MMA – O REGRESSO À TRADIÇÃO MARCIAL, POR LUIS BARNETO

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MMA – O regresso à tradição marcial

 

Como? O MMA e a tradição marcial colocados na mesma frase? Eu explico.

 

Enquanto desporto, o MMA tem passado por um desenvolvimento drástico e alucinante, muito por força de dois fatores: A abrangência técnica e tática que implica, tornando-o imprevisível, demasiadas vezes, no resultado e formato,e o caráter desportivo que o acompanha, que mantendo uma agressividade bastante atraente para a maior parte dos seres humanos, o tornou praticável, na sociedade moderna sempre pronta a minimizar o risco de toda e qualquer expressão artística e/ou desportiva.

 

E como é normal neste tipo de fenómeno, um conceito pode evoluir melhor do que os seus seguidores, o seu público, e evolui seguramente mais depressa do que os seus criadores.

 

Para alguns, o MMA é ainda, e somente, a competição que deu a conhecer a extraordinária arte chamada Jiu Jitsu Brasileiro. Para outros, é a demonstração da superioridade do Wrestling, a cada takedown. Para outros, do Boxe, a cada soco de KO, do Muay Thai, a cada low kick, do Tae Kwon Do a cada pontapé acrobático à cabeça, ou da Capoeira, do Wing Chun, do Karate, do que seja…

 

“A verdadeira tradição marcial sem armas é, a meu ver, a prática do combate para cenário de combate, não de mera sobrevivência, mas de procura da vitória, no campo de batalha, para os momentos em que o imprevisto, que naturalmente a experiência guerreira sabia ser mais comum do que o desejável, acontecia: O combate desarmado.”

 

E a verdade é que estão todos certos e todos errados ao mesmo tempo.
O MMA desenvolve-se, como desporto, numa esfera nova, mais abrangente, do que todas as anteriores, e isso permite a aplicação com sucesso, com um sucesso maior do que na sua própria arte de raíz, por vezes, de vários pormenores e técnicas de outras modalidades. Ao mesmo tempo que impossibilita a aplicação de outros tantos, pelos exatos mesmos motivos.

 

Quanto mais “moderna” a arte marcial ou desporto de combate de que falemos, mais temos de recuar para encontrar a expressão técnica e tática que hoje em dia é moderna, sim, mas no MMA. Precisamente porque a base de todas era seguramente uma qualquer expressão marcial pensada para uma aplicação em combate total que entretanto deu lugar a uma aplicação em combate parcial, e em alguns casos, infelizmente, a uma aplicação estética, somente.

 

É por isso normal vermos um atleta conseguir realizar com sucesso em MMA o que não realiza com igual sucesso, pelo menos não sem alguns ajustes, técnicos ou táticos, numa competição de outro desporto. E vice-versa.
Mas voltemos à tradição marcial.

 

Para mim, é portanto seguro dizer que a maioria das opções desportivas de combate têm como base um desejo de especialização numa determinada área, em detrimento de outras, pelas mais diversas razões, culturais, pessoais de quem as idealiza, etc.
Da mesma forma, essa especialização colocou de lado não só outras áreas, distâncias, opções de combate corpo a corpo, como procura até diferenciar a sua vertente desportiva de outras do mesmo género. Isso é visível nas alterações de regras quase anuais que os desportos de combate presentes nos Jogos Olímpicos preconizam, algumas com efeitos desastrosos, em termos de espectáculo, e/ou de respeito pelo desporto em causa.

 

Resta-nos as chamadas Artes Marciais tradicionais, para manterem viva uma certa conceptualização de combate total? Bom, mas essa tradição marcial, que muitos hoje identificam com práticas de alguma forma culturais, muito fieis a aspetos ancestrais e à filosofia oriental, sejam mais holísticas ou mais práticas, é demasiadas vezes desprovida do cenário de teste (desporto), pelo menos com a consistência adequada.
A verdadeira tradição marcial sem armas é, a meu ver, a prática do combate para cenário de combate, não de mera sobrevivência, mas de procura da vitória, no campo de batalha, para os momentos em que o imprevisto, que naturalmente a experiência guerreira sabia ser mais comum do que o desejável, acontecia: O combate desarmado.
Como nesse cenário, não há lugar à especialização parcial, todas as distâncias contam, e o grappling e o striking “dançarão” juntos, sempre que preciso, os diversos desportos de combate, que na sua maioria são especializados em determinada forma, distância, opção de combate, são parcelas desse todo.

 

“Para alguns, o MMA é ainda, e somente, a competição que deu a conhecer a extraordinária arte chamada Jiu Jitsu Brasileiro.”

 

As modalidades dedicadas à defesa pessoal poderão aproximar-se mais desta realidade total, mas acabam a esbarrar no seu próprio lema de não serem um desporto, o que poderá abrir espaço a opções fantasistas que por falta de necessidade ou exposição ao teste, por exemplo desportivo, proliferam mais do que o desejável.

 

Ainda que em alguns casos, naturalmente estejam devidamente estruturadas e plenas de testes internos, em ambiente controlado, é inegável que o teste será sempre diferente, em intensidade física e mental, até em intenção, do desportivo, e normalmente visa a sobrevivência, não a tal vitória em campo de batalha, poderá (arrisco a dizer que deverá) privilegiar a fuga, o uso da surpresa, até pelos perigos constantes de mais oponentes, aparecimento de armas, etc, e não uma procura sustentada, longa, de eficácia em combate de apenas dois resultados, vitória ou derrota, contra um adversário igualmente determinado, treinado, fisicamente capaz, tecnicamente evoluído.

 

Assim, a tradição marcial, fazendo naturalmente parte de todos os exemplos dados antes, de artes, sistemas e desportos de combate, ganha uma expressão diferente, porque mais total ou mais testada, no MMA, quando falamos do cenário do campo de batalha, de um para um, sem armas.

 

Compreendida a “afronta” que preconizo apelidando o MMA de tradição marcial, abordarei na próxima oportunidade em que momento e de que forma o MMA passou de espaço de confronto e “tira-teimas” de especializações parciais, a desporto próprio, com uma identidade definida.

 

Por Luis Barneto