ENTREVISTA EXCLUSIVA COM KENYA GRACIE, PRESIDENTE DA MAIS ANTIGA FEDERAÇÃO DE JIU-JITSU DO MUNDO

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Kenya Gracie no seu local de trabalho, onde em pleno ‘coração’ carioca, comanda os destinos da mais antiga Federação de Jiu-Jitsu do planeta. Foto: JJP

 

 

Neta do criador do Jiu-Jitsu Carlos Gracie Sr, filha do actual patriarca da família Gracie, Robson Gracie e irmã de Ryan e Renzo, Kenya Gracie já carrega sobre si, o peso da herança do apelido da mais famosa família das artes marciais. Para além disso, é ainda a única mulher no mundo a presidir a uma federação de Jiu-Jitsu. E não falamos de uma qualquer federação; criada pelo GM Hélio Gracie, esta é a mais antiga entidade do mundo, estruturada para organizar o Jiu-Jitsu: a Federação de Jiu-Jitsu do Estado do Rio de Janeiro (FJJERJ).

 

Em Março passado tivemos a honra de ser recebidos na sede da mítica federação para uma entrevista exclusiva com a sua presidente, Kenya Gracie.

 

JiuJitsuPortugal – Como encontrou a federação quando assumiu a função de presidência e como é a gestão da mesma?
Kenya Gracie – Estou à frente da federação desde 2008, mas sempre acompanhei a evolução do Jiu-Jitsu. Este desporto cresceu muito, espalhou-se por todo o lado, tanto no Brasil como no mundo. E eu aqui na federação, testemunhei o crescimento no número de atletas, de eventos e de faixas-pretas.

 

“Se no passado, o Jiu-Jitsu era mal visto por causa das brigas, hoje ser faixa-preta e professor é ser reconhecido e respeitado profissionalmente.”

 

JJP –Tem visto o Jiu-Jitsu a crescer de uma forma sustentável?
KG – Sim! Por exemplo, em 2008 inscreviam-se num evento organizado pela nossa federação perto de 800 atletas. Actualmente inscrevem-se mais de 2000! Também o número de professores que se formaram triplicou. Mas também os faixas-brancas que são o futuro do nosso desporto, cresceram exponencialmente. E também são muitas as crianças a inscreverem-se nos nossos torneios. Actualmente muita gente vive do Jiu-Jitsu. E é com satisfação que vejo hoje, o Jiu-Jitsu a criar empregos e a mudar vidas.

 

JJP –Na sua opinião, hoje em dia ser professor de Jiu-Jitsu é uma profissão credível e respeitada?
KG – Sim! É uma profissão muito credível. Se no passado, o Jiu-Jitsu era mal visto por causa das brigas, hoje ser faixa-preta e professor é ser reconhecido e respeitado profissionalmente. Por exemplo, antigamente as mães não queriam inscrever os filhos numa academia. Hoje, são elas que nos procuram para obterem informações sobre academias onde possam colocar os filhos a treinar. Num campeonato de crianças, o pavilhão fica lotado de pais e mães que estão lá para apoiarem os filhos. Os pais vivem o Jiu-Jitsu. É totalmente diferente de um passado recente. E ainda bem!

 

JJP – Sendo a Kenya presidente da mais antiga federação de Jiu-Jitsu do mundo, como vê esta explosão de surgimento de novas federações um pouco por todo o lado? É bom ou mau para o desporto?
KG – Bom, eu não concordo porque torna tudo uma enorme confusão. Até para regulamentar o desporto. O Jiu-Jitsu é único e não adianta criar milhares de novas regras. Tanto para os eventos, como para as graduações. É como o futebol, que tem a FIFA que o regulamenta globalmente. Hoje existem inúmeras federações, cada uma com os seus regulamentos…enfim!

 

JJP – Existem e temos que lidar com isso?
KG – É isso; existem e temos que lidar com esta confusão. Em tudo na nossa vida temos que lidar com coisas erradas e com as quais não concordamos.

 

JJP – Nos últimos tempos, temos visto muitos atletas a reclamarem com a falta de prémios monetários justos, tendo os maiores nomes do Jiu-Jitsu migrado para o MMA. Qual a sua opinião sobre este tema tão quente?
KG - …a nossa federação vive com um orçamento limitado. Muito limitado. Nós não temos nenhum sponsor que nos permita ter uma maior folga financeira. Para pagarmos prémios em dinheiro, precisamos do apoio de uma entidade externa à nossa federação. Mas a partir do momento em que se criam eventos com este tipo de premiação, a filosofia e espírito do desporto pelo desporto acaba, porque o atleta já vai para a competição focado no prémio, o que pode criar no mesmo uma certa agressividade.

 

JJP – Acha que os media tradicionais já dão a devida atenção ao Jiu-Jitsu?
KG – Não, ainda não. Talvez por não ser um desporto olímpico, os media não se interessem pelo Jiu-Jitsu.

 

JJP – Não deixa de ser estranho, um desporto que cresce de uma forma tão rápida pelo mundo inteiro, ainda não ter captado a atenção dos media generalistas?
KG – Exactamente. O Jiu-Jitsu é um desporto que integra, um desporto que nivela, que ajuda a formar as pessoas…acho que é tudo uma questão financeira. O Jiu-Jitsu apesar do seu enorme crescimento por todo o mundo, ainda movimenta pouco dinheiro.

 

JJP – Tem planos para expandir a federação para outros países?
KG – Bom, por enquanto não. Nós somos um órgão oficial do Jiu-Jitsu do estado do Rio de Janeiro. Essa expansão é uma responsabilidade da IBJJF.

 

JJP – Portanto, não querem entrar em competição com a IBJJF?
KG – Certo! A expansão não é o nosso objectivo! Apenas todo o estado do Rio de Janeiro.

 

JJP – E Portugal?
KG - …(risos) Portugal é um país maravilhoso…(risos), se surgir uma oportunidade, quem sabe…nós enviamos muitos certificados para o mundo inteiro, muitos dos professores que vão ensinar para Abu Dhabi passam pela nossa federação para levantarem todos os documentos necessários para se legalizarem. Tudo isto pela tradição, somos a mais antiga federação de Jiu-Jitsu do mundo, mas também pelo nosso trabalho, que os professores reconhecem. O futuro a Deus pertence, mas por enquanto estamos focados no Rio.

 

JJP –Para terminar, como é ser mulher e estar à frente de uma federação de um desporto maioritariamente masculino e ainda por cima, ‘casca-grossas’?
KG –(risos) Não é muito fácil, mas nós fazemos um trabalho tão sério e o mais profissional possível que eles acabaram por acostumar-se a ver uma mulher à frente da FJJERJ. O que interessa é o resultado do trabalho, independentemente de ser feito por uma mulher ou um homem. Se for um bom trabalho, ultrapassa todos os preconceitos.

 

Por Paulo Santos e Luiz Dias