Lugar de mulher é…no tatame. O Jiu-Jitsu feminino em Portugal

Jiu-Jitsu feminino em Portugal (JiuJitsuPortugal.com)

As mulheres portuguesas são cada vez em maior número nas academias nacionais.

O mundo das artes marciais e dos desportos de combate, sempre estiveram associados ao universo masculino. Tirando raríssimas excepções, tais como Joana d`Arc ou a nossa Padeira de Aljubarrota, historicamente os nosso heróis são homens: Bruce Lee, Chuck Norris ou Van Damme.

O Jiu-Jitsu também é diferente das outras artes marciais. A começar pela base, em que a técnica vence a força. Mas não só: o cada vez maior número de mulheres a treinar Jiu-Jitsu leva a que se comece a olhar e a oferecer serviços para elas, seja com as aulas pink, os kimonos com flores ou os seminários exclusivamente femininos. Um verdadeiro lifestyle cheio de elegância!
Fomos então saber o que pensam as mulheres sobre um desporto maioritariamente masculino. Ou será que não?

 

1) Quais as beneficios que o Jiu-Jitsu trás para a mulher?

2) Aulas exclusivamente femininas ou mistas? Porquê?

3) Qual a tua opinião sobre “o Jiu-Jitsu é um desporto violento e só para homens”?

 

Sofia GV – Gracie Barra Cascais

1) Os benefícios são a vários níveis. A nível físico, trabalha e define o corpo, sobretudo o abdómen, braços e quadril. Acelera o metabolismo e aumenta a resistência. Melhora a capacidade cardiovascular e respiratória; aumenta a flexibilidade; aumenta a coordenação motora; aumenta os reflexos. A nível psicológico, aumenta auto-estima, a autoconfiança, ajuda no controle emocional. Já para não falar na técnica de defesa pessoal.

2) Pessoalmente gosto e sou fã de ambas. Se por um lado, nas aulas Pink existe uma dinâmica própria com muita descontracção, onde a teoria é dada de forma mais perfeccionista, porque normalmente também são aulas com menos participantes, por outro lado as aulas mistas, permitem uma interacção com faixas de níveis diferentes, pesos diferentes e com muito mais praticantes, sendo o resultado uma aprendizagem desenvolvida na partilha dos rolas. Contudo há obviamente praticantes que se sentem intimidados de rolar com mulher, pois por um lado podem sentir necessidade de mostrar a sua superioridade (o que nem sempre acontece) ou por outro porque o contacto físico é intenso. Na maioria dos casos e falo pela experiencia na GB de Cascais, rolar com homens é fantástico, pois na sua maioria, estão sempre disponíveis para ensinar e chegam mesmo a ser bastante cuidadosos e protectores. No entanto rolar com homens é mais desafiante.

3) Nada disso. Ao início e para quem vê rolar no tatame, pode ate parecer algo muito violento. Mas depois de se praticar, muda-se de opinião muito rapidamente. A minha primeira vez, fui quase obrigada a experimentar. Marido e alguns conhecidos, arrastara-me! Ia com as espectativas muito baixas e com a certeza que não iria gostar. Mas a surpresa veio rapidamente… Gostei da 1º aula, e rapidamente passei para a 2º aula, 3º e por aí fora. Não só o Jiu-Jitsu não é para apenas homens, assim como também não é violento, visto que ninguém bate em ninguém e sobretudo não há intenção de magoar ninguém. Pelo contrario, é muito mais fácil ver um praticante de Jiu-Jitsu pedir desculpas se de alguma forma magoou a parceira, do que muitas vezes, no passeio de rua entre vários encontrões. No Jiu-Jitsu encontrei pessoas fantásticas, com óptimo caracter e sobretudo faz-se uma grande família, pois a cumplicidade é enorme. Afinal de contas o ideal da GB é Jiu-Jitsu para todos e não para alguns.

 

Ana Caria – Gracie Lisboa

1) Em relação aos benefícios do Jiu-Jitsu, prefiro não separar homens e mulheres. Acredito que os benefícios para ambos são iguais. O Jiu-Jitsu contribui para o nosso desenvolvimento pessoal e social independentemente de sermos homens ou mulheres.

