SERÃO REALMENTE OS LEVES MAIS AMARRADOS QUE OS PESADOS?

Leves vs Pesados (JiuJitsuPortugal.com)

Actualmente são os atletas mais pesados quem normalmente dá espetáculo. Foto: JiuJitsuPortugal

 

Serão realmente os leves mais amarrados que os pesados?

 

A evolução do Jiu-Jitsu tem sido um tema em foco nos últimos tempos, discutido na internet, nas academias e nos campeonatos. Porém, uma das mudanças mais evidentes no Jiu-Jitsu de competição é a diferença hoje existente entre as lutas dos mais pesados e os mais leves.
Se há uns 10 anos atrás as lutas mais emocionantes ou mais movimentadas eram as dos magrinhos, no presente são os atletas mais pesados quem normalmente dá espetáculo. Os tempos em que uma luta entre Ricardo Vieira e Robson Moura deixava até quem assistia cansados foram hoje substituídos por ‘tanques’ como Rodolfo Vieira e Buchecha, batalhando a velocidades que há uns anos atrás estavam reservadas para os mais leves.

 

Como sempre pensando um pouco fora da caixa, o site JiuJitsuPortugal achou que uma opinião que deveria ser mais ouvida e valorizada a este respeito é a dos árbitros. Para inveja de todos nós, ninguém assiste a mais lutas do que eles. A somar à experiencia que muitos já tinham como atletas e sendo faixas pretas de méritos reconhecidos, a visão privilegiada dos homens de negro é sem dúvida algo a ter em conta.

 

Começando pela prata da casa, o ‘grandão’ Ronaldo Carlos também nota a mudança e deixa um alerta:

 

“O Jiu-Jitsu está sempre mudando, sempre em movimento. As lutas dos pesados estão com mais movimentação e as dos leves com menos emoção. O Jiu-Jitsu começa na academia e acaba nas bancadas. O Jiu-Jitsu tem que ser um espetáculo e que chegue a todo o tipo de público, senão ficamos limitados aos que gostam e aos que não gostam de Jiu-Jitsu.”

Leves Vs Pesados (JiuJitsuPortugal.com)

Para o conhecido árbitro Ronaldo Carlos o Jiu-Jitsu tem que ser um espectáculo que chegue a todo o tipo de público. Foto: JiuJitsuPortugal

 

 

Passando para o exterior, fomos ouvir um árbitro com várias presenças em alguns dos maiores campeonatos e eventos internacionais, o faixa preta do peso pena Alan Moraes, que também notou a evolução:

 

“O Jiu-Jitsu actual é muito diferente do de há 10 anos atrás. Surgiram posições só com a finalidade de ganhar campeonatos e nível técnico e preparação física dos atletas a estratégia é cada vez mais necessária.”

 

Apesar de ser positiva a evolução neste aspecto que é a preparação de uma luta de campeonato, Alan contrapõe:

 

“Utilizam-se todos os artifícios possíveis para ser campeão. Antigamente o jogo era mais aberto, as posições mais directas. Hoje por exemplo a 50/50 trava muito a luta se um atleta tiver como objectivo amarrar e ganhar por uma vantagem. Os mais pesados mantiveram o mesmo jogo, só que ainda melhor porque incorporaram técnicas de Judo e de Luta-Livre. Luta-se mais em pé e os pesados de hoje são mais técnicos, guardeiros ao nível de vários leves. Acredito que essa mudança tem mais a ver com a técnica do que com mudanças de regras, que são hoje mais claras e directas.”

 

Será o atleta leve mais estratega e ardiloso que o mais pesado? A julgar pela final do último absoluto do Mundial não será bem assim. A batalha a que assistimos em pé acabou por ser determinante para a vitória de Buchecha. Será assim tão diferente passar alguns minutos em pé para obter a posição dominante de passar alguns minutos no chão tentando que a raspagem do berimbolo ou da 50/50 funcione?

 

Rodrigo Totti, faixa preta e árbitro internacional presente nos maiores campeonatos volta a pegar na questão da preparação e da evolução do desporto:

 

“Os levezinhos de antigamente destacavam-se pela técnica e pelo seu jogo ofensivo e são exemplo disso, nomes como Ricardo de la Riva, Royler Gracie, Léo Vieira, Robson Moura, Vítor Shaolin entre outros. Constatei no Mundial da IBJJF de 2014 que atletas de elite como Bruno Malfacine e os irmãos Miyao e Mendes, Cobrinha, Lucas Lepri e Leandro Ló, só para citar alguns, continuam muito ofensivos. Nas primeiras lutas conseguem abrir largas vantagens e na maioria das vezes finalizam, com um Jiu-Jitsu bonito e que entusiasma o público. Acontece que quando chegam mais à frente na chave encontram atletas tão bem preparados quanto eles e as lutas acabam por ser mais travadas, o que decepciona o espectador. Os adversários são estudados, as novas técnicas são muito bem defendidas e ambos os lutadores sabem que o mínimo erro pode decidir a luta.”

 

E para Totti a metamorfose não parou nos leves. Para ele, as novas regras trouxeram algo que faltava ao jogo dos pesados:

 

“Antigamente as regras não puniam a falta de combatividade. Sendo assim, muitos pesados conquistavam uma posição de domínio como uma passagem de guarda ou até mesmo uma meia-guarda e amarravam a luta, justamente porque as regras o permitiam. Com a evolução das mesmas, a punição por falta de combatividade passou a fazer a diferença, obrigando estes atletas a movimentarem-se muito mais, o que por sua vez fez com que o Jiu-Jitsu dos pesados evoluísse também. Hoje vemos atletas da categoria pesadíssimo e que são ágeis, habilidosos, muito melhor preparados fisicamente e que buscam sempre a finalização, como Rodolfo Vieira, Buchecha, Cavaca e outros.”

 

“O Jiu-Jitsu tem que ser um espetáculo e que chegue a todo o tipo de público, senão ficamos limitados aos que gostam e aos que não gostam”

 

Todos os entrevistados concordam que a evolução nas regras e na preparação dos atletas trouxeram ao Jiu-Jitsu um nível de profissionalização nunca antes visto. Se pensarmos na bem recente final do Mundial de Futebol, aquilo a que assistimos não foi diferente de tantas outras finais: Adversários estudados ao milímetro, e se não acontecer nenhum imprevisto, as margens mínimas e os pequenos erros decidem o vencedor.

 

O que se constata, para responder à pergunta que dá o título a este artigo, é que a espetacularidade das lutas depende de vários factores. Depende da fase do campeonato em que se luta – nas primeiras lutas há sempre mais pontos e finalizações. Depende da percepção do espectador – a beleza está nos olhos de quem a vê e as batalhas em pé pela queda podem ser tão amarradas ou monótonas quanto uma interminável tentativa de raspagem de berimbolo. E depende claro da disposição dos adversários em lutar – há quem vá decididamente para ganhar por uma vantagem.

 

Quanto a nós, este não é um tema fechado e como em tudo no Jiu-Jitsu, só tem a ganhar com a opinião e contributo de todos – atletas, professores e espectadores. Se tem algo para dizer ou acrescentar em relação a este tema, comente!

 

Por Hugo Miranda

 

 

.