DEFESA PESSOAL E JIU-JITSU, POR MAURO FROTA

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Defesa Pessoal e Jiu Jitsu

 

Será o Jiu Jitsu actual, de carácter desportivo, apropriado para defesa pessoal?

 

O tema é, no mínimo, sensível – e um em que, normalmente, as opiniões são extremadas. Ainda assim, querido leitor, não posso deixar de dar a minha visão sobre o assunto, especialmente quando verdadeiras lendas do Jiu Jitsu, como Rickson Gracie, têm regularmente falado em público sobre este assunto.

 

Irei tentar responder a esta questão, vou apresentar em tese alguns pontos para análise e reflexão que me parecem essenciais:

 

Para começar é importante tentar perceber qual a diferença essencial entre o Jiu Jitsu moderno e o Ju Jutsu japonês, seu percursor. Onde cabe o génio de Hélio e Carlos Gracie? Se observarmos atentamente percebemos que praticamente todas as finalizações – quer por controlo das articulações, quer por supressão de ar ou sangue (estrangulamento) – que existem actualmente no Jiu Jitsu moderno, já existiam no Ju Jutsu antigo. Onde está, então, a inovação?

 

Para justificar o meu ponto de vista cito uma frase de Burton Richardson, um famoso aluno de Dan Inosanto (amigo e aluno próximo de Bruce Lee), também ele faixa preta de Jiu Jitsu e treinador de MMA (UFC): “Conhecimento não é poder – a habilidade para aplicar o conhecimento sobre pressão é o verdadeiro poder”. Quer isto dizer que o verdadeiro conhecimento, isto é, a capacidade para aplicar as técnicas que aprendemos contra um oponente que resiste, vem dos rolas, do randori no final da aula. Sem isso, não existiria o Jiu Jitsu como o conhecemos. Não quero parecer demasiado simplista ou redutor.

 

É claro que existem outros atributos para além deste – como o aperfeiçoamento e desenvolvimento de formas originais de guarda e formas originais de chegar à finalização – mas este parece-me essencial para diferenciar o Jiu Jitsu do Ju Jutsu, bem como as Artes Marciais funcionais das outras.

 

Atenção que não pretendo ofender ninguém, muito menos quem pratica Ju Jutsu ou outras Artes Marciais tradicionais (até porque são a minha origem marcial) – que aportam enormes benefícios ao treino – mas o que nos interessa hoje abordar é a funcionalidade em combate. Portanto, o primeiro aspecto a considerar está relacionado com a oposição no treino, em contraste com modalidades em que o parceiro de treino é complacente e nos deixa aplicar as técnicas, sem nunca termos tentado a sua aplicação contra resistência.

 

O segundo ponto da minha tese foi expresso pelo maior Samurai da história – Miyamoto Musashi: “Só conseguimos lutar da forma como treinamos”, dizia ele – e talvez tenha sido esse o segredo para tantas vitórias esmagadoras perante os seus adversários.
Mesmo com oposição – aspecto primordial e central – as regras da competição ditam o que é ou não possível aplicar. E isto altera a forma como treinamos e que hábitos de luta desenvolvemos. Rolar para a posição de tartaruga para que o adversário não receba os pontos da passagem de guarda é sensato em competição, mas desenvolve automatismos que, numa situação de fight or flight, numa luta pela sobrevivência, entram em acção. E expor a nuca e costas numa luta de rua deve ser uma das piores acções a desenvolver.

 

“Dois exemplos recentes, com praticantes de Jiu Jitsu, saltam imediatamente á memória. O primeiro deles aconteceu, se não estou em erro, durante um assalto a um autocarro no Rio de Janeiro. Em vez de tentar controlar a arma do bandido, o atleta tentou aplicar um mata-leão, tendo sido baleado na cabeça.”

 

Não nos devemos esquecer que o Jiu Jitsu de Carlos e Hélio Gracie era desenhado para a rua, e que portanto não estava sujeito às modernas regras da competição nem estava limitado puramente ao grappling. Treinar contra striking e com striking fazia parte do dia-a-dia.

 

O terceiro ponto desta tese refere refere-se à especificidade do treino: além do grappling e do striking, é importante unir os dois primeiros princípios enunciados ao treino nos mais variados cenários – incluindo o treino contra armas. Não nos podemos esquecer da eminente ameaça do terrorismo e da crescente possibilidade de nos vermos numa situação em que o nosso oponente, armado, quer não o nosso dinheiro, mas a nossa vida. E se no primeiro caso o mais sensato é dar o dinheiro, no segundo teremos mesmo que lutar.