Para além de todos os benefícios físicos que uma modalidade desportiva traz, o Jiu-Jitsu desenvolve, também, a confiança, determinação, concentração e coordenação. Todas estas competências são grandes mais valias não apenas enquanto praticantes, mas também na nossa vida pessoal, no trabalho, no relacionamento com os outros… A verdade é que o Jiu-Jitsu acaba por se tornar mais do que uma mera modalidade e passa a ser um estilo de vida.

2) Cada vez mais se ouve falar de aulas exclusivamente femininas e cada vez mais surgem aulas unicamente para mulheres. Acho que é uma boa forma de trazer mais mulheres para o tatame, porque a verdade é que a princípio (e se calhar para uma grande parte de mulheres) pode causar algum constrangimento/desconforto a ideia de treinar/lutar com homens. O Jiu-Jitsu é uma luta muito agarrada e, inicialmente, ao ver uma aula mista, muitas mulheres ficam de imediato com a ideia de que “aquilo” não é para elas.

Muitas vezes, uma aula exclusivamente feminina acaba por ter uma maior aceitação por parte do público feminino. Umas mulheres vão trazendo outras e as aulas acabam por encher e por ter um excelente ambiente, talvez até um ambiente um pouco mais leve do que o de uma aula mista, onde a testosterona prolifera.

No entanto, defendo a importância das aulas mistas. Para as mulheres que querem levar o Jiu-Jitsu mais a sério, que querem competir e obter resultados é muito importante lutar com homens! Geralmente, os homens são mais pesados e mais fortes (e isto muitas vezes aliado a uma boa técnica), para conseguir contrariar tudo isto, a técnica de uma mulher tem que ser bastante apurada. Costumo dizer que, por norma, as mulheres são mais técnicas do que os homens e a verdade é que quando se “batem” com eles no tatame, precisam mesmo de ser!

Acredito que as aulas mistas obrigam-nos a ser mais técnicas, a desenvolver ainda mais o nosso Jiu-Jitsu e a conseguir encontrar melhores soluções para os entraves que encontramos nas lutas!
Como mulher, se tivesse que escolher entre fazer apenas aulas femininas ou fazer aulas mistas, optaria, sem dúvida, pelas aulas mistas. Se tiverem oportunidade e quiserem, experimentem as duas classes!

3) O Jiu-Jitsu não é nem um desporto violento, nem exclusivamente para homens!
Tal como mencionei nas respostas anteriores, o Jiu-Jitsu é muito mais do que um desporto, é sem dúvida um estilo de vida que nos traz muitos benefícios. A ideia de que poderá ser apenas uma “coisa de homens” é um preconceito já ultrapassado! Esta é uma modalidade para todos – homens, mulheres e crianças – e que nos ensina sempre alguma coisa, independentemente de género ou faixa etária.

 

Amélia Marinho – Artsuave Cruze

1) Os benefícios do Jiu-Jitsu não são particularmente só para mulheres. O Jiu-Jitsu brasileiro tem benefícios para toda a gente, desde homens, mulheres até crianças. Falando nos benefícios de forma geral, o Jiu-Jitsu trabalha tanto a parte física como mental, sendo um trabalho completo. Em termos físicos o Jiu-Jitsu permite o desenvolvimento de todo o corpo, aumentando a resistência física, a força muscular e claro tonificando o corpo. O Jiu-Jitsu como não tem movimentos rígidos nem isolamento muscula,r permite que todos os músculos desde a musculatura das pernas, braços e tronco sejam trabalhados, dando assim um corpo definido e tonificado de forma global. Em termos mentais o Jiu-Jitsu, a meu ver, é muito mais interessante. Como toda a gente diz, o Jiu-Jitsu é o xadrez mas numa forma humana, é preciso haver concentração, capacidade de analisar a situação em que se encontra para constantemente modificar a sua estratégia e muita atenção aos pormenores.

