ENTREVISTA COM GM ROBSON GRACIE: “TODOS SOMOS RESPONSÁVEIS PELA ARTE QUE O MEU PAI DEU A CONHECER AO MUNDO”

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GM Robson Gracie recebeu a nossa equipa na sede da mais antiga Federação de Jiu-Jitsu do mundo. Foto: JJP

 

Robson Gracie é um Mestre faixa vermelha de Jiu Jitsu (9º grau), filho do fundador do ‘Gracie Jiu Jitsu’, Carlos Gracie. Foi também instrutor na famosa Academia Gracie da década de 1950 junto com outras figuras importantes como Carlson Gracie ou João Alberto Barreto. Robson defendeu o nome da família Gracie no ‘vale-tudo’ durante o final da década de 50, sendo também o pai de personalidades famosas da arte suave como Ryan, Ralph e Renzo Gracie, além de ser o presidente honorário da Federação de Jiu- Jitsu do Rio de Janeiro (FJJERJ).

 

Numa longa conversa aberta com o nosso site, o Grão Mestre Robson Gracie falou da família, da relação com o seu tio Hélio (tanta tinta tem feito correr as relações entre os dois lados da famosa família) e até mesmo do actual momento politico de Brasil.

 

Fica com a entrevista com um dos mais carismáticos e divertidos membros da famosa família Gracie!

 

 

JIUJITSUPORTUGAL – Quando o Mestre começou no Jiu-Jitsu?

ROBSON GRACIE – Na minha família não tinha escolha. Aos 4 anos já pisava no tatame juntamente com o meu pai Carlos e o meu tio Hélio.

 

JJP –Quais as lembranças que tem do seu pai Carlos Gracie, o criador do Jiu-Jitsu brasileiro?

RG – O meu pai era uma pessoa muito especial. Um grande lutador, um profundo estudioso, criador não só do Jiu-Jitsu, mas também da dieta Gracie. Era um homem também muito místico. Foi um homem pouco dado ao protagonismo, dando ao meu tio Hélio e seu irmão esse papel. Ele sempre procurou actuar mais no campo do estudo, mas sem nunca deixar de praticar Jiu-Jitsu e orientando a família. Ele foi o farol de todos nós.

 

JJP – E com o seu tio Hélio? Como era a vossa relação?

RG – O meu tio era um homem muito dedicado ao Jiu-Jitsu. Totalmente dedicado ao Jiu-Jitsu. Um guerreiro e um apaixonado pela Arte Suave! Corajoso como um Samurai.

 

“Eu pequeno como sou, nunca tive medo de enfrentar adversários com o dobro do meu tamanho e peso. O Jiu-Jitsu dava-me essa confiança

 

JJP – Quais as diferenças do Jiu-Jitsu do seu tempo para a actualidade?

RG – No meu tempo o Jiu-Jitsu era orientado para a finalização, uma verdadeira arte marcial. Os tempos eram outros, em que precisávamos de finalizar devido aos muitos desafios que nos proponham. De brigas duras, muitas à porta fechada. Mas compreendo que o Jiu-Jitsu tenha que seguir o seu caminho e evolua para o que existe hoje.

 

JJP – Como era a sua preparação para as lutas de Vale-Tudo?

RG – Os treinos na academia eram muito intensos, tanto física como mentalmente! Ficávamos preparados para qualquer adversário de qualquer modalidade. Eu pequeno como sou, nunca tive medo de enfrentar adversários com o dobro do meu tamanho e peso. O Jiu-Jitsu dava-me essa confiança e a capacidade de nivelar um atleta franzino que fosse lutar com um gigante.

 

JJP – Na sua época de lutador quais os lutadores de que modalidades o Mestre mais enfrentou?

RG – Eu enfrentava qualquer lutador que aparecesse, desde os capoeiristas aos boxeurs. Sendo que os capoeiristas eram os davam mais trabalho! Muito malandros (risos).

 

JJP – O Mestre pode contar-nos como foi aquele (famoso) episódio em que disse que se o retirassem do ringue após um feroz vale-tudo, se punha nu no meio do mesmo?

RG – De facto a história está mal contada. Bom, o que se passou foi que a luta contra Valdo Santana (irmão de Waldemar Santana que lutou com Hélio e Carlson), levei um soco tão forte que senti um dos meus dentes a desprender-se da gengiva…estava a ser terrível. Uma verdadeira batalha. Bati muito, mas também apanhei muito (risos). Na altura valia quase tudo e não existiam nem luvas, nem as protecções aos atletas que hoje existem. Eram verdadeiras batalhas! O meu pai (Carlos Gracie Sr) preocupado, a certa altura ameaçou que atirava a toalha para o ringue (interrupção do combate). Aí ameacei, não que me despia, mas sim que ‘mijava’ mesmo no meio do ringue (risos). Vendo que eu estava mesmo disposto a fazê-lo, o meu pai deixou o combate continuar, acabando empatado.

 

JJP – O Mestre foi presidente durante muitos anos da mais antiga federação de Jiu-Jitsu do mundo (Federação de Jiu-Jitsu do Estado do Rio de janeiro). Na época em que o Mestre era presidente da federação como era o seu trabalho?

RG – Era muito cansativo, desde o trabalho de organizar campeonatos, à difícil tarefa de negar graduações antes do tempo correcto. Cheguei a recusar graus a pessoas muito próximas. Muito próximas mesmo. Mas sempre tive uma postura de igualdade para todos e de actuar na federação segundo as regras desta. Foram tempos de muita luta para dar ao Jiu-Jitsu o reconhecimento devido. Hoje poucos dão valor ao nosso trabalho da época. Se hoje existem outras federações e um Jiu-Jitsu com campeonatos e organizado, deve-se ao trabalho da nossa equipa da altura.

 

JJP – Como se sente sendo o patriarca da família?

RG – Com responsabilidade e muito orgulho. Mas não mais que qualquer outro membro da família. Ou mesmo um qualquer outro praticante da modalidade. Todos somos responsáveis pela boa divulgação da Arte que o meu pai deu a conhecer ao mundo.

 

 

JJP – Quer deixar uma mensagem final para os nossos leitores?

RG – Quero agradecer a oportunidade desta entrevista. Não sou um homem de aparecer muito e de dar entrevistas, mas sei de antemão que o vosso site tem procurado saber mais sobre a história do Jiu-Jitsu e os Grão Mestres ainda em actividade. Acompanhei as vossas entrevistas ao meu irmão Reyson, a Alvaro Barreto ou Leoni Nascimento, todos eles faixas-vermelhas e figuras ímpares do nosso desporto. Estão de parabéns por registarem a história daqueles que deram origem a este fenómeno que se chama Jiu-Jitsu.

 

Por Paulo Santos e Luiz Dias – Rio de Janeiro