 

Dois exemplos recentes, com praticantes de Jiu Jitsu, saltam imediatamente á memória. O primeiro deles aconteceu, se não estou em erro, durante um assalto a um autocarro no Rio de Janeiro. Em vez de tentar controlar a arma do bandido, o atleta tentou aplicar um mata-leão, tendo sido baleado na cabeça. Não treinou especificamente para este cenário e aplicou, por default, o que sabia.

 

O segundo exemplo, mais recente, aconteceu durante o ataque terrorista ao comboio francês – parece que a técnica usada foi a mesma, mas a diferença de circunstâncias ditou um final diferente. Uma arma de assalto, muito maior, é mais difícil de manobrar num espaço apertado, e a existência de outros passageiros que auxiliaram permitiram um final feliz. Mas ainda assim, depois de desarmado da arma de assalto, o terrorista ainda foi buscar mais duas armas escondidas, o que nos leva ao quarto ponto desta tese – a regra “plus one”.

 

A regra “plus one”, mais um, tenta alertar para a única certeza quando lutamos pela vida: a de que não há certezas e de que o cenário pode alterar-se continuamente. “Plus one” significa que, se vemos uma arma, partimos do princípio de que existe pelo menos mais uma. Se vemos um bandido significa que deve existir pelo menos mais um. E com esta regra em mente, alteramos a forma como treinamos – mudando a forma como abordamos cada rola.

 

Eu não treino para competição, e então não me sujeito, nos rolas do dia-a-dia, às suas regras. Prefiro ceder uma passagem de guarda a desenvolver um mau automatismo. Por isso desenvolvi um jogo de guarda (porque se estiver a lutar por cima o striking joga mais a nosso favor), em que controlo o quadril do oponente (para conseguir dar pontapés, se for o caso, pois mantenho uma maior distância entre mim e o oponente, e para ser mais fácil afastar o oponente e levantar-me, no caso de ser mais do que um oponente); e em que controlo continuamente ambos os braços do oponente – evitando assim a surpresa de, no meio da luta, ter que lidar com uma faca ou arma de fogo que, até esse momento, se encontrava escondida.

 

Para mim a guarda-aranha e as suas múltiplas variações foi a opção, depois de muita reflexão, pois responde a todos estes preceitos e posso aplicá-la em todos os treinos, não tendo que sair do formato habitual do treino de Jiu Jitsu para estar a treinar “defesa pessoal”.

 

Face ao exposto, deixo a resposta à questão de abertura deste artigo de opinião a cada um dos leitores, até porque existem vários motivos que levam à prática do Jiu Jitsu, e a defesa pessoal é só mais um. É o meu, mas para outra pessoa pode ser a camaradagem e amizade com os colegas de tatame, as medalhas da competição, a saúde e forma física ou o estilo de vida. E não há nada de errado com cada um destes objectivos…

 

*Mauro tem formação académica nas áreas das Ciências do Desporto, com especializações em Marketing e Gestão e Mestrado na área da retenção de clientes em ginásios.

 

Na área marcial é graduado em 5 modalidades: Karate de Okinawa, Kickboxing/Muay Thai, Artes Marciais Filipinas, KAPAP e, obviamente Jiu-Jitsu, tendo começado em 2000 no Rio de Janeiro (GB na Barra da Tijuca).

 

 

  • marcel

    Irmão, eu costumo ensinar defesa pessoal e taparia para meus alunos. Eu acho que é o mesmo BJJ, só muda o foco. Segue o vídeo de um seminario que dei na região, sobre o tema. Uns alunos que só conheciam o aspecto esportivo, piraram: queriam fazer um seminario aberto pra geral, sobre o tema. Dai eu respondi pra ele que foi tão simples pra ele pq a baiana, kimura, montada, esgana galo e etc, eram os mesmos que ele ja sabia…só mudei o foco do ensino. Eu acho que, se vc tem interesse em inserir o contexto de defesa pessoal na sua aula de BJJ, só precisa mudar o foco uma vez a cada 15 dias. Link: https://www.youtube.com/watch?v=B9m7Gi6KJnA
    P.S. Gravado pelo pai de um aluno, então não espere nada profissional.