LEONARDO MACIEL: “SE O MELHOR DO MUNDO É O PORTUGUÊS CRISTIANO RONALDO, PORQUE NÃO TAMBÉM UM CAMPEÃO DO MUNDO FAIXA-PRETA DO VOSSO PAÍS?”

Nome grande do Jiu-Jitsu de Teresópolis, Leonardo Maciel é visita regular do nosso país onde compete no Europeu ou orientando seminários. Foto: JiuJitsuPortugal

EXCLUSIVO: Teresópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro é uma grande fábrica de campeões de Jiu-Jitsu, muito pela influência de GM Hélio Gracie e sua família terem naquela cidade a casa de férias do clã. Nomes como Bitta, Soneca, Robinho, Pé de Chumbo, Jucão, Juquinha, entre outros levam o nome da cidade seja em seminários ou nas competições. Leonardo Maciel é uma das jovens estrelas da nova geração de atletas de Teresópolis que tem conquistado medalhas importantes nos maiores eventos e afirmado o seu nome no panorama internacional.

 

O site JiuJitsuPortugal aproveitando a sua presença em terras lusas esteve à conversa com um dos grandes nomes da Arte Suave.

 

JiuJitsuPortugal – Como o Jiu-Jitsu entrou na tua vida?
Leonardo Maciel – Na minha cidade é tradicional a prática do Jiu-Jitsu. Temos muitas equipas e bom…o meu irmão fazia Capoeira, parou e começou a praticar Jiu-Jitsu. Eu segui-o e estou no Jiu-Jitsu desde 2002, até hoje.

 

JJP – O que significa o Jiu-Jitsu para ti?
LM – Tem sido a minha vida! Não vivo só do desporto; além de professor de Jiu-Jitsu sou fisioterapeuta, financeiramente não vivo só da arte, mas se pudesse seria profissional a tempo inteiro. Para mim é um prazer estar no tatame de kimono.

 

JJP –Pensas no Jiu-Jitsu de manhã à noite?
LM – (Risos) Sem dúvida! É um prazer enorme estar de kimono, ensinar, aprender também, fiz muitos amigos, inclusive aqui em Portugal, no Brasil, em Abu Dhabi e em muitos outros lugares.

 

JJP – E a tua entrada numa das maiores equipas do mundo, a GFTeam?
LM – Eu treinei 10 anos na equipa PitBull, que era somente PitBull, na academia do meu professor Bitta. Foi ele que me deu a faixa preta. Tinha um amigo da minha cidade que se mudou para o Rio de Janeiro e que foi para a GFTeam . Ele falou-me mais tarde das excelentes condições da GFTeam, para eu fazer-lhes uma visita, que os treinos eram duros, etc. Sem compromisso, pois era aluno da PitBull, disse-lhe que um dia ia lá fazer-lhe uma visita. Entretanto, o meu mestre foi para Abu Dhabi dar aulas e conversei com ele, sobre ir para uma equipa com uma grande tradição de competição: Rodolfo Vieira, Vinicius Marinho, Ricardo Evangelhista e Igor Silva, entre muitos outros, fazem parte da GFTeam. Disse ao mestre Bitta que me identificava com aquela academia, pois queria competir e…é normal que não tenha aceite muito bem. No entanto, continuo a ter muito carinho pelo mestre Bitta, tanto que continuo a ir treinar todos os dias na academia do mestre Bitta em Teresópolis e quando posso vou à GFTeam, onde criei uma amizade muito forte com o Professor Júlio Cesar e por todos os atletas de lá. Fui muito bem recebido, como se fosse um irmão.

 

“Eu quando vou à academia, esforço-me por dar os dez rolas; ele não sai do tatame se não der quinze. Por vezes chega a dar vinte rolas. A parte física dele é muito boa. O Rodolfo Vieira treina muito”

 

JJP – Mas és conhecido por ser um atleta da GFTeaM!
LM – Eu sou conhecido? Nos últimos três anos e após terminar a faculdade, comecei a treinar mais e a destacar-me mais também. E como já estava na GFTeam…

 

JJP – Sentes diferença nos métodos da GFTeam comparado com outras equipas. São mais orientados para a competição?
LM – Com toda a certeza! A matriz da GFTeam é uma academia que tem pessoas dispostas a treinar. Qualquer horário que vás, tens treino: pode ser natal, ano novo, páscoa, qualquer feriado ou data comemorativa tem treino. Na GFTeam foca-se muito na repetição. O mestre Júlio Cesar, não permite que se saia do tatame sem dar 10 treinos, 10 rolas de 6 minutos. Agora imagina, eu saio do treino todo destruído. Essa é uma das diferenças. Também o mestre Júlio Cesar é árbitro da confederação brasileira e numa entrevista que ele deu, afirmou que aprende muito arbitrando, a ver os atletas lutarem. Depois passa algumas das novidades para nós e trabalhamos em cima de repetição. A parte física é muito importante também, mas o treino repetido é tudo. Como costumo dizer: treino, treino, treino e treino.

 

JJP –Como é fazer parte da equipa do Rodolfo Viera para muitos o melhor do mundo?
LM – (risos) É um prazer muito grande. Conheci o Rodolfo, era ele faixa-roxa e eu já era marron. Tenho mais 3 anos de faixa-preta que o Rodolfo. Lutei com ele três vezes e perdi as três vezes (risos). Cara, jogar com ele é difícil! Numa nota de 0 a 10, eu estou num…5. O Rodolfo está num 12!

