O PODER DO JUÇAI, POR ADRIANA GRACIE

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O juçaí nada mais é que a polpa dos frutos da palmeira juçara, Euterpe edulis Martius, típica das regiões da mata atlântica, ameaçada de extinção, pela extracção insustentável do palmito. O que a grande maioria ainda não sabe, mas o que já garante o sustento de uma pequena minoria, é que felizmente essa polpa vale mais que o palmito, portanto a árvore em pé garante uma renda maior do que ela morta, após a extracção do palmito.

 

As Palmeiras Juçara demoram cerca de oito anos, podem chegar a 12, para alcançar a fase adulta, quando começam a produzir tanto o fruto, quanto o palmito. Quem já experimentou garante que o juçaí é ainda mais saboroso que o açaí, além de, evidentemente, mais sustentável para o povo do sul, já que estaríamos consumindo um produto nativo de nossa região, que não percorrerá grandes distâncias para chegar no nosso prato.

 

O juçaí a polpa de açaí da juçara apresentou composição nutricional compatível, e para alguns nutrientes até superior ao açaí do Norte do país. Com relação aos minerais, os teores de ferro, potássio e zinco da juçara foram 70,3%, 65,7% e 20,8%, respectivamente, superior ao encontrado no açaí do Norte. Já os valores de fósforo e cobre foram significativamente maiores no fruto do norte. Quanto aos teores de cálcio, magnésio e manganês, não foram encontradas diferenças significativas.

 

Importante mencionar que o aproveitamento do ferro de produtos vegetais, que inclui o Juçaí e o Açaí do norte, é menor, comparado a produtos de origem animal. O aproveitamento deste mineral de fontes vegetais pode ser aumentado na presença de alimentos fontes de vitamina C, como a laranja, limão, acerola, maracujá e cajá, dentre outros. A juçara também apresentou conteúdo de açúcares totais e gorduras maiores do que o açaí do norte e, consequentemente, maior valor energético.

 

Porém, as gorduras presentes em ambos os produtos são as chamadas “gorduras boas”, compostas por ácidos graxos insaturados, que muitas vezes, podem ser capazes de reduzir o colesterol no sangue. Nesta mesma pesquisa, durante um teste de degustação, foi observado que os participantes acharam mais doce o suco com o juçaí e o preferiram em relação ao outro.

 

A cor roxa escura dos frutos é devido à presença de antocianinas, que pertencem ao grupo de metabólitos secundários vegetais conhecidos como flavonóides. Possuem coloração que varia do vermelho intenso ao violeta e azul e são responsáveis pela variedade de cores em flores, folhas e frutos. As antocianinas podem ser utilizadas como corantes naturais e apresentam grande potencial farmacológico, que incluem propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, inibição da oxidação do colesterol LDL, diminuição dos riscos de doenças cardiovasculares e de cancro.

 

Os frutos são retirados por habilidosos nativos – já que essa produção acontece na mata atlântica e emprega jovens locais que garantem a manutenção florestal e seu sustento – que sobem até o cacho de frutos, com o auxílio do que chamam de peconha e retiram cuidadosamente o cacho sem perder sequer uma semente. No processo que transforma o fruto em polpa, as sementes são deixadas de molho em temperatura de 30º, para que não mate o embrião da semente, posteriormente são colocadas em uma máquina que extrai a fina película roxa que envolve a semente. A película vira a polpa e a semente é usada em novo plantio.

 

Até a água utilizada no despolpamento pode ser reaproveitada no banho, porquê contém um óleo, liberado pelo fruto, considerado excelente hidratante. Vale ressalvar que o teor de antocianina de um fruto pode ser afectado pelo seu grau de maturação no momento da colheita, por diferenças genéticas entre os cultivares, condições de armazenagem, tempo entre a colheita e o despolpamento e condições de armazenamento da polpa, dentre outros factores.

 

Portanto, a exploração dos frutos da palmeira juçara, utilizando um manejo sustentável adequado, pode ser mais lucrativa do que a comercialização do seu palmito. Além de contribuir para a preservação da espécie, o consumo da polpa dos frutos de juçara fornece grandes benefícios à saúde.

 

O fruto da Juçara e o açaí podem ser considerados “frutos do anti-envelhecimento”, pois estão no topo da tabela ORAC (Oxygen Radical Absorbance Capacity), que mede a capacidade antioxidante dos alimentos. O fruto da Juçara possui3 vezes mais antocianina do que o açaí.

 

A juçara apresenta quantidades superiores de antocianina comparada a outras frutas tropicais e de teores semelhantes e, às vezes, até superior ao açaí de palmeiras do Norte brasileiro. Uma análise do conteúdo de antocianina entre alguns frutos tropicais constatou os seguintes resultados: juçara (290mg de antocianina/100g de peso fresco), guajiru (104mg de antocianina/100g de peso fresco), jamelão (79mg de antocianina/100g de peso fresco) e acerola roxinha (23mg de antocianina/100g de peso fresco). Os valores de antocianina encontrados em trabalhos com o “açaí do Pará”, Euterpe oleracea, foram: 225 mg de antocianina/100g de fruto; 263mg de antocianina/100g de fruto e 282-303mg de antocianina/100g polpa.

