DANIEL STRAUSS: “QUERO LUTAR COM OS GAJOS DE TOPO. TÃO SIMPLES QUANTO ISSO”

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Quando fores ver uma luta do strongman do Jiu-Jitsu, podes ter a certeza que vais assistir a um grande espectáculo. Foto: Dan Strauss

 

 

Daniel Strauss é um jovem competidor britânico com quem muita gente estará mais familiarizada devido ao super embate com AJ Agazarm no Polaris 2. Mas o pedigree deste gigante já se estende ao longo de quase uma década. Com 16 anos venceu a etapa britânica do ADCC, no ano seguinte venceu o mundial sem pano faixa azul.

 

Com uma pega hercúlea que usa frequentemente na sua devastadora gravata, já venceu as qualificações europeias do ADCC, onde marcou presença em 2011, perdendo honrosamente como tantos outros para Cláudio Calassans. Interrompeu a sua preparação para o EBI 9 – nos meio pesados – para ter uma conversa séria, mas ao mesmo tempo divertida com o site JiuJitsuPortugal.

 

JiuJitsu Portugal -Para as pessoas que não te conhecem, fala-nos um bocadinho da tua linhagem.

Daniel Strauss – Treino mais ou menos há 10 anos, passados todos no Mill Hill BJJ, do Nick Brooks e fui promovido a faixa preta pelo Roger Gracie há pouco mais de dois anos.

 

JJP – Depois do ADCC, voltas agora a um grande palco. No próximo mês competes no EBI, estás a fazer algum tipo de preparação diferente do normal para este torneio?

DS - Não especialmente, não. Não me faz muito diferença com quem sou emparelhado. Se eu tivesse uma experiência exclusiva IBJJF e fosse a minha primeira vez a competir sub only, provavelmente teria de mudar o meu treino, mas já competi tantas vezes num tipo de regras parecido, que o meu treino não precisa de variar muito.

 

JJP – Mas neste caso, por exemplo, tens a diferença das regras de tempo extra nesta competição. Estás a trabalhar nalguma coisa específica? Podes sempre apanhar um gajo que tente ganhar só queimando tempo e apostando na fuga mais rápida…

DS - Nah! Para fazerem isso teriam de sobreviver os primeiros 10 minutos. Boa sorte para eles.

 

JJP – Tens algum truque na manga?

DS - Não tenho nenhum plano específico, eu vou para fazer o meu jogo, certificar-me que me divirto. Gosto de submissões diferentes, sou conhecido pelas gravatas, óbvio, mas digo-te que praticamente não apanho ninguém em gravatas no meu ginásio! Toda a gente me conhece bem e defende logo na fase inicial, por isso tenho de praticar uma variedade de submissões muito grande.

 

JJP – O cartaz todo já é público, há alguém que queiras enfrentar particlarmente?

DS – Já é público?

 

JJP – Sim. Vinny Magalhaes, Gordon Ryan, Bruno Bastos, Quentin Rosenzwieg, Elliot Kelly, Guybson Sá, Adam Sachnoff, Kyle Boehm, Jimmy Friedrich, Rodrigo Antunes, Daniel O’Brien, Travis Moore, Ryan Walsh, Jacen Flynn.

DS - Ah, não sabia. Quero o Gordon ou o Vinny. Tão simples quanto isso. O Gordon Ryan é bi-campeão do EBI e auto denomina-se “Rei”. O Vinny é campeão mundial e do ADCC. Não vou voar para o outro lado do mundo para ir pelo caminho de menor resistência. Quero lutar com os gajos do topo, tão simples quanto isso.

 

JJP – Serás apenas o segundo Europeu e Britânico (ex aequo com Tom Breese) a participar nesta promoção. Isso traz alguma pressão extra?

DS - Pressão? De maneira nenhuma! Estas cenas é que me inspiram. Fico super motivado pelo apoio que tenho do UK, adoro poder representar o meu país nos grandes palcos internacionais.

