que verdadeiramente investem no Jiu-Jitsu e na sua promoção para fora, ou seja para captar novos praticantes. É um esforço diário, ao longo de muitos anos e muitas vezes inglório.

 

JJP – O que faz falta para a explosão do Jiu-Jitsu no nosso país, tal como aconteceu nos Estados Unidos? Ou achas que o Jiu-Jitsu nunca se irá chegar ás massas?

 

PC - O Jiu-Jitsu já está a chegar às massas. Basta olhar para o tipo de pessoas que entram nas nossas Academias todos os dias. De todos os quadrantes e estratos sociais. Quando eu comecei a fazer jiu-jitsu, as pessoas do meu circulo de amigos e família diziam que eu era maluco (risos). Ou seja a perceção externa da sociedade sobre o jiu-jitsu mudou muito e aqui naturalmente tenho que destacar o trabalho de alguns professores e equipas que foram determinantes para isso. Quanto à questão de acompanhar os EUA será difícil acontecer. Estamos a falar de um país com 250 milhões de pessoas, uma economia de escala incrível, que permite todo o tipo de empreendimentos. Portugal por sua vez é um país de reduzida dimensão onde apenas te podes destacar pela qualidade ou oferecer algo que ninguém mais oferece. No entanto entendo que o Jiu-Jitsu pode perfeitamente chegar aos mais de 15 mil atletas federados que tem o Judo e o Karaté em Portugal e ainda nos falta muito. Por isso a margem de progressão é, no meu entender grande mas vai depender de mudanças que temos implementar.

 

JJP – Os bons resultados internacionais de alguns atletas nacionais (Nelton e Paquito são os mais mediáticos) são pouco aproveitados para se chegar às grandes massas?

 

PC - São. Mas continua a haver muito “bairrismo”. O Paquito e o Nelton (e outros) quando lutam lá fora são mais do que a Focus Jiu Jitsu ou a Gracie Barra. São verdadeiramente a nossa seleção e tem de haver um movimento global de todas as equipas e Professores no apoio a estes atletas. Infelizmente isso não se vê. Fazer um post de facebook a dar os parabéns pelos resultados não é suficiente. Tem que se pegar nestes dois exemplos e elevá-los, dar-lhes apoios financeiros e não só, promovê-los nos media. Esta é uma longa conversa e discussão que tem de ser tida acerca da nossa Federação e do futuro da mesma na promoção da nossa arte.

 

JJP – Portugal foi o primeiro país do mundo a certificar o ‘professor de Jiu-Jitsu’. Como avalias esta ação por parte da Federação Portuguesa de Jiu-Jitsu?

 

PC - Foi um passo necessário. Embora eu considere que foi um passo decisivo, ele apenas foi dado porque as academias e o Jiu-Jitsu em Portugal estavam num limbo, não havia enquadramento. Agora já há, mas há muito mais a fazer. Não existe qualquer supervisão. Existem professores não certificados a dar aulas em Portugal sem que se faça nada relativamente a isso. E não existe qualquer calendário definido anualmente para abrir a porta a novas certificações. Friso que foi um passo importante mas apenas um “baby step” relativamente ao que tem de ser feito.

 

JJP – Esta certificação vai ser benéfica para o Jiu-Jitsu ou é apenas para por ‘ordem na casa’ um género de maquilhagem?

 

PC - Repito que é fundamental, mas apenas num contexto onde tenhamos uma Federação ativa na supervisão dos professores certificados quer por si quer com as entidades públicas para esse supervisão. E também num contexto de calendários anuais bem definidos de novas formações e certificações. Não é de todo o que se verifica neste momento.

 

JJP – Na tua opinião a Federação Portuguesa de Jiu-Jitsu, tem alavancado o Jiu-jitsu luso ou apenas cumpre?

 

PC - Na minha opinião não tem cumprido o papel de uma verdadeira Federação que desenvolve a arte e capta novos praticantes para as Academias . E isto não é nada de pessoal relativamente às pessoas da Federação que julgo terem boas competências em determinadas áreas. Dou o caso do Professor Diogo Valença por exemplo que já tem uma experiência significativa na organização de provas de Jiu-Jitsu e a algumas pessoas que ajudam. Julgo que as competências adquiridas nessa área vão sempre ser fundamentais no futuro. A questão é que se queremos um Jiu-Jitsu profissional em Portugal, necessitamos de uma Federação profissional com escritórios, staff, organização, estatutos, eleições etc. Eu tenho alunos que se queixam que nem um telefone podem ligar quando querem tratar de assuntos de filiação, seguros, etc. É absurdo. Mas naturalmente não me posso queixar da boa vontade e prestabilidade de alguns elementos da Federação quando tento tratar de algo. Mas isso é insuficiente. Passámos para um outro nível no nosso desporto e necessitamos de algo diferente.

