ENTREVISTA A RUI REIS “O JIU-JITSU MUDOU A MINHA VIDA PARA MELHOR”

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Rui Reis (JiuJitsuPortugal.com)

Depois de se ter habituado, é difícil tirá-lo de lá. Primeiro lugar no Europeu 2015. Foto: Rui Reis

 

 

Rui Reis é uma presença assídua nos campeonatos do nosso país, mas também em muitos dos eventos que se realizam na Europa, o que lhe permitiu acabar em primeiro lugar do ranking da IBJJF na sua categoria, no ano passado.

 

Atleta do norte, de natureza reservada, coerente e atento ao estado do Jiu-Jitsu nacional. Vê o grupo à frente do indivíduo, elogia o bom desempenho de “equipas adversárias” mostrando que tem uma linha diferente de uma certa burguesia que vai surgindo no Jiu-Jitsu nacional. Um exemplo dentro e fora dos tatames.

 

Recentemente foi graduado faixa-roxa pelo seu professor Marco Carneiro.

 

JIUJITSUPORTUGAL – Como descobriste e o que significa o Jiu-Jitsu para ti?

 

RUI REIS – Descobri o Jiu-Jitsu através das transmissões televisivas no canal GNT do “Meca World Vale Tudo”, no início dos anos 90. Infelizmente só comecei a praticar muito mais tarde, ao mesmo tempo que praticava Kickboxing e Muay Thai, até que fiquei completamente viciado ao ponto de deixar o striking para trás. Tornou-se um vício e agora já não me vejo sem o Jiu-Jitsu. O Jiu-Jitsu é um estilo de vida saudável com um impacto na formação e integração social, que não vejo em nenhum outro desporto. Diz-se que o Jiu-Jitsu muda vidas e de facto mudou a minha para melhor.

 

JJP – Sendo tu um competidor presente em muitos dos eventos que se realizam na Europa, qual aquele que achas que está mais bem organizado?

 

RR - Creio que os eventos em Portugal estão muito bem organizados. Regra geral os eventos da IBJJF também são bem organizados. No entanto, ainda há eventos onde não temos um monitor com o tempo de luta (ex: os Opens Internacionais de Londres em 2013 e 2014). Portanto, ainda há aspectos a melhorar. O Europeu deste ano foi sem dúvida o melhor onde estive como atleta, muito bem organizado. Ou seja, os eventos em Portugal, em termos organizativos, são os melhores onde já estive presente. O campeonato português e o Open Nacional de 2014 são igualmente bons exemplos de boa organização.

 

JJP – Qual foi o campeonato que te deu mais gozo ganhar?

 

RR - Sem dúvida o Europeu de 2015. Pela dimensão, pela dificuldade e pelo provar a mim próprio que a vitória de 2014 e todas as outras na faixa azul, não tinham sido por acaso.

 

JJP – E o mais difícil?

 

RR - São todos difíceis, de qualquer forma os grandes eventos são sempre mais difíceis. Nos europeus de 2014 e 2015 a minha categoria teve 5 lutas até à final, logo não chega qualidade técnica. A componente psicológica acaba por fazer a diferença. Não só é testada a condição física como também a condição psicológica. Acaba por ser necessário manter uma lucidez mental ao longo de todas as eliminatórias e chegar à final ainda com vontade de a vencer.

 

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JJP – Estarás orgulhoso da tua posição no ranking da IBJJF. Porque achas que os media não lhe dão destaque e na tua opinião, o que pode ser feito para inverter este silêncio?

 

RR - Os media não lhe dão destaque por desconhecimento. O Jiu-Jitsu não é um desporto olímpico, ponto. O orgulho que sinto é contido, nunca dei muita importância a títulos. De qualquer forma, sei e sinto que os meus resultados acabam por motivar muitos colegas meus a competir. Essa é a minha satisfação, saber que de alguma forma motivo ou motivei os meus colegas, é óptimo. Na verdade acabo por ser alvo de piadas por ser o número um do Ranking em todos os treinos, mas isso acaba por contribuir para um ambiente amigável e descontraído. Ambiente esse que na minha opinião é parte essencial deste “sucesso”. Na realidade, sem os meus colegas os resultados não apareciam. O mérito é tanto meu como deles. Felizmente temos um grupo espectacular, que não falta a um único treino e com um nível de Jiu-Jitsu excelente. Poder estar e treinar, com os meus colegas de treino diário é a minha verdadeira recompensa.

 

JJP – Sendo um atleta do norte e sabendo que quase tudo se passa a sul, como vês esta centralização?

 

RR - Infelizmente isso não acontece apenas no Jiu-Jitsu. De qualquer forma, a zona norte tem escolas excelentes. O Porto, que conheço melhor, tem inúmeras escolas de grande qualidade. Desde a minha escola, ArtSuave, até ao Team Manoel Neto, passando pela Academia Integração e Gracie Barra Porto. Recomendo de igual forma qualquer uma destas academias. Aconselho vivamente qualquer apaixonado por Jiu-Jitsu desportivo a visitar estas academias, em qualquer uma delas vai encontrar Jiu-Jitsu de nível mundial.

 

JJP – Recebeste a faixa-roxa este mês. Quais os teus objectivos nesta nova etapa?

 

RR - O objectivo basicamente continua a ser o mesmo. Treinar, treinar, treinar. Ser melhor hoje do que era ontem e pior do que serei amanhã. Basicamente é isso. Quero aproveitar os treinos no dia-a-dia e divertir-me; é isso que me faz feliz.