 

JJP – Pareces estar mais seco, ainda tens muito peso para cortar?

DS - Cortar é uma palavra forte (risos). Não me estou a matar para perder peso, estou só a reduzir o tamanho das doses de gelado (risos).

 

JJP – Quanto pesas normalmente, em que classe competes mais à vontade?

DS - No verão estava nos 97-98kg e a competição é a 93. Não tenho muitos problemas em perder peso, como imenso só para o conseguir manter. Aperto ligeiramente a minha dieta, e com o aumento no volume de treino o peso desce muito facilmente, nem stresso com isso. Deliberadamente. A minha primeira competição foi a 55kg, e o mais pesado que competi foi a 97kg e competi literalmente em todas as classes entre um e outro. A minha última competição foi a 90kg, no Polaris. Não me preocupa muito, desde que não tenha de stressar para fazer o peso. Eu sou um grappler, estou aqui para competir, não me façam cortar peso, não é essa a minha vida.

 

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Dan é um lutador que se entretém a dobrar ferraduras e pregos gigantes com as mãos. Foto: Dan Strauss

 

 

 

JJP – Como é então a tua rotina de treinos?

DS - Ensino 4 aulas por semana, e dou frequentemente seminários aos fins de semana. Dependendo como o corpo se sente, rolo na maioria das aulas, com toda a gente, os meus alunos são os meus parceiros de treino.

 

JJP – Não há assim tanta gente ao teu nível ‘grandona’ no país pois não? Treinas com mais alguém?

DS - Deixa-os acreditar nisso (risos). Treino só com o meu pessoal. Temos muita gente boa e ‘grandona’ o suficiente em Mill Hill, mas nem é uma questão de tamanho, é uma questão de usar a cabeça.

 

JJP – Ok, é justo. E quanto a treino de força, como estás a fazer?

DS - Levanto peso 3 ou 4 vezes por semana. Agora reduzi para 2 vezes por semana, mais leve, mas com um volume de trabalho aumentado, e faço natação duas vezes por semana também.

 

JJP – Também gostas de fazer o treino de strongman, como é que isso funciona?

DDS - Às vezes é uma parte importante do meu treino. Para te ser muito honesto, cortei um bocado nisso ultimamente, mas havia uma altura em que fazia imenso. Pedras, barris, pneus, jugo, etc. Agora já não tenho tanto acesso a esse equipamento como costumava, mas tento ainda incorporar partes no meu treino. É bem mais divertido atirar um barril ou uma pedra do que um haltere. Mas o treino de strongman é muito desgastante, e prefiro guardar isso para as férias, quando não tenho uma competição grande marcada.

 

JJP – Quanto a isso, quais são os teus planos para o futuro? ADCC, mundiais, europeus…

DS - O ADCC é a competição de grappling mais prestigiada do mundo, por isso continua a ser o principal objectivo.

 

JJP – Há alguém específico com quem gostasses de competir? Segundo combate com o AJ Agazarm, ou achas que o karma já equilibrou as contas?

DS – Estou pronto para o AJ quando ele quiser, mas não sabia que pontapés eram permitidos (risos). Eu gosto de enfrentar pessoal que esteja preparado para e seja capaz de fazer lutas entusiasmantes. Quando estou num espectáculo tenho um objectivo apenas, de entreter, é só que acho que entretém mais quando ganho (risos). Se usas a palavra “espectáculo”, é porque tens uma audiência, que está a pagar para te ver competir. Tens de dar-lhes alguma coisa de volta, e há muita gente que não se apercebe disso.

 

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Uma das lutas com mais ‘tempero’ dos últimos tempos. Revanche para breve? Foto: Dan Strauss

 

JJP – O torneio que tu organizas, o Kleos, também é um bocado um exemplo disso. É uma coisa muito fixe, muito diferente. Alguma vez imaginaste que fosse ser assim tão bem sucedido?