 

JJP – Muitos criticam a Federação por não promover o Jiu-Jitsu, limitando-se a organizar campeonatos. Que outras ações pdem ser desenvolvidas?

 

PC - Criticam e com razão pelas razões que expus em cima. Organizar 4 provas por ano ao final destes mais de 10 anos de Federação é de facto insuficiente. Necessitamos que a Federação faça :

 

1. Promoção paga nos Media/Redes Sociais acerca do Jiu-Jitsu.

 

2. Press Releases acerca de eventos/atletas.

 

3. Um circuito nacional de provas de Jiu-Jitsu com e sem kimono com rankings nacionais (12 provas no mínimo por ano espalhadas por todo o país com a chancela da Federação).

 

4. Prémios monetários nas categorias de adulto em todas as provas e prémios de ranking.

 

5. Cursos de Arbitragem reconhecidos pela IBJJF pelo menos 3 a 4 vezes ao ano no nosso país.

 

6. Cursos de certificação de professores anuais e em período certo.

 

7. Obrigatoriedade de entrega do registo criminal para diploma de faixa preta ou certificação como professor.

 

8. Muppies e Outdoors nas principais cidades com promoção do Jiu-Jitsu.

 

9. Uma Federação com sede e escritórios e um staff profissionais ou semi-profissionais.

 

10. Eventos regulares de Promoção do Jiu-Jitsu em feiras de fitness, parques, zonas turísticas.

 

11. Convénios com escolas para começar um programa nacional de ensino nas escolas.

 

E por aí em diante. Isto são alguns exemplos de coisas que a Federação não faz, ou se faz é de uma forma deficiente. Está basicamente tudo por fazer e necessitamos de dar este salto.

 

JJP – É preciso sangue novo no dirigismo do Jiu-Jitsu em Portugal?

 

PC- Sangue novo é sempre bem vindo. O Jiu-Jitsu em Portugal tem vindo a ser recheado de pessoas em todas as equipas com formações e competências das mais variadas espécies. Temos nesta altura a capacidade/possibilidade de termos quadros de qualidade no dirigismo do Jiu-Jitsu em Portugal. Há muitas pessoas com capacidades. Algumas delas já trabalham na Federação, outras ainda não. O que necessitamos mesmo é de uma nova liderança e de uma nova visão do Jiu-Jitsu. Pela minha parte é-me completamente indiferente de que equipa ou a que filiação estas pessoas pertencem, desde que sejam competentes e tenham visão.

 

Quero também deixar bem claro que estas críticas à Federação são construtivas e não destrutivas. Esta é a Federação na qual a minha equipa e eu próprio como faixa preta estamos filiados por ser a Federação que depende diretamente da IBJJF e por isso não pretendo com isto que se pense que deve haver outra Federação ou se deve avançar nesse sentido. A FPJJB faz sentido mas com um funcionamento, competências e organização totalmente diferentes e sobretudo com…transparência.

 

JJP – Considerarias passar para o lado do dirigismo no Jiu-Jitsu já que tens uma posição clara sobre o caminho a percorrer?

 

PC- Neste momento e nos próximos 2-3 anos estou absolutamente focado no projeto GB Cascais. Pelo menos até formar a minha primeira geração de faixas pretas e por isso a minha resposta a essa pergunta neste momento é não. Mas tal como afirmei há pessoas dentro do panorama do Jiu-Jitsu português que têm o perfil e a disponibilidade, umas dentro da própria Federação mas também muitas fora da mesma. O que precisa de mudar sobretudo é o formato da organização.

 

JJP – Para terminar e repetindo a pergunta, como vês daqui a dez anos o Jiu-Jitsu em Portugal?

 

PC - Vai depender das mudanças que possam ocorrer nos próximos 2 a 3 anos. Se corrigirmos aquilo que temos de corrigir principalmente ao nível organizativo prevejo um crescimento significativo e sobretudo prevejo que podemos ocupar uma quota importante dentro do mercado de artes marciais em Portugal. Tudo isto vai influenciar o crescimento das Academias, Equipas, novos talentos etc. Mas só se dermos agora os passos corretos nesse sentido, caso contrário irá evoluir lentamente e com grandes disparidades entre equipas e Academias que é o que acontece hoje em dia.

 

Aproveito esta pergunta para concluir, agradecendo ao site JiujitsuPortugal e seus colaboradores o trabalho que tem feito em prol do Jiu-Jitsu Português. Uma boa parte da evolução, informação e enquadramento verificado nos últimos anos em Portugal a vocês e ao vosso esforço se deve.

 

Por Paulo Santos