ALCUNHAS, APELIDOS E NOMES DE GUERRA

Alcunhas & Apelidos (JiuJitsuPortugal.com)

 

Está bem presente no Jiu-Jitsu de todas as partes do mundo, uma espécie de tradição ou hábito enraizado de presentear atletas ou professores – a bem ou a mal – com alcunhas, apelidos, nomes de guerra ou simplesmente diminutivos do seu nome. Mais do que nos outros desportos, baptizar um colega, aluno ou rival com uma alcunha, simboliza uma identidade, que pode ter a ver com as mais variadas circunstâncias, desde a aparência, o lugar de origem, a academia, estilo de luta, etc.

 

As histórias por detrás destes baptismos são normalmente engraçadas e com algumas peripécias que lhes servem de base. Com a ajuda da Enciclopédia do Jiu-Jitsu BJJ Heroes – propriedade do André “Portuga” –  vamos contar algumas delas.

 

Os animais são um tema predominante na atribuição de alcunhas do Jiu-Jitsu. Logo no topo da lista há uma ‘Pulga’ – Alexandre Pimentel, seguido de um bicho um pouco maior, o hipopótamo Anthony Perosh cujo tamanhinho fazia os colegas de treino gritar ‘Sai de cima ó hipopótamo!’ – fofinho no mínimo. Alcunha semelhante e pelos mesmos motivos tem o extrovertido Kurt Osiander, o “Rinoceronte”.

 

O famoso Bráulio Estima é para os mais próximos o Carcará, uma ave que habita a sua região natal. De Fernando Marques dizia-se que tinha a força de um Boi e assim nasceu Fernando “Boi”. George Gracie nasceu ruivo e ágil, o que fez com que fosse chamado de “Gato Ruivo”, e quem já viu um gato lutar agora imagine se soubesse Jiu-Jitsu.

Em Portugal não ficamos atrás e temos pelo menos um Arnaldo “Pittbull” e um “Ratinho” Maya na zona de Lisboa e um “Toni Gibóia” e um “Gnu” pelo Porto.

Jorge Patino estava sempre a subir às árvores, tal e qual um “Macaco”. História semelhante tem Sérgio Gasparelli, que subiu ao fugir a um cão feroz subiu a uma árvore tão rápido que ficou para sempre o “Babú” – de babuíno. Leandro Escobar fechava-se na meia-guarda como um “Tatu”. O campeão Lúcio Rodrigues é conhecido por todos como “Lagarto”, nome com origem numa brincadeira de Márcio Feitosa.

 

Marcelo Azevedo abriu um livro sobre animais na página do “Uirapuru” e ficou a ser assim conhecido. O histórico Pedro Hemetério ganhou a sua alcunha pela forma como escorregava de cada vez que o seu adversário o queria agarrar – foi apelidado pela imprensa como o “Homem Quiabo”. Rafael Barbosa e começou por ser “Formiguinha”, entretanto cresceu e tornou-se uma “Formiga” adulta. Rafael Freitas não parava de se mexer nos jogos de futebol e ficou a “Barata”. Há quem chame “Jegue” a Ricardo Evangelista, mas pelo historial de medalhas não vamos entrar por aí.

 

Jacarés há dois e bem fortes. Romero Cavalcanti e Ronaldo Souza têm Jiu-Jitsu para quebrar e retorcer adversários bem rápido. Rubens Charles por seu lado tem a flexibilidade e rapidez de uma “Cobrinha”. E terminando os animais, Wagner Campos fazia recados à sua mãe com a rapidez de um “Galeto”.

 

Em Portugal não ficamos atrás e temos pelo menos um Arnaldo “Pittbull” e um “Ratinho” Maya na zona de Lisboa e um “Toni Gibóia” e um “Gnu” pelo Porto.

Francisco Maya (JiuJitsuPortugal.com)

Francisco Maya da Carlson Gracie Portugal, mais conhecido por “Ratinho”. Será pelo tamanho?

 

Outro tema recorrente são as parecenças físicas com outras pessoas ou até personagens. Novamente a bem ou a mal, alguns lutadores foram baptizados com inspiração naquilo que faziam lembrar.

 

O casca-grossa Alexandre Souza era parecido com um lutador de Capoeira local, e assim renasceu ‘Pop’, desta vez no Jiu-Jitsu.
No caso de Ana Maria “Índia” foi uma questão prática que acabou por inspirar a alcunha. Ana gosta de fazer guardar e o rabo-de-cavalo estava sempre a cair-lhe para os olhos. Solução encontrada: tranças! Com o seu cabelo preto e as ditas tranças, foi um instante até ser “Índia”. A alcunha de António “Cara-de-Sapato” foi uma pérola da imaginação de Ricardo Vieira que num seminário ficou surpreendido por António ter um queixo ainda maior que o dele.