 

JJP – Melhor atleta que o Marcus “Buchecha” Almeida?
LM – Para mim é! Apesar de o “Buchecha” o ter vencido três vezes, para mim o Rodolfo Vieira é o melhor do mundo. Ele vem desde a faixa-roxa atropelando todo o mundo: da Alliance, da Checkmat, da Gracie Barra e bateu no “Buchecha”. Talvez tenha ficado um pouco abalado de ter perdido a primeira vez e se ele superar essa barreira psicológica vai ser difícil segurar o Rodolfo nos próximos dez anos. Eu quando vou à academia, esforço-me por dar os dez rolas; ele não sai do tatame se não der quinze. Por vezes chega a dar vinte rolas. A parte física dele é muito boa. O Rodolfo treina muito e está onde está, não é à toa. Está ali muito esforço, sacrifícios e treino.

 

JJP – Foste um dos presentes numa das edições da Copa Pódio. Ficaste surpreendido com o convite?
LM – Para mim foi uma surpresa. No Brasil tens excelentes atletas em todos os lugares. Acho que se deve também por fazer parte da equipa da GFTeam. O Mestre Julio Cesar e o Rodolfo ligaram-me para me convidar e é uma sensação fantástica ao ver o meu esforço recompensado. Fiquei muito emocionado. Não pela questão de status, mas pela competição pois eu gosto de competir, de ser campeão.

 

JJP – Sentiste um friozinho na barriga quando subiste ao tatame?
LM – Em todas as competições, embora os amigos digam que luto muito tranquilo. Mas por dentro, existe sempre um nervosinho que mexe com a gente. Na Copa Pódio não foi diferente, até porque tinha um público seleccionado em volta. Imagina, lutar ao lado do Rodolfo Viera, Leo Leite, Tererê, Vinicius Marinho, Leandro Lo, Ricardo Demente…muitos nomes fortes. Eu subi com alguma pressão, pois era um desafio de equipas, mas tudo correu bem e a GFTeam ganhou.

 

JJP – Como vez o Jiu-Jitsu actualmente?
LM – Olha, estou nesta estrada à doze anos e o crescimento é enorme. Hoje o interesse por parte do praticante é total: ele procura informações na internet, compra revistas, vai a seminários. Procuram aprender, para depois ensinar. Olha o que se passa em Abu Dhabi, com aulas de Jiu-Jitsu nas escolas e nas forças armadas. Cada vez mais profissional. O próximo passo será os jogos olímpicos.

 

JJP – Acreditas que o Jiu-Jitsu um dia será um desporto Olímpico?
LM – Acredito sim. Ainda são necessários alguns ajustes, mas vai lá chegar.

 

JJP – Como vez esta americanização do Jiu-Jitsu? Brazilian Jiu-Jitsu, Jiu-Jitsu e no futuro American Jiu-Jitsu?
LM – Olha, o Jiu-Jitsu que se ensina no mundo inteiro é o brasileiro. O que eles aprenderam foi e é, o Brazilian Jiu-Jitsu. Agora se quiserem chamar de American Jiu-Jitsu é com eles (risos). Para mim existe uma Arte só: o Jiu-Jitsu.

 

JJP – É a tua opinião que a designação de apenas se chamar a Arte de Jiu-Jitsu é mais benéfica para a divulgação do desporto?
LM – Claro! Defender que se deve chamar de Brazilian Jiu-Jitsu só porque sou brasileiro? A questão do nome resolve-se no tatame: o português foi o melhor ou brasileiro ou o americano. A competição serve para isso e existem campeões em todos os países. O importante é que o Jiu-Jitsu cresça e se espalhe ainda mais pelo mundo.

 

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Seminário em Vila Nova de Gaia, que juntou atletas de equipas de várias zonas de Portugal. Foto: JiuJitsuPortugal

 

JJP – Como está a GFTeam na Europa?
LM – Actualmente estamos em França, Inglaterra e Alemanha. E estamos a estudar a possibilidade de Portugal. Quem sabe ainda venho para cá dar aulas? Gosto muito do vosso país. É um caminho a ser pensado. Portugal tem grandes equipas, porque não mais uma?

 

JJP – Para terminar, queres deixar uma mensagem para os portugueses praticantes de Jiu-Jitsu?
LM – Olha, se não fosse brasileiro, gostaria de ser português. É um país fantástico, tanto de verão como de inverno, pois já cá estive nas duas épocas. Quero muito agradecer aos portugueses o carinho com que me receberam. Um especial obrigado aos que estiveram presentes nos meus seminários, aos faixas-pretas Pedro Pinto, Gabriel Nóbrega e Alyson Borges e gostaria muito de ver o Jiu-Jitsu português a continuar a crescer. Se hoje o melhor do mundo no futebol é o Cristiano Ronaldo, português, porque não no futuro um campeão mundial faixa-preta do vosso país? É apenas uma questão de treino. Agradeço também a oportunidade ao JiuJitsuPortugal de me dar a conhecer por cá, sei que procuram informar os leitores de forma imparcial e actualizada. Os media são um veículo muito importante para o crescimento dos atletas, dos professores, academias, enfim…do Jiu-Jitsu em geral.