A ANÁLISE AO ‘EDDIE BRAVO INVITATIONAL 7’ POR DIOGO TRIGO

Eddie Cummings submete Mike Davila com um ‘mata-leão’. Foto: Blanca Marisa Garcia

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EBI 7 – Eddie Cummings não caça só pernas

 

Eddie Cummings revalidou na sétima edição do Eddie Bravo Invitational o cinturão de peso pena, na madrugada de sábado para domingo. Um evento gerido de uma forma profissional, que ao ser transmitido para o mundo todo na plataforma Fight Pass da UFC, o Orpheum Theatre em LA viu Bruce Buffer a apresentar um torneio com 16 dos melhores atletas de submissão do mundo, com duas substituições de última hora que em nada mancharam o torneio. O resultado final deixou-nos com uma sensação mista entre evento desportivo profissional, espetáculo visual, videojogo de luta e ópera dramática, com toques de novela mexicana pelo meio.

 

Oitavos de final

 

Ao primeiro combate, a primeira surpresa: não, Eddie Cummings não perdeu, mas finalizou com algo que não a chave de calcanhar. Sergio Hernandez, ciente do perigo do jogo de pernas do Wolverine, tentou ao maximo manter as pernas afastadas de Cummings. De pouco lhe adiantou, porém, já que este mostrou ser efectivamente um competidor bem completo e o terminou das costas, com um mata-leão/cervical.

 

No segundo combate, Chad George bateu o substituto de última hora, e veteran do EBI, Geoff Real. Esta vitória veio não por submissão, mas por fuga mais rápida no tempo suplementar. Viria a ser primeira e única vez na noite que um combate não teve finalização.

 

Ao terceiro combate, regressámos às submissões regulamentares. O brasileiro João Marinho caiu por chave de calcanhar para Mike Davila em menos de 5 minutos e o veterano Baret Yoshida apanhou as costas de Alex Ecklin e terminou por mata-leão em 2 minutos.

 

Do outro lado das meias finais, Bill “The Grill” Cooper precisou de tempo suplementar para apanhar o substituto de última hora Ian Sanders num mata-leão.

 

No combate seguinte, o azar bateu à porta de Denny Prokopos. Prokopos até conseguiu derrotar José Gutierrez por mata-leão no tempo suplementar, após 10 minutos muito físicos, num combate em que teve o até então árbitro Eddie Bravo a apoiá-lo, mas uma lesão na costela (semelhante ao que tinha acontecido no EBI5 ao seu companheiro de treino Kim Terra) impediu-o de continuar em jogo, dando a Gutierrez uma segunda vida inesperada.

 

Num combate em que esteve à defesa, mas sem nunca estar em perigo, Rafael Domingos conseguiu derrotar também por mata-leão no tempo suplementar o galês Ashley Williams. Apesar de ter tido bons momentos e ter estado na ofensiva na maior parte do combate, Williams acabou por ser traído talvez pela sua inexperiência nas chaves de perna que nos tinha confidenciado, já que teve uma chave de calcanhar trancada durante largos minutos que foi incapaz de finalizar.

 

No último combate desta ronda Geo Martinez derrotou Mikey Main por chave de calcanhar no último minuto do tempo regulamentar.

 

Quartos de final

 

Nos primeiro combate, retomámos a normalidade, com Eddie Cummings a apanhar Chad George com uma chave de calcanhar, numa exibição perfeita do seu plano de jogo:  senta na guarda de ganchos, apanha uma perna, e finaliza no heelhook. Tudo isto em vinte segundos, na submissão mais rápida da noite.

 

Diametralmente oposto foi Mike Davila, que precisou de ir ao tempo extra para apanhar Baret Yoshida por armlock.

 

Bill Cooper apanhou o repescado José Gutierrez numa chave de calcanhar em 3 minutos. Num entusiasmante combate, Geo Martinez derrotou o extremamente físico Rafael Domingos com uma sequência interessante de guarda de borracha->kimura-> triângulo da montada, com que finalizou mais uma vez no último minuto do tempo regulamentar. O duríssimo Domingos resistiu até à última e bateu mesmo apenas quando não dava mais, tendo precisado de uns momentos para se recompor no fim do combate antes de abandonar o tapete.

