MICHELLE NICOLINI: “DÁ PARA MANTER A VAIDADE FEMININA, PRATICANDO UMA ARTE MARCIAL PREDOMINANTEMENTE MASCULINA”

 

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Vila Nova de Gaia recebeu um dos grandes nomes do desporto mundial, colocando o norte do país no mapa do Jiu-Jitsu internacional. Foto: JJP

 

Michelle Nicolini é uma das melhores lutadoras de Jiu-Jitsu feminino de sempre e já viu o seu nome inscrito no “Hall of Fame” da mais importante federação internacional de Jiu-Jitsu, a IBJJF. Tendo no currículo oito campeonatos do mundo, Michelle é apenas ultrapassada por Roger Gracie no número de títulos mundiais. Já conquistou também o Panamericano, o ADCC e o Europeu, sendo uma das mais importantes atletas de sempre da Arte Suave.

 

Aproveitamos a sua passagem pela cidade do Porto para a entrevistar. Michelle revelou-se uma figura naturalmente simpática, bem-humorada e acessível mas com os ‘pés bem assentes na terra’, mostrando que uma das maiores estrelas que o Jiu-Jitsu já viu nascer também é campeã na interacção com os fãs e com a imprensa.

 

JiuJitsuPortugal – Como é que surgiu o Jiu-Jitsu na tua vida?
Michelle Nicolini – No início de 2000, eu fazia capoeira. Mas o meu professor mudou-se para outra cidade e tive que começar a procurar outra actividade desportiva. Aí, um amigo falou-me para experimentar Jiu-Jitsu. Na altura, nem sabia o que isso era. Bom, comecei e fiquei por uns três meses. Pouco depois um amigo que vivia nos Estados Unidos, abriu uma academia na minha cidade, mudei-me para lá e…fiquei viciada no Jiu-Jitsu.

 

JJP – Como foi a experiência na altura de entrar na academia? Eram só homens os praticantes ou já existiam meninas?
MN – Assustei-me um pouco, por ver só homens no tatame. Até convidei uma amiga para vir comigo. No primeiro treino apanhei de todo o mundo, pois não entendia nada de Jiu-Jitsu (risos). Só que gostei (risos)…e fiquei, pois também quis aprender como funcionavam as técnicas que eles faziam.

 

JJP – E nos dias de hoje vês os tatames por esse mundo fora com maior presença de mulheres?
MN – Hoje em dia existe uma grande evolução do Jiu-Jitsu. Há 15 anos atrás uma mulher ao entrar numa academia de Jiu-Jitsu, os homens ficavam a olhar de lado. Uns chegavam a questionar a minha presença ali, o que é muito diferente da actualidade. Hoje em dia, temos várias mulheres no tatame, pelo menos nas academias que visito.

 

JJP – Uma mulher que pratique Jiu-Jitsu perde a sua feminilidade ou não?
MN – Claro que não! Olha para mim: unhas pintadas, maquilhada (risos). Eu sempre faço questão de mostrar que além de ser lutadora, sou mulher. No tatame sou brava, mas fora sou completamente diferente, sou uma mulher perfeitamente normal. Dá para manter a vaidade feminina, mesmo praticando uma arte marcial predominantemente masculina.

 

JJP – Sentes-te uma das pioneiras do Jiu-Jitsu feminino?
MN – Sim! Uma das primeiras desta nova geração de atletas. Sou das primeiras a viajar pelo mundo para participar em campeonatos, seminários, a divulgar e ensinar Jiu-Jitsu. E isto capta sobre mim, muita atenção.

 

JJP – Na tua opinião, as mulheres preferem treinar com outras mulheres, com os homens ou com ambos?
MN – Eu, hoje em dia se pudesse, preferia treinar só com mulheres. Prefiro testar-me com uma parceira de treino com o meu nível técnico, peso e força. Mas infelizmente não existem tantas mulheres que vivam exclusivamente para a competição, de forma a ter parceiras de treino onde quer que eu vá. Tenho as minhas alunas no Brasil e os camps femininos que organizo. Os camps fazem-me muito feliz, pois ver 50 meninas no tatame é fantástico e é óptimo para elas treinarem umas com as outras.

 

JJP – Os homens perdem todo o cavalheirismo no tatame?
MN – Bom…olha, não todos, mas alguns sim. Não gostam de perder para as mulheres (risos). Principalmente os iniciantes. Comigo, eles respeitam-me muito. Talvez devido ao meu nível…não é porque eu sou velha, não (risos). Mas nas minhas viagens, tem sempre um que quer…eu não sei se eles me querem mostrar que são bons ou se me querem testar. Tem sempre um outro que faz mais força ou faz uma ‘maldadezinha’.