 

A polpa dos frutos da juçara, assim como a do açaí, pode ser utilizada na forma de alimento: na tigela, sucos, cremes, iogurtes e molhos. No Departamento de Bioquímica e de Biologia Molecular, da Universidade Federal de Viçosa, estão sendo realizadas pesquisas científicas visando à utilização de compostos presentes na polpa dos frutos de E. edulis para o desenvolvimento de cosméticos e biofármacos. A doutorada do Programa de Pós-Graduação em Bioquímica Agrícola, a nutricionista Luciana Marques Cardoso, sob a orientação dos professores João Paulo Viana Leite, José Humberto de Queiroz e Maria do Carmo Gouveia Peluzio, está investigando a composição química e bromatológica dos frutos de E. edulis e avaliando possíveis efeitos farmacológicos de extractos desenvolvidos e padronizados a partir dos frutos da palmeira em animais com alterações funcionais.

 

O IPEMA -Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica, desenvolve um trabalho, monitorado pelo Ministério do Meio Ambiente, já cultivam as palmeiras juçara e vendem a sua polpa. Conservando a floresta, garantem seu sustento financeiro e certamente no planeta. E eu que considerava o açaí extremamente sustentável, principalmente muito saboroso e nutritivo vou-me render ao juçaí. Assim o povo do norte garante a preservação da Amazónia. E nós, aqui da região sudeste, tentamos recuperar o que sobrou da Mata Atlântica, tão exuberante e importante quanto os demais biomas e avassaladoramente mais aniquilada.

 

O Programa Amável – A Mata Atlântica Sustentável, em curso há cerca de quatro anos na Serrinha do Alambari, Município de Resende, RJ, tem o propósito de reverter esse quadro, repovoando a Mata Atlântica com a Palmeira Juçara, restituindo o status originário dessa espécie e promovendo a sua exploração de modo sustentável, dos pontos de vista ambiental, social e económico.

 

Para isso, propomos fazer com a Palmeira Juçara (Euterpe edulis) o que índios e comunidades ribeirinhas já fazem há tempos com a Palmeira Açaí (Euterpe oleracea) na região amazónica: plantá-las e colher os seus frutos, sempre de modo sustentável. Pertencentes ao mesmo género botânico Euterpe, as palmeiras Juçara e Açaí produzem frutos quase idênticos em sabor, coloração e textura.

 

O fruto da Palmeira Juçara (Euterpe edulis, Mart.), foi a primeira polpa desta fruta a ter registro no Ministério da Agricultura no Brasil. Os frutos utilizados para a produção do Juçaí são colhidos na floresta, através de um manejo sustentável e orgânico, que visa à conservação e à propagação da espécie. O fruto da Juçara, que ocorre na Mata Atlântica, é assemelhado àquele do Açaí (Euterpe oleracea), da Região Amazónica.

 

Mas há importantes diferenças: o gosto do fruto da Juçara é mais suave e seu conteúdo nutricional é mais rico do que o Açaí: possui mais ferro (+ 70%), potássio (+ 63%), provitamina A e antioxidante antocianina (2.956 mg/100g para o fruto seco e 290 mg/100g para o fruto fresco) (Brito et al., 2007; Lopes et al., 2007).Pesquisas recentes salientam a importância dessas substâncias para o bem-estar físico e para a saúde, como suplementação energética e calórica, aprimoramento da memória, redução do risco de doenças coronárias e prevenção da hipoglicemia (Borges et al., 2011).

 

Fontes:

 

Chang, Y.C.; Huang, K.X.; Huang, A.C.; Ho, Y.C.; Wang, C.J. Hibiscus anthocyanins-rich extract inhibited LDL oxidation and oxLDL-mediated macrophages apoptosis. Food and Chemical Toxicology, v. 44, p. 1015–1023, 2006.
Chen, P.N.; Kuo, W.H.; Chiang, C.L.; Chiou, H.L.; Shou, Y.S.; Chuc, S.C. Black rice anthocyanins inhibit cancer cells invasion via repressions of MMPs and u-PA expression. Chemico-Biological Interactions, v. 163, p. 218–229, 2006.
Bobbio, F.O.; Druzian, J.I.; Abrão, P.A.; Fadelli, S.; Bobbio, P.A. Identificação e quantificação das antocianinas do fruto do açaizeiro (Euterpe oleracea Mart.). Ciência e Tecnologia de Alimentos, v. 20, p. 388-390, 2000.
Brito, E.S.; Araújo, M.C.P.; Alves, R.E.; Carkeet, C.; Clevidence, B.A.; Novotny, J.A. Anthocyanins Present in Selected Tropical Fruits: Acerola, Jamelão, Jussara, and Guajiru. Journal of Agricultural Food Chemistry, v. 55, n. 23, 2007.
Toufektsian, M.C.; De Lorgeril, M.; Nagy, N.; Salen, P.; Donati, M.B.; Giordano, L.; Mock, H.P.; Peterek, S.; Matros, A.; Petroni, K.; Pilu, R.; Rotillo, D.; Tonelli, C.; De Leiris, J.; Boucher, F.; Martin, C. Chronic dietary intake of plant-derived anthocyanins protects the rat heart against ischemiareperfusion injury. Journal of Nutrition, v. 138, p. 747–52, 2008.

 

Adriana Gracie

Professora de Educação Fisica,

Estudante do Curso de Pos-Graduacao da U.G.F

Colunista da Revista Gracie Magazine e Orientadora Nutricional

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  • Anderson Santos

    Fruto vindo de um spécie ameaçada de extinção. Acho que seria bem preocupante se esse suco se tornar “moda”. Já existe casos conhecidos de morte de pessoas e ambientalistas, ligadas aos palmiteiros.

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