DUELOS HISTÓRICOS: HÉLIO GRACIE VS MASAHIKO KIMURA

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A 23 de Outubro de 1951, a luta entre Hélio Gracie e o japonês Masahiko Kimura acontecia em plena relva do mítico estádio do Maracanã, onde 40 000 ‘torcedores’ assistiram ao combate, num Rio de Janeiro paralisado por tão grande evento.

 

Após desafiar diversos expoentes das lutas de todo o mundo – e não tendo recebido praticamente nenhuma resposta positiva – Hélio Gracie teve a oportunidade de desafiar para uma luta de Jiu-Jitsu alguns dos maiores nomes da arte marcial japonesa da época. De visita ao Brasil em Julho de 1951 para demonstrações de judo e Jiu-Jitsu, chegaram ao Rio de Janeiro Toshio Yamagushi, Jukio Kato e o lendário Masahiko Kimura.

 

Depois de serem apresentados e tirarem fotos, Hélio e Carlos Gracie receberam dos japoneses a proposta de uma luta entre Hélio e Kato. Hélio pediu para enfrentar Kimura, que negou o pedido, dizendo não ver no brasileiro um adversário à sua altura. Em seguida, ofereceu uma luta contra Kato, que pesava apenas oito quilos a mais que Hélio – Kimura era cerca de 35 quilos mais pesado.

 

A luta contra Kimura foi uma das mais emblemáticas, se não a mais emblemática da vida de Hélio Gracie. A derrota foi transformada em vitória moral, por ter enfrentado o invencível, e ter resistido ao impossível.

 

– Se eu vencer Hélio, dirão que foi pela diferença de peso. Como estou certo da vitória de Kato, acho melhor que assim seja – disse o japonês, que estava invicto nos seus 15 anos de carreira como atleta. Dias antes da luta, Kato afirmou que venceria Hélio em segundos, e no chão. O brasileiro respondeu que o judo era apenas uma luta de exibição, sem efeito prático.

 

Em duas lutas contra Kato, Hélio empatou a primeira, no Maracanã (6 de setembro), e venceu a segunda, no Pacaembu (29 de setembro), finalizando o rival e deixando-o desacordado. Vendo a derrota de seu companheiro, Kimura não teve outra alternativa a não ser desafiar Hélio Gracie no centro da relva do estádio. O desafio foi aceite e agendado para o dia 23 de Outubro de 1951.

 

O clima para o combate era menos amistoso que o das lutas anteriores. Kimura, seguro de que venceria rapidamente, declarou que, se a luta demorasse mais que três minutos, Hélio Gracie poderia ser considerado o vencedor. O brasileiro, por sua vez, dizia que encerraria sua carreira como lutador naquele dia, fosse qual fosse o resultado, e reagia com energia aos que diziam ser suicídio um homem de 38 anos de idade, voltando da aposentadoria, enfrentar o maior nome do Japão em todos os tempos.

 

- Um lutador nunca foge da arena. Kimura pode quebrar meus ossos, mas não vai quebrar minha moral. A um bom desportista não importa ganhar ou perder, mas lutar.

 

Chuva e atrasos quase impedem o confronto

 

No dia 23 de Outubro, uma terça-feira, a cidade do Rio de Janeiro estava elétrica. O espectáculo levou dezenas de milhares de pessoas ao Maracanã, que contou com a presença do vice-presidente da república Café Filho, que fez questão de pessoalmente desejar boa sorte a Hélio Gracie. Carlos, irmão mais velho e mentor de Hélio, mostrava-se nervoso e ameaçava impugnar o árbitro escolhido para a luta, sendo necessária a intervenção do comandante da Polícia Especial, Eusébio de Queiroz, para que Carlos Pereira fosse mantido como o mediador da luta.