 

JJP – Com o vez o futuro do Jiu-Jitsu feminino?
MN – A crescer cada vez mais, principalmente aqui na Europa e nos Estados Unidos. Acho que no Brasil, o Jiu-Jitsu feminino está a ficar para trás. Olha para o europeu que se realiza em Portugal… de 2007 para cá, a presença de atletas femininas teve um boom. Em todo o mundo tens mulheres nos tatames a treinarem Jiu-JItsu. Depois de Portugal vou para o Cairo (Egipto) e depois Jerusalém (Israel) e nos seminários vou ter homens e mulheres presentes.

 

JJP – Esta é a tua segunda vez no médio oriente. Conta-nos como foi a tua experiência numa zona do globo tão tensa e diferente do mundo ocidental.
MN – É muito diferente, principalmente para as mulheres. Mas até nesses lugares, onde as nós mulheres estamos em segundo plano, vais ver em alguns países atletas femininas a dividirem o tatame com homens. É um progresso enorme nas mentalidades e costumes e tudo devido ao Jiu-Jitsu. Por exemplo num seminário que dei na Jordânia, estavam homens e mulheres no mesmo tatame. Ainda não é totalmente liberal, pois em outros países vizinhos separam-nos, mas é um avanço.

 

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Michelle Nicolini, uma super-estrela do Jiu-Jitsu feminino, natural e (muito) bem disposta. Foto: JJP

 

JJP – E como está o Jiu-Jitsu competitivo feminino? Bons eventos, boas premiações ou ainda há muito a fazer?
MN – Os eventos são bons e cada vez existem mais abertos a mulheres. Quanto aos prémios e falando da entidade reguladora do Jiu-Jitsu mundial, a IBJJF, esta tem muito dinheiro e deveria dar um retorno financeiro maior aos atletas. Na minha opinião e no meu caso particular, já não tenho tanta motivação para competir nos campeonatos da IBJJF. Vou ao mundial, pela dimensão da prova e pela visibilidade que esta me dá, mas também pelo retorno que dou meus patrocinadores. Mas prefiro muito mais participar num campeonato como o Polaris. Por exemplo no mundial de Abu Dhabi, não gasto o meu dinheiro, vou com tudo pago e o tratamento que um atleta recebe por parte da organização é profissional. Acho que a IBJJF está a tentar melhorar esta falha, mas vamos esperar para ver.

 

JJP – É possível uma atleta viver só do Jiu-Jitsu?
MN – É difícil. Eu que já atingi um determinado patamar e consigo viver do Jiu-Jitsu. Tenho patrocínios, dou seminários, mas trabalhei bastante para chegar aqui. Trabalho muito, estou muitas vezes longe da família, por vezes é difícil.

 

JJP – Como vês esta discussão Jiu-Jitsu defesa pessoal vs Desportivo?
MN – Um está ligado ao outro. A essência do Jiu-Jitsu é a defesa pessoal e esta nunca se irá perder. Sou defensora que todas as mulheres deveriam ter aulas de Jiu-Jitsu orientado para a defesa pessoal feminina e a partir desta base, fixar mais mulheres no Jiu-Jitsu na vertente desportiva, orientada também para a forma física, bem-estar e saúde.

 

JJP – Deixa ver se com esta pergunta te consigo deixar num sufoco: sendo tu paulista, qual é para ti actualmente a capital mundial do Jiu-Jitsu?
MN – (Risos) Califórnia…e Abu Dhabi. Acho que os Emirados vão explodir muito em breve. Apenas lhes falta uma equipa nacional forte, mas o trabalho de base está a ser feito e os resultados vão surgir.

 

JJP – Bom, fugiste à questão. Vou ser directo: o melhor Jiu-Jitsu está em São Paulo ou Rio de Janeiro?
MN – São Paulo, claro (risos)! Santos também (risos)!

 

JJP – Os cariocas não vão gostar de ler…
MN – Posso estar a ser injusta, mas São Paulo…já faz um tempo que o Jiu-Jitsu saiu do Rio e se tornou enorme em São Paulo.

 

JJP – Como está a tua relação com o Rodrigo (Cavaca)?
MN - É uma pessoa de quem eu gosto muito, do fundo do coração, mas decidiu seguir outro caminho.

 

JJP – Compreendes esta ‘roptura’ dele?
MN – Existe sempre um atrito, quando tens que escolher um dos caminhos, mas tudo passa. O Cavaca é um grande professor e também um grande atleta. Não tem mais nada para provar para ninguém, mas mesmo assim continua a treinar forte. É um exemplo. Merece todo o nosso respeito.

 

JJP – Estamos no fim. Queres dizer mais alguma coisa?
MN – Quero deixar uma mensagem para todos os vossos leitores. Amigos portugueses, não parem de treinar, descubram cada vez mais novas emoções, que vos irão fazer ficar cada vez mais viciados num estilo de vida saudável, que se chama Jiu-Jitsu. Um forte abraço para todos.

 

Por Paulo Santos

 

Nota: agradecimentos ao Professor Rodrigo Pereira e Academia Integração pela cedência das instalações para a entrevista.

 

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