 

Meias finais

 

Primeira meia final: a Guerra civil. Mike Davila, que por querer participar no EBI terá abandonado/sido convidado a sair da equipa Renzo Gracie, fazendo parte agora da equipa de Marcelo Garcia, lutou com Eddie Cummings por um lugar na final. Não sabemos até que ponto se terão os dois cruzado nos tapetes da RGA, mas o facto é que Davila tentou ao máximo esconder as pernas de Cummings, tal como Hernandez tinha feito nos oitavos de final. E tal como fez com Hernandez ,  Cummings tomou-lhe as costas, demonstrou um mesmo tipo de controlo que já membros do Danaher Dead Squad (Garry Tonon e Gordon Ryan) tinham mostrado recentemente, usando um ganchos para isolar um dos braços, finalizando o mata-leão em menos de 3 minutos. Depois do sistema de chaves de perna de John Danaher, estaremos a assistir à apresentação do seu sistema de controlo de costas? John Danaher esse que, no canto de Cummings, se terá recusado a apertar a mão a Davila após o combate.

 

Segunda meia final: a guerra legal. Num dos combates da noite, Bill Cooper derrotou Geo Martinez, que vendeu cara a sua pele. Ao fim de 10 minutos alucinantes e entusiasmantes, em que Martinez terminou mais uma vez o último minutos com um triângulo trancado que desta feita não conseguiu finalizar, o tempo extra correu a favor de Cooper. Sem finalização na primeira ronda de tempo extra, houve momentos de indecisão do árbitro alternativo Vitor Davilla, que já em edições anteriores teve momentos de insegurança com consequências graves. Das costas de Martinez, Cooper tinha transitado para um não muito apertado um triângulo de mão. Martinez defendeu que devia contar como fuga, o árbitro mandou levantar, Cooper protestou, o árbitro hesitou, houve momentos de incerteza, e teve de ser Eddie Bravo (que estava mais uma vez no canto de Martinez, seu aluno), a tomar outra vez conta do evento e a decidir continuar a ronda com um triângulo de mão enfiado (que Cooper obviamente acabou por trancar mais). A fuga de Martinez nesta situação ajudou apenas à sua exaustão, a que se juntavam a diferença de tamanhos, e apenas adiou o inevitável, com Cooper a trancar um armlock em apenas 5 segundos na ronda seguinte e a carimbar a passagem para a final.

 

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Desenrolar das lutas até se chegar aos finalistas. Foto: Divulgação

 

Final

 

Após quase 4 horas de torneio, a final foi ligeiramente anti-climática. Tal como tínhamos já assistido anteriormente, Eddie Cummings fez o seu jogo. Apanhou uma perna, rolou, emaranhou a segunda, e com um heelhook em menos de dois minutos conseguiu a quarta submissão noutros tantos combates, para valer mais um belo cinturão, e uns não menos belos 20.000 dólares. É o segundo cinturão para Cummings. O treinador John Danaher vê assim o seu esquadrão da morte a limpar todos os EBIs em que participou, com 6 vitórias em 6.

 

Como resumiu Bruce Buffer “Declaring your winner, and still EBI feather weight champion, Eddie “Wolverine” Cummings!”

 

Super lutas

 

Nesta edição do torneio regressámos ao formato de ter 3 lutas casadas entre cada ronda do torneio. Desta feita as estrelas selecionadas foram 6 adolescentes mortíferas, servindo estas lutas como amuse bouche para o EBI8, o torneio feminino, que aponta para incluir as 16 melhores lutadoras com menos de 16 anos.

 

Na primeira luta, a veterana do EBI Cora Sek, que esteve à defesa durante grande parte do combate, conseguiu apanhar Zoey Chiles por armlock no tempo suplementar. Este foi a terceira vez que as duas se defrontaram, com 1-1 nos embates anteriores. Essas experiências anteriores terão contribuído para a intensidade do combate, onde até murros e heelhooks “acidentais” houve.

 

Na segunda luta Danielle Garcia esteve não só à defesa, mas a sofrer verdadeiros momentos de aflição, com Jasmine Johnson a controlar o assalto, a posição e a dinâmica de combate. Infelizmente para Johnson, foi incapaz de capitalizar estes controlos, e no tempo extra foi Garcia que saiu vencedora por mata-leão.

 

No derradeiro combate, Grace Gundrum, mais uma vez a marcar presença antes da final de um EBI, mostrou perante a estrela dos irmãos Mendes,  Janelle Tkaczuk, que continua a não brincar em serviço. A jovem do 10th Planet precisou de 7 minutos dos 10 minutos regulamentares, que controlou enfaticamente, transitando de montada para o truck para costas para spiderweb, e com uma cadeia perfeita de submissões, de mata-leão para triângulo e por fim para um armlock, com que acabou por finalizar a atleta do AOJ. Ao quarto combate, a Silent Assassin consegue a sua quarta submissão em tempo regulamentar, e confirma o porquê de ser não só uma das novas promessas do desporto, mas uma das atletas mais entusiasmantes da modalidade.

 

Diogo Trigo
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