CONFISSÕES DE UM SAPATEIRO, POR DIOGO TRIGO

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Rousimar “Toquinho” Palhares é um dos atletas que usa (e abusa) destas finalizações. Foto: BJJ Heroes

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Vamos pegar o touro pelos cornos: eu admito que sou fã de chaves de perna.

 

“Chaves de perna!”

 

Esta expressão está ao nível de “faixa azul online” ou de “sapatos no tapete” nos piores pesadelos de alguns puristas de Jiu-Jitsu.

 

Eu, porém, não o aprendi assim, já que na escola em que comecei a treinar todas as submissões são aprendidas e treinadas desde cedo, e desde a primeira aula que não me apercebi da existência de submissões ou posições tabu. Botinhas. Americanas de pé. Chaves de joelho. Heelhooks. Tudo isto eu experimentei nas primeiras semanas em que rolei.

 

Não quer isto dizer que não me tenha vincada a diferença de seriedade entre um mata-leão ou um heelhook invertido. De facto, sempre fui ensinado a usar a técnica para estabelecer posição e trancar a submissão sem forçar, soltando e transitando para outra chave em cadeia se o parceiro não bater. Trocando posições de pernas com alguém relativamente novo na arte, repetimos várias vezes a forma correta e segura de escapar de cada chave; do mesmo modo que se trancarmos uma omoplata ou kimura, reiteramos também que não devem explodir e tentar fugir como um touro selvagem, pois o risco de lesão séria está igualmente presente.

 

*Lê mais artigos de Diogo Trigo na sua coluna ‘Open Mat':  http://jiujitsuportugal.com/category/open-mat-a-coluna-de-diogo-trigo/

 

O jogo de pernas complementa bem qualquer tipo de estratégia. Um guardeiro tem a oportunidade de atacar um adversário com uma postura boa ameaçando entrar por baixo, tomando-lhe as pernas. Ao mesmo tempo, o dito guardeiro deve ter muito presente a posição dos seus pés e não os pode relaxar em momento nenhum se o adversário ameaçar por sua vez as suas pernas a partir do topo. No momento imediato a uma raspagem ou queda, frequentemente dão por si os competidores com as pernas entrelaçadas e isoladas, à mercê um do outro. Muitas vezes, ataques a pernas forçam o adversário a ceder posição para poder defender. Faz pois assim sentido ignorar possíveis submissões que podem vir praticamente de qualquer posição?

 

Em posições como o 50/50 ou suas variações (com nomenclaturas diferentes consoante a escola da nossa preferência), há um constante ataque e defesa estratégicos, em que a capacidade atlética e destreza física passam (ainda mais) para um segundo plano. Os paralelos entre o Xadrez e o Jiu-Jitsu são, na minha opinião, mais evidentes nesta faceta do jogo do que em qualquer outra vertente. “Ignoro o meu Rei aberto e continuo a ofensiva, ou abandono este ataque sacrificando um Bispo para defender?” é um processo mental em tudo semelhante a “Ataco nesta posição desvantajosa para obrigar a defender e não reparar no meu calcanhar exposto, ou exponho ainda mais o calcanhar como isco para tentar a raspagem?”.

“A rotação exercida no tornozelo é amplificada até ao joelho, incorrendo no risco de lesões sérias e desagradáveis ao nível dos ligamentos do último. As chaves de perna devem portanto ser tratadas com a deferência e respeito pelo risco devidas”

 

Apesar de ser uma vertente actualmente bem na moda, sempre houve bons competidores sapateiros, ocasionalmente originários de outras artes marciais e excluídos do Jiu-Jitsu mainstream pelas regras em vigor, desde capítulos dedicados a ashi garami nos manuais de Judo, ao ênfase nas chaves de perna do SAMBO, aos vídeos de auto-defesa do início do século XX (procurem a história de Viking Cronholm), até Ken Shamrock no primeiro torneio do UFC em 1993.

 

Vários são os nomes famosos (ou infames) que favorecem estas submissões, como Dean Lister, Rousimar Palhares, Masakazu Imanari, Reilly Bodycomb, Ryan Hall, e mais recentemente Garry Tonon ou Eddie Cummings. Apesar de mais frequentes em lutas-casadas ou em competições como o ADCC, mesmo jiu jiteiros mais tradicionais, como André Galvão, Cobrinha, ou Mackenzie Dern, não se coíbem de finalizar com uma bela chave de perna quando tal se proporciona.

 

Em MMA, onde havia o dogma de que as chaves de perna expunham o competidor ground and pound, chaves de calcanhar vão sendo usadas já não apenas como uma situação de ocasião, mas sim como base do plano de jogo. Ainda há umas semanas, no combate para decidir o pretendente número 1, parte da estratégia de Rory MacDonald foram as entradas a rolar (Imanari roll) para as pernas de Stephen Thompson.

 

Há riscos associados a este jogo, para o atleta médio? Efectivamente, sim. Tal como com qualquer outra submissão, o objectivo é de fazer o adversário desistir sob risco de lesão. Agravado pelo facto de que na maior parte das chaves de perna, a rotação exercida no tornozelo é amplificada até ao joelho, incorrendo no risco de lesões sérias e desagradáveis ao nível dos ligamentos do último. As chaves de perna devem portanto ser tratadas com a deferência e respeito pelo risco devidas. Posto isto, várias artes marciais de que atrás falámos, como o SAMBO, luta-livre, ou catch-wrestling, treinam chaves de perna desde que há registos, sem apresentar números de lesões nos joelhos significativamente diferentes das do Jiu-Jitsu, de acordo com os (poucos) estudos disponíveis.

 

Assim sendo, faz sentido impedir alunos de faixas mais baixas (especialmente aqueles que competem frequentemente) de experimentar estas posições, tendo em conta que mais cedo ou mais tarde irão enfrentar alguém mais calejado nestas lides? Nao é preferível que a primeira vez que temos de defender uma americana de pé seja num ambiente controlado, na nossa academia, com um parceiro em quem confiamos, do que na primeira competição como faixa castanha, ou no primeiro combate num NAGA ou ADCC?

 

Um exemplo notório disto, foi o desempenho de Ashley Williams no recente EBI7. Tal como nos tinha dito em antecipação à competição, Williams não tem muita experiência em chaves de perna, apesar de as apreciar, devido a treinar maioritariamente sob a alçada de regras IBJJF. E logo no primeiro combate, Williams a conseguiu isolar a perna de Rafael Domingos e trancar uma chave de calcanhar sem a conseguir finalizar, num vídeo infame que virou viral. Com 20.000 dólares em jogo numa transmissão para o mundo todo, um competidor de topo como Williams (faixa preta campeão europeu sem pano) não deveria ser menos do que eficiente numa fracção tão significante do jogo.

 

Seja qual for a opção tomada, porém, é essencial respeitar o parceiro e a competição em que estamos. As regras estão estabelecidas no momento da inscrição e não vão mudar a meio da chave porque um faixa azul quer mesmo poder fazer chaves de joelho. O parceiro que não está confortável nestas chaves não vai também ficar à vontade nelas nos 15 segundos entre emparelharmos e batermos a mão. E, mais importante ainda, é lembrarmos-nos que esse mesmo parceiro é o motivo pelo qual vamos conseguir treinar e melhorar nesse dia. Seja qual for livro de regras que seguimos.

 

Diogo Trigo
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