O QUE É (OU DEVE SER) UM FAIXA PRETA, POR MAURO FROTA

 

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O que é (ou deve ser) um faixa preta?

 

Visitei o Japão, pela primeira vez, em 1998. Viajei para a pequena ilha de Okinawa em busca da minha paixão pelas Artes Marciais – paixão essa que, anos mais tarde, traria comigo para os tatames de Jiu Jitsu, quando experimentei rolar pela primeira vez no Rio de Janeiro (mas isso é outra estória).

 

O que mais me marcou nessa primeira visita foi a fantástica oportunidade de ter um treino privado com o já falecido An’Ichi Miyagi. Para quem não sabe (e acredito que os nossos queridos leitores não o saibam) era o equivalente ao Hélio Gracie lá da ilha. Baixo, magro, franzino e… faixa branca amarrada na cintura! Foi um tremendo choque – e uma licção de humildade que nunca mais esqueci!

 

É uma das melhores sensações do mundo, definitivamente, amarrar pela primeira vez uma faixa preta na cintura. Finalmente , após um longo tempo de esforço, sacrifício, orelhas amassadas, dedos doridos, muito suor e, por vezes, algum sangue (aqueles colegas malandros que fazem tudo para passar a guarda!) chega o tão desejado dia – sucede-se a cerimónia, as lágrimas, os abraços. Uma sensação que nos esmaga e ao mesmo tempo nos faz querer voar… Mas o que significa, efectivamente, a faixa que amarramos na cintura?

 

“A própria palavra Sensei significa isso mesmo – Sen (antes) + Sei (nascer, vida) – “o que nasceu antes”, no sentido em que começou a percorrer o caminho marcial antes de nós”

 

Faço esta reflexão neste momento por ter lido recentemente um artigo que abordava os 10 atletas de Jiu Jitsu que atingiram a faixa preta mais rapidamente, o que me fez recordar um outro episódio que vivi na faculdade – quando convivi com uma colega, atleta Olímpica de Judo, e percebi que ela era mais graduada do que o seu professor, pois as graduações eram atribuídas tendo principalmente como base o sucesso competitivo e não a antiguidade ou outro critério (pelo menos, não neste caso específico).

 

Tendo vindo de uma arte marcial clássica, com uma longa história de respeito pelos mais velhos, pelos que iniciaram o caminho antes de nós, confesso que fiquei chocado. Aliás, a própria palavra Sensei significa isso mesmo – Sen (antes) + Sei (nascer, vida) – “o que nasceu antes”, no sentido em que começou a percorrer o caminho marcial antes de nós. Neste sentido confesso que fico perplexo com a leviandade com que a palavra Mestre, Sensei, Guru, Sifu, ou outras com significado semelhante são usadas. Para mim um faixa preta não é automaticamente um Mestre.

 

Ser-se Mestre é muito mais do que isso. Não se trata de ser alguém perfeito, mas alguém que busca a perfeição diligentemente. Ter boa técnica marcial não faz de ninguém um Sensei. A busca da melhoria constante sim. E não falo só de técnica ou de força física. Essa é apenas a parte mais visível de um professor de Jiu Jitsu. Falo de tentar ser um melhor ser-humano, de desenvolver princípios e valores sólidos, de cultivar o respeito e a honestidade. Falo da capacidade de se doar. Falo da paixão com que se ensina.

 

Ser-se Mestre é isto e muito mais. E destes há muito poucos. Tanomo Saigo, Samurai japonês do período Edo, disse tudo quando afirmou: “Quando procurares por quem te ensine a arte da guerra, procura por aquele que mais ama a paz” – e se queremos que a nossa Arte Suave adquira o respeito da sociedade; ou se queremos que os pais confiem em nós para auxiliarmos na educação dos seus filhos, teremos que repensar o que significa realmente o pedaço de pano preto que amarramos na cintura…

 

*Mauro tem formação académica nas áreas das Ciências do Desporto, com especializações em Marketing e Gestão e Mestrado na área da retenção de clientes em ginásios.

 

Na área marcial é graduado em 5 modalidades: Karate de Okinawa, Kickboxing/Muay Thai, Artes Marciais Filipinas, KAPAP e, obviamente Jiu-Jitsu, tendo começado em 2000 no Rio de Janeiro (GB na Barra da Tijuca).