 

Com mais de 1h30m de atraso, após diversas lutas preliminares, Masahiko Kimura finalmente subiu ao ringue montado na relva do Maracanã, sendo vaiado pelos brasileiros e aplaudido pela colónia japonesa que morava no Rio de Janeiro e também pelos que vieram de São Paulo para prestigiar o campeão mundial. Dez minutos depois, Hélio Gracie apresentou-se para a luta debaixo de aplausos e flashes dos fotógrafos que se amontoavam ao redor da área de luta. Lado a lado, os dois lutadores deixavam evidente a disparidade física existente, e ficou claro que dificilmente o brasileiro sairia vitorioso da luta.

 

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Kimura vence, mas após quinze minutos

 

Disposto a cumprir a promessa de vencer Hélio Gracie em menos de três minutos, Kimura iniciou o combate indo para cima do brasileiro. Por cima no chão, Kimura tentava finalizar a luta de todas as formas, mas Hélio se esquivava e utilizava sua famosa guarda para impedir que o japonês o ameaçasse. Passados os três minutos previstos por Kimura, a torcida japonesa já não sorria tanto, e o próprio lutador mostrava cada vez mais empenho em vencer a luta o quanto antes. Mesmo passando a guarda de Hélio e montando sobre o brasileiro, Kimura não conseguiu a finalização nos dez minutos do primeiro round. Na ida para os seus ‘cantos’, o sorriso de Hélio contrastava com a falta de expressão do japonês.

 

Kimura começou o segundo round derrubando Hélio, e repetiu a queda aos cinco minutos de luta. A violência da queda fez Hélio perder a consciência, não recobrando-a a tempo de impedir uma chave de braço indefensável do japonês – que depois seria batizada com o seu nome. Com o golpe encaixado e sem qualquer possibilidade de desvencilhar-se, Hélio se recusava a bater. Percebendo que o irmão teria o braço fraturado e conhecendo a sua fibra, que o impedia de desistir do combate, Carlos Gracie invadiu o tablado e bateu no chão três vezes, encerrando a luta.

 

Kimura a princípio não entendeu o que havia acontecido, e reclamava com o juiz, provavelmente imaginando que havia sido dada alguma vantagem a Hélio ou que o round havia sido prematuramente encerrado antes que o rival desistisse. Hélio, que se manteve no chão por alguns minutos, levantou-se e estendeu a mão ao japonês, que recusou-se a apertá-la. Apenas após ser informado que vencera por desistência do córner adversário, Kimura cumprimentou o brasileiro e posou para fotos ao lado de Hélio.

 

Público decepciona-se e não ovaciona Hélio Gracie

 

A derrota para Masahiko Kimura, que era dada como certa pelos Gracies, mas não pela imprensa e pelo público presente ao Maracanã, acabou não sendo valorizada pelos cerca de 40 mil espectadores, que não reconheceram com aplausos o esforço de Hélio Gracie. O brasileiro foi cumprimentado por autoridades e desportistas presentes, mas não foi ovacionado como esperava pelo público. Em entrevista após a luta, publicada no livro “Carlos Gracie – o criador de uma dinastia”, de Reila Gracie, Hélio explicou o motivo de enfrentar Kimura.

 

- Pouco me importava, como brasileiro, perante 40 mil irmãos, ser vencido por um verdadeiro gigante – gigante no tamanho, na energia e na técnica. Um gigante que de forma alguma me daria a mais leve chance. Isso significava muito para a minha convicção, para o meu cartel e, por que não dizê-lo, para minha vaidade pessoal. Apesar de nitidamente derrotado no ringue, fui reconfortado pela imprensa e pelo público, porque todos haviam compreendido a minha intenção, o meu desejo de provar, com o meu possível massacre, a importância de pelejar sem esperança de vitória.

 

A luta contra Kimura foi uma das mais emblemáticas, se não a mais emblemática da vida de Hélio Gracie. A derrota foi transformada em vitória moral, por ter enfrentado o invencível, e ter resistido ao impossível. Kimura, ao longo da vida, deu inúmeros depoimentos de enaltecimento ao rival, chamando-o sempre de “o homem que nunca desiste”. Há 65 anos, na relva do Maracanã, o Brasil perdeu como em 1950, mas pelas mãos, braços, pernas e pés de Hélio Gracie, deixou a mesma relva, um ano depois, vitorioso.

 

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Por site Combate