‘SÃO AS TÉCNICAS DE DEFESA PESSOAL EM PÉ DO JIU-JITSU EFICIENTES?’, POR MAURO FROTA

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A memória muscular e o treino das Artes Marciais – serão as técnicas de Defesa Pessoal em pé, praticadas no Jiu Jitsu, realmente eficientes?

 

É quase meia noite. Regressas a casa depois de um extenuante dia de trabalho. Estás numa rua por onde passas todos os dias, mas hoje a iluminação pública não está a funcionar. A rua está escura, muito mais do que o habitual, mas não dás muita atenção e continuas em frente. Ouves passos apressados atrás de ti. Tentas virar-te para trás, mas neste preciso momento alguém te agarra pelas costas. Imediatamente e sem pensar, reages. Uma projeção de anca e o teu atacante está no chão à tua frente, em agonia por ter batido com as costas no chão. Pelo canto do olho repararas no brilho metálico de uma faca que se esconde no seu bolso. Estás perto de casa e corres para a segurança. As horas e horas de drills de defesa pessoal que fizeste nos treinos de Jiu Jitsu acabaram de te salvar a vida…

 

A memória muscular, responsável pelo sucesso da nossa estória, é desenvolvida quando um movimento é repetido vezes e vezes sem conta, até acontecer sem a necessidade de esforço consciente. Quando inicialmente aprendemos um novo movimento – seja andar de bicicleta, tocar piano ou aprender Jiu Jitsu – o movimento é lento e necessita da presença da consciência. Com o tempo e a repetição, torna-se automático, rápido, e independente de esforço consciente. Nesta fase o novo movimento ou ação fica armazenado no cerebelo, região do cérebro responsável pela aprendizagem motora. A partir deste momento a memória muscular toma conta de nós e já não necessitamos pensar – processo mais lento – apenas reagimos automaticamente.

 

Mas será esta memória muscular de reação imediata suficiente para sobrevivermos a todos os cenários de violência urbana? Bem, talvez não!

 

Depois de quase três décadas de estudo e treino de Artes Marciais, com experiência e treino em diferentes sistemas oriundos de todo o globo, noto que muitos sistemas param o seu treino nesta fase inicial – a da memória muscular a que vamos chamar de “primeira linha de defesa”. A maioria dos sistemas de Defesa Pessoal, então, raramente passam deste estágio.

 

Vamos agora analisar um “rola” de Jiu Jitsu típico: tento aplicar um armlock na guarda, o meu parceiro reage e defende. Consegue passar a minha guarda. Eu reajo e consigo repor a guarda, e por aí fora. Passamos por situações destas todos os dias em que treinamos.

 

Em que é que este cenário difere do primeiro? Bom, aqui o parceiro de treino (ou o atacante na rua escura) reage à nossa tentativa inicial, seja ela qual for, e somos obrigados a continuar a lutar. Passamos então ao que vamos chamar de memória muscular de “segunda linha de defesa”, desenvolvida quando temos oposição e resistência à aplicação das técnicas.

 

Será que todos os drills do mundo, sem nunca termos experimentado oposição por parte dos nossos parceiros de treino, conseguem realmente desenvolver este tipo de memória muscular? A resposta é bastante simples: NÃO! Apenas conseguimos desenvolver a memória muscular para transitar de uma técnica para outra de forma rápida e automática se treinarmos este contexto específico, sobre pressão, vezes e vezes sem conta. Este é, aliás, um dos segredos do Jiu Jitsu – o treino de “rola”, em que tentamos aplicar as técnicas que aprendemos contra alguém que resiste e luta de volta.

 

Mas se sabemos que isto é verdade e esta memória muscular de “segunda linha de defesa” é assim tão importante, porque é que a maioria das escolas de Jiu Jitsu, no trabalho de defesa pessoal em pé, insistem em utilizar apenas a metodologia antiga, oriunda do Ju Jutsu japonês, em que as técnicas são apenas praticadas sem oposição? Pessoalmente parece-me um paradoxo que só posso explicar pela falta de compreensão da fisiologia humana e da metodologia de treino.

 

Voltemos ao nosso cenário inicial: desta vez o nosso assaltante consegue escapar à tentativa inicial de projeção. Irritado, pega na faca que trazia consigo e com toda a sua força, ataca… será que os drills de defesa pessoal das nossas aulas de Jiu Jitsu nos prepararam convenientemente para este desenrolar de acontecimentos?

 

Por Mauro Frota