EXCLUSIVO: ENTREVISTA AO PORTUGUÊS CAMPEÃO MUNDIAL DE JIU-JITSU, GUILHERME JARDIM

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Dois anos depois, Guilherme Jardim novamente no lugar mais alto do pódio na Califórnia. Foto: IBJJF

 

Há pouco mais de um mês, um português sagrou-se pela segunda vez no seu historial, Campeão Mundial de Jiu-Jitsu. Um feito inédito, fruto de muito trabalho, dedicação e com algumas lesões pelo caminho, mas que deixa antever um futuro brilhante a mais um jovem atleta luso. Guilherme Jardim conversou um pouco connosco e deixa uma meta ambiciosa para a sua carreira: ‘Ser campeão mundial em todas as faixas!’

 

Mas comecemos pelo princípio, com uma pequena introdução à pessoa e ao atleta.

 

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JiuJitsuPortugal – Quem és tu e como é que descobriste o Jiu-Jitsu?

 

Guilherme Themudo Jardim - Tenho 21 anos e sou estudante de Microbiologia na Universidade Católica Portuguesa. Descobri o Jiu-Jitsu através de dois amigos que estudavam comigo e que começaram a praticar, há mais ou menos 7 anos, um deles é bem conhecido cá em Portugal, é o Paquito. E o outro foi o que levou o Paquito para o Jiu-Jitsu e que se chama Miguel Gouveia. Mas não comecei a treinar mal soube. Só comecei há mais ou menos três anos e meio quando fui para a academia Workout para fazer musculação e o Manoel mais ou menos me “obrigou” a começar (risos). Eu antes de ir fazer musculação ia sempre lanchar para o banco ao lado do tatame e o Manoel estava sempre a dizer para eu ir experimentar mas eu nunca ia. Até que um dia veio falar comigo mais sério, mas na brincadeira, a dizer que eu se não aparecesse no dia a seguir para treinar Jiu-Jitsu me ia expulsar da academia. Foi aí que fui.

 

JJP – E qual foi a tua primeira impressão do Jiu-Jitsu?

 

GJ - Antes de treinar, não gostava. Dizia que era uma seca, sempre no chão. Mas mal fiz o primeiro treino… Adorei. E como já conhecia o Paquito e o André Schulze há alguns anos e eles já treinavam lá, foi fácil começar.

 

JJP – Com um passado ligado ao desporto e pertencendo a uma equipa com um vasto palmarés e uma forte tradição competitiva, a transição de praticante para atleta deu-se naturalmente. E a passagem para a competição? Como se deu? Quiseste apenas testar-te para ver como era, ou tinhas intenção de competir desde o começo?

 

GJ - Eu sempre fiz desporto a minha vida toda por isso tive logo interesse pela competição. Eu comecei o Jiu-Jitsu em Dezembro e em Janeiro houve, como há todos os anos, o Europeu em Lisboa e eu fui ver. Fiquei logo a querer competir e comecei a treinar logo 2x por dia para ir. E em Março desse ano fui competir ao Campeonato Português

 

JJP – Que desportos praticaste antes do Jiu-Jitsu? Como foram os primeiros campeonatos?

 

GJ - Joguei rugby durante 11 anos e fiz vela e ténis. Ganhei o campeonato Português e depois fui ao Lisboa Open que também ganhei.

 

JJP – Muitos atletas encontram dificuldades nos primeiros campeonatos, mas tiveste bastantes sucessos logo no começo. A que atribuis isso? Sentes que o rugby te deu uma boa base para seres o atleta que és hoje?

 

GJ - Acho que consegui ter logo sucesso nas competições porque sempre fui confiante para os campeonatos. Que ninguém tinha treinado mais que eu. O rugby deu-me uma boa base psicológica para o Jiu-Jitsu. Só quando sai do rugby é que percebi isso. Há muitos aspectos do rugby que moldam uma pessoa e a tornam confiante e forte de cabeça. Há uma frase que o capitão dizia quase sempre antes dos jogos e que eu levo sempre na minha cabeça antes de lutar, que é: “Quanto maior, maior a queda!” E vou adaptando isso nas diferentes situações em que me vou encontrando em competição

 

JJP – O sucesso internacional surgiu rapidamente, com um 3º lugar no Europeu e a vitória no Mundial. Muitos atletas têm sucesso na branca e depois desaparecem um pouco do mapa, pelas mais variadas razões. Tu não desapareceste do mapa. O que te fez continuar a ambicionar títulos?

 

GJ - Acho que foi só uma continuação do que andava a fazer. Treinar bastante e os resultados vêm através do “trabalho de casa” feito. E a minha equipa é bastante direccionada á competição por isso nunca perdi a motivação.

 

JJP – Sempre que se pergunta ‘o segredo’ do sucesso de alguém, a resposta é sempre ‘trabalho!’. Sem dúvida que o trabalho é importante, mas o que é que diferencia o Team Manoel Neto e os seus atletas das outras equipas?

 

GJ - Acho que o que diferencia é o nosso treino, temos vários atletas muito bons, mais as condições de treino que nós temos na academia Workout. Também o nosso professor, Manoel Neto, procura sempre estar a melhor o nosso nível e a trazer vários atletas de nível Mundial para melhorar o nosso treino.

 

JJP – Quem são as tuas referências, os teus ídolos? Dentro e fora do Jiu-Jitsu.

 

GJ - A minha referência no Jiu-Jitsu é o Paquito. Fora do Jiu-Jitsu, o meu pai e minha mãe pela dedicação que têm a mim e as minhas 2 irmãs.

 

JJP – E atletas internacionais, quem mais gostas de ver? E com quem gostavas de rolar?