DS - (Risos) claro que sim. Kleos Grappling é o meu bebé, meu e do Mike “The Windsock” Hawkins. O Mike veio falar comigo com a ideia de fazer um torneio feito por competidores, para competidores. Eu sei que muita gente diz isso, mas nós estamos a falar a sério, e tentámos incluir tudo do que gostamos e tirar o resto (mau apoio ao cliente, atrasos, medalhas chungas, atmosfera má, etc.). Gostamos de competições divertidas e amigáveis, com repescagens, a tempo e horas, e que os competidores saibam exactamente o que se vai passar, com medalhas e prémios altamente. Que seja um dia bem passado. E foi o que fizemos. O torneio não só acontece a horas, às vezes até conseguimos antecipar. É incrível, não sei como é que há tanta gente que consegue borrar a pintura nisto. O Mike trata disso, eu trato do ambiente. Por exemplo, são sempre torneios diferentes, com temas diferentes. Game of Thrones, a Odisseia, Mad Max, o próximo é o Exterminador Implacável. E o prémio do troféu absoluto são uns martelos de guerra ridiculamente altamente, relacionados com o tema. E música. A música faz uma diferença do carago, não imaginas. Mantém-te animado, entretém o pessoal, é incrível.

 

JJP – Pois. Foi uma das coisas em que reparei no último torneio. Música boa a bombar. Isso, e a sala de aquecimento, que tinha o Mad Max Beyond Thunderdome a passar.

DS - Exacto, temos sempre filmes antigos relacionados com o tema a passar. Muito relaxado, muito tranquilo, e está toda a gente a divertir-se. Temos uma percentagem incrível de gente que regressa a cada evento por algum motivo.

 

JJP – E em termos de dimensão, sucesso? Esgota sempre, tens lutadores do UFC a competir.

DS - Temos de limitar os números, é a única maneira de manter isto. É onde a gente põe a experiência dos clientes à frente do nosso dinheiro. Esgotamos semanas, às vezes meses, antes da competição. Grande sucesso, lutadores da UFC, pessoal a pedir para trazermos a competição para outros países… Mas decidimos ficar onde estamos (Clube de Judo de High Wycombe) porque é perfeito. Tem bancadas, tem sistema de som, sala de aquecimento com televisão, tem um bar para celebrar ou afogar as mágoas (risos), é pequeno e acolhedor, o que aumenta a atmosfera.

 

JJP – Para além disto, é normal vermos-te em competições a treinar os teus alunos. Há alguém que devamos ter debaixo de olho?

DS - Pois é, acho que perco a voz mensalmente de tanto berrar (risos). Acho que a minha visão do Jiu-Jitsu mudou ao longo dos anos. Há quem goze por eu dizer que estou mais velho tendo só 25 anos, mas ando nisto há 10 anos. Não me interpretes mal, mantenho-me 100% um competidor e estou focado nisso, mas agora também me preocupo imenso com os meus alunos, que não fazia quando tinha 17 ou 18 anos. Sou super obcecado com eles, sempre a pensar em maneiras de ajudar os alunos e a equipa, seja nutrição e planos de treino de força, a treino mental, para além dos pormenores técnicos todos. Mas só estou a fazer isto há 9 meses, durante muito tempo ensinava só uma aula nogi por semana. Foi em Fevereiro que fiquei à frente de um programa completo de nogi, 5 horas por semana, que me permite implementar um plano de treino metodológico e sistémico para transmitir os conhecimentos que adquiri ao longo dos anos. Os progressos são ridículos, estou-te a dizer, estou a construir um exército. Esperem e verão, eles vêm aí.

 

JJP – Entretanto, mais ou menos na mesma altura, começaste o teu podcast, o Raspberry Ape Podcast. Como é que isso funciona?