 

“Uma maior proximidade entre todas as academias seria benéfica para todos os atletas, talvez seja isso que nos falta para ir mais longe.”

 

JJP – Como vês o estado do Jiu-Jitsu em Portugal?

 

RR - Acho que o Jiu-Jitsu português já demonstrou que tem qualidade. Vejam os resultados do Nelton Pontes em 2013 e 2014. Vejam os títulos que o Team Manoel Neto arrecadou recentemente. Um campeão do mundo em 2014, um campeão europeu em 2015 (numa das categorias mais difíceis do campeonato), entre outros. Aliás, referindo-me apenas ao Porto (visto ser a realidade que conheço melhor) a quantidade de títulos em eventos internacionais de grande dimensão alcançados pelas equipas ArtSuave e Team Manoel Neto são a prova disso mesmo. O nosso Jiu-Jitsu tem qualidade. Não é uma Califórnia? Não, não é. Falta-nos dinheiro? Falta. Mas também temos sol, mar e atletas excelentes, não precisamos de muito mais. Uma maior proximidade entre todas as academias seria benéfica para todos os atletas, talvez seja isso que nos falta para ir mais longe.

 

JJP – Sendo um competidor presente em vários eventos nacionais e internacionais, tens bastantes despesas. Na tua opinião, o que pode ser feito para minimizar estas despesas num atleta que participa em tantas provas e obtém resultados para o Jiu-Jitsu nacional?

 

RR - Enquanto o Jiu-Jitsu não for desporto olímpico esta realidade não vai mudar. Provavelmente nunca o será por motivos que todos conhecemos. Assim, apoios federativos não serão possíveis. Prémios financeiros nos campeonatos seriam uma grande ajuda. Já vemos alguns prémios monetários mas apenas em alguns eventos fechados, e apenas para algumas categorias. Ou seja, neste momento 95% dos atletas lutam apenas por uma medalha. Não é fácil obter patrocínios num desporto não olímpico, e como tal desconhecido. Infelizmente, a menos que a Federação Internacional faça alguma coisa a este nível a realidade será esta por mais alguns anos. Oferecer inscrições aos vencedores de todas as categorias já seria um bom incentivo. Ou um Kimono, ou um cheque prenda de alguma marca. Qualquer coisa. Todos os atletas pagam para competir mas depois não há visibilidade sobre onde esse dinheiro é aplicado. Os dados estão ao dispor de todos. O sucesso do europeu deveu-se na maioria à presença de atletas a competir nas faixas-branca e azul (bem mais de 50% dos atletas). A percentagem de inscritos em Masters foi igualmente superior à percentagem de Adultos. Essas são precisamente as faixas/categorias que ficariam de fora dos prémios. Isto acontece em todos os campeonatos de Jiu-Jitsu, todos. Portanto, alguma coisa está errada. Cabe às entidades com responsabilidade fazer alguma coisa a esse nível, creio que só falta vontade.

 

JJP – Acreditas que será possível a curto prazo viver do Jiu-Jitsu em Portugal, sendo competidor? Porquê?

 

RR - A curto prazo será praticamente impossível. Talvez 1 ou 2 atletas o possam fazer, não mais do que isso. Na minha opinião o principal motivo prende-se com o facto de este não ser um desporto olímpico. De qualquer forma as coisas estão a mudar. Há atletas a destacarem-se internacionalmente. Acho que podemos e devemos, sonhar.

 

JJP – Praticante de Muay Thai e de Jiu-Jitsu. Onde começa e termina a tua ligação entre os dois desportos?

 

RR – Na verdade, salvo umas visitas raras à Academia de Cesar – S. João da Madeira, onde me formei como atleta, que praticamente parei com a prática de Muay Thai. Apesar de o ter praticado durante 12 anos, apesar de ter viajado até à Tailândia para treinar (o que aconselho qualquer amante de striking a fazer), apesar de ter sido graduado faixa preta (1º Dan) pela Federação Portuguesa de Kickboxing e Muay Thai em 2010, apesar de ter adorado cada minuto dessa experiencia… agora só faço Jiu-Jitsu. O Muay Thai é luta em pé. O Jiu-Jitsu é luta no chão. São 2 desportos de luta reais que adoro. No entanto, não há grande ligação entre ambos para além deste facto. Cada um tem as suas particularidades que os distinguem dos demais. O Muay Thai na Tailândia é um mundo à parte, recomendo. O Jiu-Jitsu no Brasil de certeza que também o é, espero poder ir lá um dia viver o desporto da mesma forma intensa que o vivi na Tailândia.

 

JJP – Queres deixar uma mensagem final?

 

RR - Quero apenas agradecer a todos os meus colegas de treino diário que me ajudaram imenso a todos os níveis. Sem eles esta viagem pelo Jiu-Jitsu era possível, mas não era a mesma coisa. Citando o Caio Terra, “Greater than any title I won is the friendships I made through Jiu-Jitsu”. Basicamente, cheguei àquele ponto em que todos os meus melhores amigos me estrangularam. A eles, um grande obrigado.

 

 

 

 

  • Gordo

    Mete gelo Barrigas

  • Pedro Lemos

    Um Senhor!
    Entrevista Merecidíssima.
    Palavras de União, Fairplay, Humildade e Honestidade com que falou da sua (nossa) Escola, elogiando todas as outras, só ajudam ao crescimento deste Desporto.
    As palavras bem “ditas”, também fazem dele um Grande Campeão.

    Oss

    Pedro Lemos