 

GJ - Gosto muito do jogo do Preguiça e do Calasans! Já treinei com os dois e admiro-os bastante! Depois de ter treinado com o Preguiça antes do europeu ainda gosto mais do Jiu-Jitsu dele, é o Jiu-Jitsu mais bonito da actualidade! Não tenho mais nenhum rola em especial que gostasse de fazer. Gostava apenas de treinar com os melhores do mundo para ver se o meu Jiu-Jitsu está bem (risos).

 

JJP – A vida de um atleta é de sacrifícios, e é inevitável ficarem algumas marcas no corpo. Passando para um assunto mais sério. As lesões? É o pior do Jiu-Jitsu?

 

GJ - No Jiu-Jitsu dá para continuar a treinar com algumas lesões. No rugby não dá. Só se for uma lesão pequena. Uma pequena amostra do sacrifício: “Desloquei o cotovelo 2 semanas antes do Mundial de branca e o joelho saiu e voltou a entrar no sítio e quando aconteceu isso o músculo da canela levou um puxão tão grande que me deslocou o pé e agora a protusão que me incomoda muito e de vez fico com as pernas pedradas por isso”

 

JJP – Passando para outro campo, o que ambicionas no mundo do jiu-jitsu? Até onde queres chegar?

 

GJ - Quero ser campeão mundial em todas as faixas! E trabalhar com o Jiu-Jitsu. Relacionado à nutrição. Se der como atleta melhor mas é muito difícil.

 

“É muito difícil arranjar alguém de nos apoie, infelizmente o Jiu-Jitsu de competição, a meu ver, é um luxo que nem toda a gente consegue.”

 

JJP – Ser atleta de Jiu-Jitsu é uma actividade que para os atletas, dá mais prejuízo que lucro. Como é que consegues participar num mundial por exemplo?

 

GJ - É verdade. Consegui por ‘Paitrocínio’. Felizmente os meus pais conseguiram pagar a minha ida. E também ganhei algum dinheiro em Abu Dhabi, o que me ajudou bastante este ano. Senão não dava para ir.

 

Os sacrifícios não se limitam às marcas no corpo. É preciso muita ginástica de horários e muito apoio e compreensão dos familiares. Uma agenda preenchida e controlada são as chaves do sucesso.

 

JJP – Como é a tua rotina de atleta? Como encaixas os treinos com os estudos?

 

GJ - Treino 2 a 3x por dia. Depende do cansaço e das aulas. Segundas, quartas e sextas treino Jiu-Jitsu de manhã as 11, e à noite as 20h. Terças e quintas treino às 17h Jiu-Jitsu. E tento fazer preparação 4x por semana antes do treino da noite ou treino da tarde, depende do dia. Nos últimos meses comecei a fazer boxe 2x por semana também, que custama ser depois dos treinos de terça, quinta ou sábado. No sábado treino às 16h. E domingo é para descanso. O resto do meu tempo é para os estudos, família e namorada.

 

JJP – Como mencionaste, tem que haver certamente um grande suporte familiar para conseguires treinar tanto. O que pensa a família que tem um atleta como tu em casa?

 

GJ - (Risos)! Tem de haver e há. Se os estudos tiverem a correr bem gostam e apoiam muito! Quando não corre… tem de correr! Mas gostam muito e ficam bastante orgulhosos quando ganho

 

JJP – Assistem aos campeonatos? A mãe não fica com o coração nas mãos?

 

GJ - Foram 2x quando era faixa branca mas desde lá nunca mais foram porque nunca são no Porto. E quando houve no Porto não estavam no Porto… Mas quando há transmissão assistem quase sempre! Até os meus avós gostam que eu mostre as lutas apesar de não perceberem nada! O meu padrinho é que gosta e fica sempre a acompanhar online tudo!

 

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‘Quero ser campeão mundial em todas as faixas!’ Já só faltam 3, Guilherme. Foto: divulgação

 

Passemos para a parte mais acesa da arte suave, o enfrentar de um adversário, com quem temos mais ou menos afinidade fora do tatame. Guilherme encara as rivalidades com naturalidade e considera-as parte da competição. Mas não é motivo para grandes problemas.

 

JJP – Rivalidades no Jiu-Jitsu. O que pensas delas? Tens uma ou outra mais acesa, não?

 

GJ - Há sempre rivalidades quando se lutas várias vezes contra a mesma pessoa. Mas competição é uma coisa, fora do tatame é outra. Tenho uma boa relação com vários atletas fora do tatame, mas com outros só temos contacto nas competições.

 

JJP – Melhor e pior momento no Jiu-Jitsu?

 

GJ – O melhor foi agora quando ganhei o Mundial. Pior foi quando perdi a final do World Pro. Houve umas decisões do árbitro que me prejudicaram bastante e isso deixou-me bastante triste e irritado.

 

JJP – E para terminar, queres deixar alguma mensagem para os patrocinadores e apoiantes?

 

GJ - Sim, para mim os patrocínios são fundamentais para o desenvolvimento de um competidor. Ajuda a promover o atleta, assim como a marca que o patrocina, e ajudam a suportar os elevados custos do Jiu-Jitsu de competição. Apesar de ser muito difícil arranjar patrocínios pois temos de nos esforçar muito para conseguir que alguém aposte em nós. Cá em Portugal é ainda mais difícil. É muito difícil arranjar alguém de nos apoie, infelizmente o Jiu-Jitsu de competição, a meu ver, é um luxo que nem toda a gente consegue. Felizmente tenho alguns patrocinadores que me apoiam, com a Conquer Fight Store, The Ugly Ones, Pro One Mouthguards assim como a minha academia, Academia Workout e Barra Norte Crossfit.

 

Por Hugo Miranda