DS - Pois, comecei isso este ano. Tem sido ainda mais bem recebido do que eu estava à espera, e divirto-me imenso a fazê-lo. Basicamente sento-me a falar com especialistas em cenas como treino físico, treino mental, e especialmente pessoal do Jiu-Jistu. Tento dissecar o que fez deles o que são hoje, e acho que está a tornar-se uma documentação incrível da história do Jiu-Jitsu no Reino Unido. Vejo isto como um modo de devolver algo ao desporto, adoro transmitir conhecimento e informação, e muita gente a começar o Jiu-Jistu não faz ideias das suas raízes, que eu acho crucial. O problema é só arranjar tempo para isso, com tudo o resto em que estou envolvido, mas estou a tentar, prometo!

 

JJP – O nome do podcast é a tua própria alcunha. Eu sei que queres contar-nos de onde apareceu esse nome, “O Macaco da Framboesa”. (Nota – O Dan é conhecido por de contar esta história de um modo… pouco consistente).

DS - É uma história fantástica. Quando tinha 3 anos fui com os meus pais ao Zoo. Eles tiraram os olhos de mim durante uns segundos e mal deram conta eu tinha passado por baixo das barras e estava a gatinhar em direcção ao meu animal favorito, um gorila de 230kg. Houve histeria, pânico, multidão enorme aos berros à medida em que o bicho curioso se aproximou de mim. Mas eu, mesmo tão novinho, sabia que era um gigante dócil, que não me ia magoar. O pessoal do zoo não sabia, e tinham já uma espingarda apontada ao gorila. Mas à última, um homem na multidão berrou “PAREM!”. O homem estava a comer um pacote de framboesas, que atirou para a jaula. O gorila quando viu isto virou-me as costas e foi se encher de framboesas, o que deu tempo a alguém entrar na jaula e salvar-me. O gorila viveu, e este momento ficou comigo para sempre, lembro-me como se fosse ontem. Assim, quando dei a primeira entrevista e me perguntaram se tinha alguma alcunha, a primeira coisa que me veio à cabeça foi The Raspberry Ape, O Macaco da Framboesa. E o resto é história.

 

JJP – (Risos) okay, acho que já ouvi uma história parecida com isso. Por falar em macaquices, como foi a história de ires concorrer ao UK Ninja Warrior? Treinaste a sério para isso?

DS - (Risos), pareceu-te que treinei? Espero que não, foi só para ser giro. Um gajo tem de se divertir nesta vida, não pode ser tudo sério. Eu costumava pendurar-me, circuitos de obstáculo e cenas assim. Quando me mandaram um formulário para a audição eu entrei a matar. Treinei zero vezes, o máximo que fiz foi escolher o fato que ia usar. Não queria saber de chegar ao fim do circuito, só me queria divertir e entreter o pessoal. Pá, é isso que é suposto acontecer num espectáculo. Por isso quando apareci numa licra leopardo, kimono, máscara de lutador, capa vermelha e um martelo de Thor, estava à espera de estar um monte de gente como eu lá. Mas não. Toda a gente equipada a rigor, a aquecer e com planos de jogo. Enquanto isso, eu peguei numa caixa inteira de barras de proteína que a ITV nos deu e despachei-a toda. E depois quando foi a minha vez fui-me divertir. Mas é bem mais difícil do que parece, e bem a água mais gelada do que imaginas.

 

JJP – Imagino que sim. Certamente entreteve-me a mim. Antes de te deixar voltar ao treino, queres falar-nos de patrocinadores, onde é que o pessoal te pode encontrar, e cenas assim?

DS – The Raspberry Ape Podcast, no vosso agregador de podcasts favoritos. Ensino 4 vezes por semana no Mill Hill BJJ (millhillbjj.com). Podem-me seguir no instagram,  @raspberry_ape, e no facebook em facebook.com/daniel.ape.strauss.

 

JJP – O Dan vai competir no EBI 9, a 6 de Novembro. Pode ser seguido em ufc.tv. Obrigado Dan, abraço e boa sorte.

DS – Foi muito divertido, obrigado eu. Abraço.

 

Por Diogo Trigo

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