Numa luta um pormenor não efectuado pode ser fatal, por isso quem pratica Jiu-Jitsu está constantemente a trabalhar a concentração, a memoria, a capacidade analítica, a capacidade de se adaptar a situações e como é obvio a capacidade de lidar sobre pressão. Quem nunca, quando começou, não bloqueou quando levou um amasso a sério? Todas essas capacidades mentais são importantíssimas no nosso dia-a-dia tanto em situações de perigo como no nosso trabalho como até na nossa vida familiar e de lazer. Falando especificamente nas mulheres eu diria que a grande vantagem para elas, que exista em menor número nos homens, é o aumento da auto-confiança. No dia-a-dia e, em situações de perigo contra homens, a mulher está sempre em desvantagem, o homem é sempre mais forte e por natureza mais agressivo. O Jiu-Jitsu permite à mulher igualar um pouco a situação no caso em que o agressor não seja desta mesma arte como é obvio. Então a mulher ao sentir a eficácia do mesmo durante os treinos e durante a sua evolução começa a ganhar mais auto-confiança, começa a conseguir avaliar as situações que lhe surjam de outra maneira pois já não se sente Tao “desprotegida”. A própria postura modifica eu acredito que basta isso para que se evite pequenas situações de desconforto. Da minha forma de ver, uma mulher com medo e com pouca confiança transmite essa postura de insegurança o que leva aos agressores mais “comuns” sentirem-se um pouco mais “confortáveis” nessa posição. Quando uma mulher é mais confiante e segura a sua postura modifica-se e esses pequenos agressores já pensam duas vezes. A meu ver não são só os cães que pressentem o medo; nós também o fazemos.

2) Eu desde o inicio comecei em aulas mistas mas compreendo a necessidade das aulas exclusivamente para elas. Para mim foi fácil a introdução nas aulas, o meu instrutor Pedro “Cruze” foi impecável tendo controlado toda a situação explicando-me passo a passo o que se fazia e o porque de o fazer e obviamente não descurou no controlo da situação que já por si estava controlada já que os meus companheiros de treino eram e são impecáveis. Num tom pessoal, lembro-me que todos eles, inicialmente, tinham algum medo de me lesionarem, coube ao Cruze saber moderar tanto o medo como a força deles. Hoje em dia já tudo esta adaptado e já me amassam forte e feio (mentira são continuam uns fofos :D).

Em relação as aulas exclusivas delas identifico cerca de quatro razões relevantes para as aulas exclusivas acontecerem. Desde nova, sempre fui ligada ao desporto por isso desde cedo me relacionei tanto com homens como com mulheres nesse meio por isso a transição para o Jiu-Jitsu não teve qualquer problema neste aspecto. O desporto é das actividades com mais contacto físico, as pessoas cumprimentam-se, abraçam-se festejam nas vitórias e fazem o “luto” nas derrotas em parceria e na maioria dos desportos existe contacto físico. Até mesmo nos desportos individuais existe algum contacto. Mas a maioria das mulheres adultas, pelo menos na nossa realidade portuguesa, pouco contacto desportivo tiveram ou então tiveram apenas com o género feminino por isso eu compreendo que para elas se iniciarem nesta arte em que o contacto físico é permanente possa ser constrangedor e intimidante estar no meio de homens.

A segunda razão poderá ser a vergonha e a falta de confiança. Quantas mulheres conhecemos que tem vergonha de ir para os ginásio quando estão só homens? Ou porque tem vergonha do seu corpo, ou porque não se sentem a vontade, seja lá a razão de cada uma, isso acontece tantas vezes que ate se criaram ginásios puramente femininos. Logo se isso acontece em actividades que não existe qualquer contacto físicos porque não iria acontecer numa arte em que o contacto existe de uma forma tão permanente. A terceira razão que eu identifico e falando frontalmente, tem muito a ver com os relacionamentos amorosos. Para a maioria dos homens leigos nesta arte pode ser difícil entender que aquele contacto físicos seja apenas desportivo, para eles simplesmente é algo em que eles e elas andam para ali enrolados e em posições esquisitas. Isso pode ser ameaçador para ele caso as aulas sejam mistas, podendo trazer muitos problemas à relação. Nesta situação, se uma mulher quiser iniciar, será muito mais fácil e mais “suave” a introdução da ideia no namorado se as aulas forem só para mulheres. Ele terá tempo para conhecer a arte e observar os benefícios que trás à mulher. A quarta razão, e última, que eu identifico mas que acredito que é rara acontecer é a leitura e até as “más línguas” que às vezes surge de historias em que os companheiros de treino e até instrutores/mestres se aproveitam da situação para outros sentidos que não o desporto. Essas situações só trazem má imagem à arte, mas como eu penso, não se pode generalizar e cabe à mulher escolher uma academia com a reputação certa e caso não goste de algum comportamento, falar ou com o mestre ou se for necessário com as entidades competentes.

