JIU-JITEIROS, ESSA PECULIAR TRIBO – POR HUGO MIRANDA

 

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Jiu-Jiteiros, essa peculiar tribo

 

Muito se fala nos dias de hoje das várias ‘tribos’ sociais e respectivas características. Sejam associadas a estilos de música, moda ou arte, cada uma tem especificidades e hábitos que as tornam únicas, reconhecíveis para os de dentro e inacessíveis para os de fora. O pessoal do Jiu-Jitsu forma também, muitas vezes sem querer, uma tribo e tem um conjunto de comportamentos que nos tornam…diferentes.

 

Somos cromaticamente limitados: Não é caso para ir ao oculista mas um bom Jiu-Jiteiro reconhece apenas o branco, azul, roxo, marrom (castanho), preto e vermelho. As crianças ainda identificam amarelo, verde, laranja e cinzento, mas isso passa-lhes aos 16 anos. Estas são as cores das nossas vidas e nenhuma outra nos interessa ou é motivo de atenção.

 

Controlamos o peso diariamente: Quase como as grávidas, mas para pior. É antes do treino, é depois do treino, é antes da ‘cheat meal’ é depois do batido de proteína, etc. Em nenhum outro espaço do planeta, homens adultos correm tanto para as balanças e comparam os pesos com outros homens. Em dias que antecedem competições então somos do piorio. E vamos todos comer hambúrgueres gordurosos depois dos campeonatos…

 

Falamos um dialecto único: Com o passar do tempo, a nossa maneira de falar vai-se alterando até se tornar uma amálgama de várias línguas, utilizando expressões de várias partes do mundo. Se estiverem à conversa com colegas de treino num espaço público, façam o exercício de olhar para quem está à vossa volta e vejam aquelas carinhas de ponto de interrogação, como quem diz: ‘estes miúdos falam todos checoeslovaco?’ As nossas conversas utilizam o português do Brasil: ‘Peguei a faixa marrom no dia…’, misturam termos técnicos com calão de Portugal: ‘Raspa o gajo porra!’, vão buscar termos ao inglês ‘Aquele leg drag é muito eficiente!’, levam uns pozinhos de inglês do Brasil: ‘Portanto, na pegada do sitchi beltchi…’, algumas palavras em japonês: ‘Quando executei o O-Soto-Gari…’ e às vezes ainda se misturam elementos culinários: ‘Foi uma mão de vaca que ele até ganiu!’ – No fundo, é toda uma nova linguagem, apenas ao alcance de alguns.

 

Relativizamos tudo com recurso ao Jiu-Jitsu. Exemplos práticos:

 

‘Ah e tal, fulano tal levanta 300 kilos com os dedos mindinhos e o diabo a quatro’. Sim, isso é tudo muito bom e muito bonito. Mas ele sabe sair da montada?

 

‘O meu vizinho de cima escorregou na escada e partiu a perna em 3 sítios.’ Mas bateu ou não bateu?

 

‘Mestre, houve um incêndio lá em casa, estou sem-abrigo, perdi tudo o que tinha…’ ‘Mas vens treinar hoje? Tenho aqui um kimono A2 que não uso, não há problema!’

 

Há quem nos considere uma seita: De forma profundamente injusta, na minha opinião. Só porque falamos de Jiu-Jitsu o tempo todo, mesmo com desconhecidos ou não-praticantes, só porque quando estamos em casa estamos a ver vídeos de Jiu-Jitsu, só porque tentamos convencer toda e qualquer pessoa que conhecemos a vir treinar. Só porque vemos um filme e dizemos ‘ai valha-nos Carlson Gracie, aquele mata-leão está todo mal feito!’ Juro que não sei porque é que a minha avó tem fugido de mim.

 

Há mais características, mas vou parar por aqui para não ser acusado de marginalizar o Jiu-Jitsu. Se se lembrarem de mais, não hesitem em partilhar connosco. Entretanto vou ligar à minha avó, acho que ela se ia dar bem no treino da noite.

 

Ndr: O autor deste texto usou a grafia antiga. Não porque seja um ‘Velho do Restelo’ ou tenha quaisquer convicções políticas fortes, mas porque aprendeu a escrever aos 6 anos e não vai reaprender aos 30 – tenho mais que fazer.

 

Por Hugo Miranda