 

António Peinado tem parecenças com o comediante “Batista”, apesar de não dar muita vontade de rir aos adversários. Arlisson Melo era um grande fã da série ‘Os Cavaleiros do Zodíaco’, em especial do personagem “Kiki” – acabou por ficar ele próprio com essa alcunha. A mãe de Renan Pegado era fã da novela “Sinhá Moça” e em particular do personagem “Barão de Araruna”, acabando por chamar ao seu filho Renan “Barão”.

 

Brandon Mullins tinha uma barba muito na moda e tornou-se o “Wolverine”. A personagem “Caloca” inspirou a alcunha do irmão mais velho de Cláudio Mattos, que a herdou como “Caloquinha”. E Ricardo Miller tinha o cabelo como o personagem “Franjinha” da Turma da Mónica.

 

A alcunha de Dean Lister adequa-se na perfeição. “The Boogeyman” ou “O Papão” surgiu quando um dos seus adversários se magoou antes da luta e devido à reputação de Dean foi muito difícil arranjar um substituto. Com a quantidade de pés que o “Papão” já comeu, percebe-se porquê. E continuando na América, para o primeiro professor de Dustin Denes ele era muito parecido com a mascote do produto de limpeza ‘Mr. Clean’, baptizando-o assim de “Clean” – e agora é vê-lo a limpar adversários.

 

O Mestre Fernando Guimarães é conhecido por todos como “Pinduka”. Na sua juventude, Fernando era como o personagem de banda-desenhada, activo e sempre em sarilhos. Outra figura da Carlson Gracie, o explosivo Luis Carlos “Manimal” era dos lutadores mais ferozes do seu tempo, como atesta o seu apelido.

 

O corpo magro e o jeito um pouco trapalhão de Márcio Cruz na sua juventude valeu-lhe a alcunha “Pé-de-Pano”, inspirado na personagem com o mesmo nome. Marcos da Matta partilhava semelhanças físicas com um personagem famoso de Copacabana chamado Parrumpa, tornando-se assim o “Parrumpinha”. Também Maurício Mariano tinha parecenças com outra pessoa, o surfista Tinguinha Lima, herdando o seu primeiro nome como alcunha.

Leão Teixeira estava sempre bem-disposto, entrando pelas portas da academia com um “E aí, beleza?!” e acabou por ser conhecido como “Zé Beleza”.

Raphael Chaves parou de treinar um tempo e voltou mais redondo do que antes. Apesar disso ainda era um adversário complicado. Com um aspecto simpático mas perigoso. “Catatau” (Zé Colmeia) foi a alcunha escolhida. Não deixava de ter um aspecto inofensivo mas continuava a ser um urso.

 

A história por detrás da alcunha de Roberto Abreu tem bem a ver com o seu carácter como lutador. Roberto sofreu um gravíssimo acidente que deixou o seu braço em tão mau estado que os médicos lhe disseram que nunca mais ia recuperar. 4 Meses depois, não só voltou aos tatames como teve um sucesso nunca antes alcançado. Foi assim presenteado com o nome “Cyborg”.
Outra personalidade famosa, Vinicius Magalhães, tinha uma aparência algo sombria em criança, tornando-se o “Draculino”. Vitor Ribeiro tinha por hábito sentar-se na posição de flor de lótus por brincadeira e os seus colegas acharam que “Shaolin” era a sua cara.

 

Em terras lusitanas temos pelos lados de Torres Vedras um “Kamala” e por Lisboa o faixa-preta Henrique Pereira é o “Beethoven”.

 

E há também outras alcunhas que não se encontram e nenhuma categoria particular ou simplesmente não havia lutadores suficientes com alcunhas em volta de um só tema para escrever um texto.

 

O percurso desportivo de Alexandre de Freitas deu-lhe uma alcunha. Ao começar a treinar boxe para quebrar um pouco a rotina, o Mestre Carlos Gracie Jr. achou por bem começar a trata-lo por “Soca”. Delson Heleno dava uns pontapés bem fortes na Capoeira, a que se deve a alcunha “Pé-de-Chumbo”. Hélio Moreira era guarda-redes de hóquei até levar uma bolada na cabeça e passar uns segundos a dormir – os colegas acharam por bem chamá-lo Hélio “Soneca”.

 

António Rodrigo Nogueira é mundialmente famoso como “Minotauro”, figura da mitologia Grega com uma força e tamanho enorme. O seu irmão mais novo acabou por ficar como Rogério “Minotouro”.

 

O faixa vermelha Armando Wridt foi baptizado pelos seus simpáticos colegas como “Dedinho” por lhe faltar um polegar, perdido num acidente. Outro atleta marcado por uma característica física é Bill Cooper, cujos dentes desalinhados lhe valeram o apelido “The Grill” (algo como dentuça em português). Também os dentes de Roberto Alencar lhe valeram a alcunha “Dentuça”, entretanto encurtado para “Tussa”. Já “Zé Radiola” teve um acidente em criança e o seu braço nunca sarou devidamente, ficando para sempre com angulo estranho, parecido com o braço de uma grafonola ou radiola do lado de lá do atlântico.