Para finalizar, penso que as aulas exclusivas para elas apareça numa fase inicial. Nesta fase é importante introduzir as bases, permitir que elas ganhem à vontade e confiança com o contacto e depois, eu acredito que é bom atira-las ás feras, os homens Não faz mal a ninguém, nem a eles nem a elas, treinarem juntos desde que exista respeito entre todos. Cabe ao treinador “impor” esse respeito e saber se e quando, a atleta está pronta para esse passo.

3) Eu entendo que toda a arte marcial tem que ter um “cheirinho” de agressividade e não de violência. Se o Jiu-Jitsu é uma arte marcial que para além da vertente desportiva tem a vertente da defesa pessoal, esta terá que ter a sua cota parte de agressividade. Numa luta de rua não há regras, nem respeito e todos os golpes contam logo, cabe à “arte” ensinar-nos a lidar com essa violência com agressividade. A meu ver o Jiu-Jitsu é uma arte agressiva mas não de forma extrema. Acima de tudo é uma arte nobre em que permitimos a desistência do adversário em posições que colocam em risco a sua integridade física .

Para os leigos que nada percebem, a arte na vertente desportiva pode ser vista como violenta, afinal estamos a tentar desmaiar ou “arrancar” uma articulação do nosso adversário mas, o que os leigos não entendem é a nobreza da arte, a parte dos “3 tapinhas” é tão importante como o armlock voador  espectacular que se fez. Apesar de naquele momento estarmos em posição de magoar ou fazer desmaiar o adversário, ele desistindo nós abandonamos a posição e tudo acaba. Apesar de sermos agressivos, não somos violentos não necessitamos de chegar ao extremo e deixar o outro a dormir nem com o braço partido. Em termos desportivo não existem golpes traumáticos (pelo menos não intencionalmente), não mgolpes baixos;  existe sim a utilização do nosso corpo e do nosso adversário como alavancas e sistemas de forças que levam a uma submissão.

Como preparação para defesa pessoal é necessária a introdução de movimentos e golpes de defesa contra esses golpes traumáticos pois na rua tudo vale podendo sim tornar as coisas ainda mais agressivas e até violentas. Do que vale saber muito Jiu-Jitsu desportivo se damos o queixo ao adversário? Ou no inicio da luta vamos sentar-nos e andar a berimbolar? Óbvio que não. É necessário saber adaptar o Jiu-Jitsu que sabemos à situação de rua, saber que técnicas são melhores para cada situação. Cabe ao instrutor saber passar essa informação. Não acredito que seja absolutamente necessário aulas apenas de defesa pessoal apesar que podem facilitar mas, se o instrutor tiver o cuidado de quando ensina, dar exemplo e oportunidade de executar a técnica de Jiu-Jitsu para uma situação de rua, óptimo e de certeza todos ganham com isso.

Nenhuma arte marcial é exclusivamente só masculina ou só feminina. Desde a igualdade entre género que tudo é misto mas como toda a gente sabe devido à sua maneira competitiva e à sua agressividade o homem sempre terá mais pré-disposição para as artes marciais. Mas o Jiu-jitsu em termos de eficácia ultrapassa todas as outras permitindo ser uma óptima arte marcial para as mulheres. Já pratiquei algumas artes marciais, passei pelo Karate, fui durante algum tempo ao Muay thai e fiz aulas de defesa pessoal e posso dizer que nestas artes nunca senti o verdadeiro sentido de eficácia.

Por mais forca que eu tivesse o meu soco, dado a um homem, não produziria nem metade da forca nem de dano que ele me poderia dar. Nunca na vida ou só por muita muita sorte deixaria um homem ko numa luta real; no máximo iria irritá-lo ainda mais mas com um estrangulamento bem encaixado qualquer um adormece, por exemplo. Todas as outras artes utilizam mais o sistema de força contra força. Aqui, a técnica prevalece pois os sistemas de alavanca permitem o uso mínimo de força para o máximo da eficácia. Acredito, e isso foi algo sempre dito pelo meu instrutor, que numa situação de desigualdade ou seja a mulher ter a técnica de Jiu-Jitsu e o homem só a força, a técnica vai prevalecer sempre e isso eu vou comprovando quando chegam alunos novos. Mas quando a técnica é equiparada, o homem como é obvio está sempre em vantagem pois tem a técnica e a forca a seu favor, daí que num campeonato homens e mulheres lutem em separado. Numa situação de rua a mulher que sabe Jiu-Jitsu poderá ter vantagem em relação aos agressores.