ENTREVISTA EXCLUSIVA COM ANDRE BORGES EDITOR DO SITE BJJ HEROES

Andre Borges ganhou um lugar na história do Jiu-Jitsu mundial ao ser o guardião da sua cultura. Foto:  Callum Medcraft editor da Jiu Jitsu Style

Andre Borges ganhou um lugar na história do Jiu-Jitsu  mundial ao ser o guardião da sua cultura. Foto: Callum Medcraft editor da Jiu Jitsu Style

Chama-se André Borges e é mais conhecido lá por fora como “O Portuga”. Foi um dos pioneiros do Jiu-Jitsu em Portugal, no tempo em que havia pouco mais de meia-dúzia de locais para treinar e apenas alguns parceiros de treino. Aprendeu as bases quando treinou com figuras que deixaram saudades no nosso país como Dinarte “Silva” Lima ou Jean Kleber.

 

Depois mudou-se para Inglaterra e foi treinar numa das academias mais fortes de Londres, a Checkmat – London Fight Factory e Fightzone. Pelo caminho criou a única enciclopédia dedicada ao Jiu-Jitsu, a BJJ Heroes, que se tornou numa referência e fonte de informação inestimável para a história da Arte Suave. Sem medo de dizer o que pensa, aqui seguem as suas ideias sobre alguns dos assuntos mais actuais do Jiu-Jitsu.

 

JIUJITSUPORTUGAL – Como surgiu a ideia do site BJJ Heroes?
ANDRÉ BORGES - A ideia surgiu quase por completo de uma conversa que tive um dia com um colega de treino. Já me tinha ocorrido fazer qualquer coisa sobre Jiu-Jitsu, mas não tinha delineado nada. Depois, a meio de 2009 tive essa tal conversa com o parceiro de treino, conversávamos sobre competidores que gostamos de ver lutar e eu mencionei o Nino Schembri e o Terere. Ele era faixa roxa e não os conhecia, eu achei estranho, mas mais pessoas que estavam connosco na conversa nunca tinham ouvido falar. Lembro-me de ter ido a casa naquele dia e procurei o Nino no Google e realmente não tinha quase nada sobre ele, só uns pingos de informação aqui e ali. Daí que me veio a ideia de escrever sobre estas figuras e a história do Jiu-Jitsu. Por coincidência o Terere acabou por estar no treino em que me foi entregue a faixa preta.

 

JJP – Vês a possibilidade de a tua enciclopédia passar um dia para o papel?
AB - É uma ideia interessante. De momento tenho muito pouco tempo livre para correr atras de editoras, mas já tive algumas pessoas da velha guarda que vieram ter comigo a oferecer ajuda se algum dia eu quiser levar isso adiante, por isso nunca se sabe.

 

JJP – Quais as diferenças entre o Jiu-Jitsu em Inglaterra e Portugal?
AB - Conheço pouco a realidade do Jiu-Jitsu em Portugal, pois já saí daí há mais de 10 anos. Sei que está a crescer, o Nelton ganhou umas coisas… o miúdo é duro. O Nuno Martins também tem dado cartas. Mas pelo que vejo os ingleses têm muito mais desporto nas veias do que os portugueses que são cegos pelo futebol: 3 jornais “desportivos” diários onde só falam de futebol, é ridículo. O desporto escolar é visto como um estorvo (ou era quando ai estava). Aqui o desporto escolar vive-se com intensidade, os miúdos têm ligas de Rugby, de futebol de natação, etc. E esse ‘querer’ de ter uma actividade competitiva continua por aí adiante. Grande parte dos alunos que entram pela porta da academia cá, já fizeram uma actividade desportiva antes. Em Londres tens dezenas de academias, algumas têm pra cima de 300 alunos pagantes por mês. Não sei se isso acontece em Portugal, mas tenho ideia que não. Essa quantidade reflecte-se nas competições, os ingleses têm já faixas roxas e marrons de grande qualidade. Dentro de pouco vão começar a sair faixas pretas que vão dar trabalho.