 

Zé Radiola (JiuJitsuPortugal.com)

Radiola só se for pela música que te vai dar quando rolares com o Zé.

BJ Penn tomou o Jiu-Jitsu de assalto, e foi adequadamente chamado de “O Prodígio” – faixa preta em 4 anos não é caso para menos. Com vício de atropelar adversários no tatame, os irmãos Bruno e Augusto Mendes são respectivamente “Tanque” e “Tanquinho”. Cezar Guimarães sempre foi duro, mesmo em criança e já na altura lhe chamavam o “Casquinha” ou o pequeno casca-grossa. Já Bibiano Fernandes devia andar sempre com pressa, porque finalizava tudo e todos bem rápido – tornou-se o “Flash”.

 

Conhecido por todos pela sua liderança vocal, Fábio Gurgel tem o perfil de um “General” que comanda as suas tropas – estamos 100% de acordo.

 

O talentoso Felipe Pena não ia muito à bola com os treinos em criança, além de que tinha uns quilinhos a mais e era lento. Por isso “Draculino” acabou por chamá-lo de “Preguiça”. A estratégia resultou – Felipe usou a alcunha como motivação e agora é campeão do mundo. Também com um peso acima do recomendado, a maior figura do Jiu-Jitsu dos últimos tempos, Marcos Almeida ganhou a alcunha de “Buchecha” – estratégia novamente vencedora, já que Marcos se move com a ligeireza de um peso galo.

 

Consta que Fernando di Piero dava uns “Kiai” muito fraquinhos, comparados pelos colegas a um soluço. Nasceu assim o Fernando “Soluço”. Fernando Augusto (sabem quem é sem a alcunha?) tantas vezes cantou a mesma música que acabou por ficar o “Tererê”. “Terererrorizou” muita gente por aí!

 

O Mestre Toco, nascido Francisco Albuquerque, ganhou a alcunha porque em pequeno tirou uma foto sentado num toco de árvore. Já Rousimar Palhares deve ao seu físico – curto e largo – a mesma alcunha, “Toquinho”, se bem que poderia bem ser porque deixa as pernas dos adversários a acabar num toco.

 

Noutros tempos em que se vestia melhor do que agora, Jeff Glover chegou a trabalhar como canalizador, valendo-lhe a alcunha “The Plumber”, se bem que depois da sua última actuação no Metamoris talvez fosse mais adequado baptizá-lo de Artista de Circo. Ainda nas opções estéticas discutíveis, Marcos Galvão pintava o cabelo de louro e virou “Loro”.

 

Prova de que no Jiu-Jitsu é tudo boa gente são as alcunhas que se seguem: Eduardo Venâncio é chamado de “Brigadeiro” devido à cor da pele e forma da cabeça. A ascendência árabe de Amin Touati valeu-lhe o epíteto de “Camelinho”. E o espetacular Fernando Pontes um dia apareceu na academia com elásticos de várias cores no aparelho dos dentes – O General Gurgel decretou então a alcunha “Margarida”.

 

Leão Teixeira estava sempre bem-disposto, entrando pelas portas da academia com um “E aí, beleza?!” e acabou por ser conhecido como “Zé Beleza”. Tal como Ricardo Diogo que chamava todos os seus amigos de “Rey” e ficou o “Rey Diogo”.

 

O caso de Otávio “Peixotinho” é no mínimo curioso: Riller Gracie começou a chamá-lo assim porque pensava que Otávio morava no Bairro Peixoto, o que não era verdade. Depois Riller perguntou se Otávio andava no Colégio Peixoto, ao que o primeiro respondeu que não. Decidido, Riller concluiu: “Bom, mas você tem cara de Peixoto mesmo. Vai ser Peixoto!” E ficou até hoje. Outra figura da academia Carlson Gracie, o Mestre Osvaldo “Paquetá” deve a sua alcunha ao seu local de origem, Paquetá.

Ricardo Almeida deixava os colegas esticarem o seu braço no armlock até limites impossíveis, levando os colegas a apelidá-lo de “Demente”.
O tamanho de Rodrigo Medeiros não deixa dúvidas, é o “Comprido”.

Contamos algumas histórias, e com certeza muitas mais ficam por contar. As alcunhas são sem dúvida uma das imagens de marca da arte suave e não deixam ninguém indiferente. Do “Paquito” ao “Facas”, do “Reforçado” ao “Da Fraga”, do “Diabo” ao “Ózão”, passando pelo “Busca-Pólos” e por aí em diante, muitas histórias merecem ser partilhadas.

Estejam à vontade para as contar, porque o conhecimento nunca é demais!

Hugo Miranda (JiuJitsuPortugal.com)Coluna “SemPontos, NemContos” por Hugo Miranda