Um café com…Carlos Cunha.

 

JiuJitsuPortugal – Apresenta-te (idade; faixa; ocupação)
Carlos Cunha - 30 anos, faixa azul (Artsuave / Icon), arquitecto.

JJP – Como é que te sentiste quando recebeste a medalha de ouro?
CC - Para dizer a verdade, não me apercebi bem do que estava a acontecer no momento. É uma mistura de sensações e dificilmente temos uma noção da realidade que estamos a viver. Ao mesmo tempo, lembro-me de passar uns minutos a olhar fixamente para medalha, ao ponto de ver e rever todos os pormenores da mesma, se calhar um defeito de arquitecto. O sentimento vem depois, quando no conforto de nossa casa, revivemos a competição, numa análise introspectiva em que destacamos o que fizemos bem, mas sobretudo o que fizemos mal e que nos deixa a pensar vários dias no mesmo, de forma a tentar corrigir de seguida no próximo treino. Agora mais distancia, sinto que foi única, a sensação de subir a um pódio numa competição com a dimensão de um Europeu. Tinha em Novembro recebido a minha primeira medalha no Open nacional de Jiu-Jitsu (ouro) e recordo-me de pensar que nunca mais me ia esquecer e que provavelmente seria aquela que me iria recordar, talvez por ser a primeira, não sei. Porém, após viver uma experiência como o europeu de Jiu-Jitsu, penso que rapidamente se esquece o que aconteceu no nacional.

JJP – Qual é a sensação de entrar no tatame, num evento da dimensão do Europeu?
CC - É uma sensação de cortar a respiração, por mais calmos que aparentemos estar, as pernas começam a tremer a cada passo que damos em direcção ao tatame. É uma sensação quase uma bomba relógio, à espera que seja libertado com a autorização do arbitro para o início da luta. Aí, esquecemos tudo, e tento pensar que estou em mais um treino com os meus colegas e que não tenho nada a perder nem a provar, bem pelo contrário, estou lá para competir sim, mas sobretudo para me divertir e evoluir como atleta. O facto de poder pisar o mesmo tatame de atletas de nível mundial, e sobretudo poder conviver com eles, é uma experiência única que vale por si só, sobretudo para quem está praticamente no início de um processo de evolução na modalidade, como é o meu caso.

JJP – Viveste o evento no tatame (atleta) e na bancada (espectador). O que pensas deste evento?
CC - Independentemente de competir ou não, trata-se de um evento de caris mundial, em que qualquer aficionado da modalidade deve vivamente assistir. É uma maratona de 4 dias em que se respira Jiu-Jitsu, vive-se intensamente as lutas dos nossos colegas, e como bónus, temos o privilégio de assistir a lutas dos mais bem cotados no ranking. Na tentativa de aprender com os melhores estamos atentos pequenos detalhes de cada um, e que no momento pensamos que temos todos esses detalhes aprisionados na nossa memória, de forma a por em prática logo no treino seguinte na academia. Na verdade, as coisas não são tão lineares, rapidamente nos esquecemos da totalidade dessas técnicas, devido ao número de lutas que vemos nos quatro dias, ficando porém, a imensa vontade de treinar, quase como uma injecção de adrenalina, em que andamos super motivados e ansiosos pelo próximo rola.

JJP – Como é que surgiu o Jiu-Jitsu na tua vida?
CC - Sempre gostei de competir, aliás desde que me conheço que sempre competi, embora noutras modalidades. Sempre tive um gosto por desportos de combate, embora não encare o Jiu-Jitsu como tal. O pouco tempo que a faculdade me deixava livre não me permitia uma dedicação intensiva que a prática de um desporto deste tipo implica. Prometi a mim mesmo, que no último ano de faculdade, já com mais algum tempo disponível, iria voltar ao desporto com intenção de competir. Fiz boxe anteriormente e o Jiu-Jitsu aparece numa perspectiva de complementar o que à partida estava estipulado ser a actividade principal, o boxe. Foi então que iniciei o Jiu-Jitsu na academia 77, mas numa fase em não sabia bem se iria continuar ou não. Porém, o factor determinante foi a forma como me receberam e esse primeiro contacto com os meus colegas e sobretudo com o meu mestre Marco Carneiro, foi sem dúvida o que me fez voltar e continuar até aos dias de hoje e me dedicar praticamente apenas ao Jiu-Jitsu.

JJP – Para ti, quais são as vantagens que o Jiu-Jitsu proporciona a quem o pratica?
CC - O Jiu-Jitsu, assim como, qualquer outra actividade física, tem inúmeras vantagens logo à partida no que se refere à saúde e bem-estar. Porém, o Jiu-Jitsu para mim é mais do que um simples desporto. Ajuda-me a manter uma disciplina regrada com o meu corpo e mente. Isso reflecte-se no meu dia a dia tanto a nível pessoal como profissional.

JJP – Projectos para o futuro no Jiu-Jitsu?
CC - Chegar à faixa preta é o objectivo que nos alimenta diariamente. Trabalhar dia após dia, em direcção à mesma, sendo que a cada dia que passa fica mais próxima. Mas não é uma obsessão. Sei que não sei praticamente nada e que tenho um longo caminho pela frente. Mas durante esse caminho, gostava imenso de poder continuar a competir e poder participar num Mundial.

JJP – Queres deixar uma mensagem?
CC - Queria lançar um desafio a todas as pessoas que ouvem falar de Jiu-Jitsu e não sabem bem do que se trata, e sobretudo pensam que é mais um desporto de combate. Experimentem e tirem as vossas conclusões. Tudo depende de quem passa a mensagem, de quem ensina, de quem transmite a essência do que é o Jiu-Jitsu e verão que o Jiu-Jitsu é muito mais que um desporto de combate…mas sim um estilo de vida!
Por fim, um agradecimento aos meus colegas de treino da Artsuave, pois eles são um factor determinante na minha evolução, ao meu mestre Marco Carneiro, pela dedicação e entrega que mostra treino após treino, a academia 77 por me acolher nesta grande família (Artsuave) que tenho a honra de pertencer.

Oss.

  • marcão

    Realmente “Sem Comentários,”!!!…Hummm… melhor não, ou, melhor sim.
    Carlinhos, fico muito feliz que tenhas captado a ideia de Jiu-Jitsu , exactamente da maneira que eu, quando comecei a treinar, cheguei a Faixa Azul, já sabia que faria isso pro resto da minha vida!
    Você esta indo muito bem, e vai chegar onde você quiser chegar!
    Parabéns por tudo, saúde e disposição e um forte abraço!!!

    • administrador

      Nada melhor que o elogio do Mestre, certo?

      • Carlos Cunha

        elogio mais do que merecido… esse é o cara!!
        nós como alunos, somos o espelho de quem nos orienta.. e um dia mais tarde poder dizer que fui aluno do marcão é um orgulho e por si só já valeu a pena!