 

JJP – Terá o NoGi mais futuro do que o BJJ de kimono?
AB – Não! O No Gi vai ser sempre fruto do Kimono. O kimono não vai sair do lugar, é a essência. Isso do sem pano virar o foco do Jiu-Jitsu, já é um argumento antigo, acho que tenho por aqui uma revista Tatame de 1998 a falar sobre isso (risos).

 

JJP – E se um dia o sheik se farta do BJJ e vai brincar ao monopólio com prédios a sério?
AB - O Sheik está lá nos EAU, tem muito pouco a ver com o crescimento recente do Jiu-Jitsu, as competições dele dão premiação, são interessantes. Pessoalmente, acho que o ADCC deu dois passos atras o ano passado, parecia que estavam a fazer o evento pela primeira vez. Acho que a IBJJF fez bem mais pelo crescimento do Jiu-Jitsu do que o Sheik.

 

JJP – Bom ou mau o BJJ ser um dia desporto olímpico?
AB - Mau, péssimo. Não conheço um desporto de contacto que não se tenha diluído em prol das audiências e do comité olímpico. O Judo é uma sombra do que já foi, banem tudo. Qualquer dia têm que se atirar ao chão só com os ‘Kiai’ porque vai ser ilegal fazer pegadas. O boxe, e completamente diferente do boxe profissional, e o Tae Kwon Do… bom, é melhor nem pegarmos nesse assunto, é absurdo.

 

JJP – Seria possível a realização do BJJ Heroes se vivesses em Portugal?
AB - Julgo que não, pelo menos não na época em que ai treinava.

 

“Em Londres tens dezenas de academias, algumas têm pra cima de 300 alunos pagantes por mês. Não sei se isso acontece em Portugal, mas tenho ideia que não. Essa quantidade reflecte-se nas competições, os ingleses têm já faixas roxas e marrons de grande qualidade. Dentro de pouco vão começar a sair faixas pretas que vão dar trabalho.”

 

JJP – Tens seguido o Jiu-Jitsu em Portugal? Qual a tua leitura sobre a sua evolução?
AB - Como mencionei antes, não sigo muito. Aliás, o vosso site é o que eu uso para o seguir (estão de parabéns)… o vosso site e o Facebook dos amigos que ai deixei e que ainda andam na guerra. Mas dá ideia que já tem umas duas ou três equipes boas, a Gracie Barra abriu uma academia grande em Lisboa, o Marcelo Bernardo também tem uma equipe forte. Ainda não está onde podia estar, mas sem dúvida que cresceu. Eu lembro-me que durante os 5 anos que treinei aí tive os mesmos 6 ou 7 parceiros de treino, com uns que iam e vinham, mas eramos sempre os mesmos ao fim do mês. Fico contente que isso tenha mudado.

 

JJP – Português e faixa-preta em Inglaterra. Como vives com essa responsabilidade?
AB – (Risos) Não vejo mais responsabilidade do que se fosse alemão, dinamarquês ou angolano. Penso pouco nisso, a faixa não me pesa. Gosto de treinar com todos, ser amassado de vez em quando é uma inevitabilidade de quem treina, se começamos a pensar em responsabilidades começamos a fugir ao treino.

 

JJP – Queres deixar uma mensagem para Portugal?
AB - Queria deixar aqui um grande abraço para o pessoal da JiuJitsuPortugal, este é sem dúvida um grande projecto sem ‘clubites’ que só vem beneficiar Jiu-Jitsu no nosso país e dar voz aqueles que realmente têm valor. Quanto aos que me lêem aqui, não parem de treinar. É verdade que as mãos vão ficar feias e as orelhas provavelmente também, mas a alma sai limpa.

 

Por Hugo Miranda e Paulo Santos

 

 

  • Luiz Dias

    Parabéns André pelo site!! Seu site lembra de pessoas que foram importantes no Jiu Jitsu, principalmente no passado e que muitos nem sabem que existiram. O site BJJ Heroes é importante e certamente, é e será fonte de pesquisa para muitos amantes da arte suave, para conhecerem mais detalhadamente todo o desenvolvimento do Jiu Jitsu!
    Forte abraço
    Luiz Dias